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Silvio Lancellotti - Blogs
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Memórias da Copa 3: em 1962, o bi do Brasil, mesmo sem o astro Pelé

Um distensão na virilha, logo no segundo jogo da Copa do Chile, o impediu de atuar. Mas, apareceu Amarildo e o Mané Garrincha realizou uma competição impecável, absolutamente inesquecível.

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Garrincha lidera a volta olímpica do Brasil em Santiago do Chile
Garrincha lidera a volta olímpica do Brasil em Santiago do Chile Garrincha lidera a volta olímpica do Brasil em Santiago do Chile

Pela proximidade do Chile, na Copa de 62 foi possível apreciar os teipes dos jogos exatamente na mesma data em que aconteciam bem aqui do outro lado da América do Sul. Numa época em que não havia a Rede Globo, as emissoras mais importantes, a Tupi e a Record, embora concorrentes, criaram uma operação conjunta, o “pool”, de modo a favorecer o transporte das fitas, pesadíssimas, que então se utilizavam. Creio que eram Walter Abrahão e Geraldo Bretas o narrador e o seu comentarista na Tupi, Raul Tabajara e Paulo Planet Buarque os congêneres da Record. Flávio Iazetti funcionava como “juiz do árbitro”. E as exibições aconteciam, sempre, a partir das 23h00. Audiência gigantesca...

A solidão de Pelé, depois da distensão na virilha
A solidão de Pelé, depois da distensão na virilha A solidão de Pelé, depois da distensão na virilha

No terceiro ano do Curso Colegial, hoje conhecido como “Ensino Médio”, na véspera de um exame vestibular para Arquitetura, eu ainda me esmerava na prática de esportes vários e vira-e-mexe excursionava com as equipes do Rio Branco. Calhou de no dia 2 de Junho, um sábado, quando o Brasil enfrentaria a Tchecoslováquia, na fase de grupos, eu integrar uma delegação que fazia uma viagem a Santa Cruz do Rio Pardo, Sul do Estado, quase nas margens do Rio Paranapanema, na fronteira com o Paraná. A maioria dos atletas da escola ia de ônibus, um pullman guiado por um inesquecível motorista, o Zé Flausino. Eu, porém, um dos diretores do grêmio estudantil, merecia o conforto de escoltar Luís Roberto Alves Ferreira, nosso presidente, de apelido Luís Carimbo, a bordo do seu novíssimo DKW.

O Dr. Hilton Gosling, Aymoré Moreira e o lesionado Pelé
O Dr. Hilton Gosling, Aymoré Moreira e o lesionado Pelé O Dr. Hilton Gosling, Aymoré Moreira e o lesionado Pelé

O apelido advinha do fato de o Luís não se desvencilhar de uma sacolinha de couro cheia de chanceladores com a sua assinatura, a sua rubrica, as suas iniciais etcetera e tal, prodígio que lhe permitia marcar até a pele dos colegas. Esse risco à parte, todavia, valia estar no DKW porque o veículo possuía um rádio potente de vários comprimentos de onda. Em plena estrada no horário do cotejo, pudemos estacionar nos altos de uma colina e testemunhar o drama da contusão de Pelé, uma impiedosa distensão na virilha. Treinada por Aymoré Moreira, que tinha ocupado o lugar de Vicente Feola, o campeão da Suécia/58, acometido de distúrbios cardíacos semanas antes, a seleção havia batido o México, em 30 de Maio, 2 X 0, um gol de Zagallo e um golaço de Pelé. Quase no desfecho da etapa inicial diante da Tchecoslováquia, contudo, o narrador fez uma pausa e com a voz opaca disse algo como: “Problema com Pelé”. Obviamente, quem escutava se aterrorizou.

O reserva Amarildo e o titular Pelé
O reserva Amarildo e o titular Pelé O reserva Amarildo e o titular Pelé

Mais dois amigos estavam comigo no carro do Carimbo: o saudoso Toninho Arnaud, craque no Futsal e capitão do time de Basquete, e Beto Carvalhal, craque no gramado e um factótum noutras modalidades. Naqueles idos não se permitiam trocas no Futebol. Porém, pela transmissão, foi possível entender a gravidade da situação. Gravidade que só constataríamos no domingo pelo impacto da manchete do semanário da cidade: “Pelé fora do Mundial?”. Claro que torcemos por um grande milagre. E se não ocorreu a recuperação de Pelé, fulgurou o seu reserva, Amarildo, já na pugna seguinte, dia 6, vitória de 2 X 1 na Espanha, os dois tentos daquele que justamente ganharia o epíteto de “Possesso”.

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Nílton Santos, prestes a sair da área depois de cometer um penal no jogo com a Espanha
Nílton Santos, prestes a sair da área depois de cometer um penal no jogo com a Espanha Nílton Santos, prestes a sair da área depois de cometer um penal no jogo com a Espanha

É desbragadamente óbvio que Pelé faz sempre uma falta de tamanho ilimitado. De todo modo, no Chile, com uma escalação praticamente igual à da Suécia/58 mas quatro anos mais idosa, o Brasil arrebatou o seu bi. Também eu, mais velho quatro anos, pude atestar que diferença brutal separa a paixão da narração pelo rádio da frieza crua das imagens de um teipe de televisão. Por exemplo: ao ver o teipe de Brasil 2 X 1 Espanha eu comprovei que o árbitro Salvador González Bustamante, do Chile, ajudou o Brasil em ao menos dois lances que o rádio ignorou: um tento injustamente anulado da “Fúria” e um penal ostensivo de Nílton Santos que, maroto, depois de cometer a infração, descaradamente deu um longo passo para fora da área e, de braços levantados, determinou a “lisura” da posição.

As pernas tortas do Mané
As pernas tortas do Mané As pernas tortas do Mané

Ausente Pelé, um certo Manoel Francisco dos Santos, um craque absolutamente improvável por suas pernas tortas e por seu total desapego aos treinamentos físicos, carregou o Brasil ao título de 62. Graças a seus lances individuais, seus dribles torturantes, seus cruzamentos impecáveis para Amarildo e Vavá, a seleção de Aymoré sobrepujou a Inglaterra por 3 X 1 nas quartas de final, o Chile por 4 X 2 numa das semis, a mesma Tchecoslováquia da peleja da lesão de Pelé, isso, uma outra vez, todavia por 3 X 1 na decisão. E o Pelé? Apesar de todo o empenho de um personagem antológico no Futebol do País, o massagista Mário Américo, que inclusive dormia a seu lado no hotel onde o Brasil se alojava, Pelé necessitou de três meses até chutar uma bola. Pior, quatro anos após, na Inglaterra, de novo se sacrificaria. Mas, não se contundiu sozinho. Foi, sim, literalmente massacrado pelo cruel turbilhão de pancadas vis que recebeu de adversários maldosos – e que permaneceriam impunes.

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O capitão Mauro levanta a taça Jules Rimet
O capitão Mauro levanta a taça Jules Rimet O capitão Mauro levanta a taça Jules Rimet

PS: Este texto representa o esboço de mais um capítulo de uma tentativa de eu escrever a minha autobiografia; no mínimo, uma seleta de causos que vivi e/ou testemunhei. De hoje até esgotar o tema “Copa do Mundo”, publicarei, aqui no meu espaço do R7, textos sobre as outras disputas de 1966 até 2018. Algumas que inclusive cobri in loco, de 1970, de 1990 e de 1994.

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