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Memórias da Copa 14: não, Diego Maradona não se dopou em 1994

Sem ignorar os seus defeitos e mesmo os seus malfeitos, naquela competição o "Pibe" meramente foi vítima de um equívoco, da canalhice da sua federação e da cumplicidade rancorosa da FIFA

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

A última imagem de Maradona com a camisa da Argentina
A última imagem de Maradona com a camisa da Argentina A última imagem de Maradona com a camisa da Argentina

Para compreender os catalisadores da reação que levou, na Copa dos EUA/94, à cruel decadência de Diego Armando Maradona, é essencial retomar alguns episódios do seu passado, a partir do seu comportamento na cerimônia de premiação da Itália/90, aquele impressionante acesso de raiva contra os cartolas da FIFA na tribuna de honra do Olímpico de Roma. Em 1991 ele completou a sua era de sete anos de muito brilho no Napoli e se entregou a uma temporada patética no Sevilla. Daí, enorme de gordo e já um ex-“Pibe”, precariamente ainda tentou salvar a sua carreira no Newell’s Old Boys da cidade de Rosário. Em Setembro de 1993, mal realizara cinco pelejas sem um único tento quando um emissário de uma multinacional de sede nos EUA, patrocinadora da Copa e da FIFA, lhe propôs, via Júlio Marcos Franchi, o seu empresário, um bônus para que recuperasse a sua forma até a competição: uma bagatela de U$$ 600 mil, no bolso, livres de descontos.

Em 1991, detido pelo porte de cocaína
Em 1991, detido pelo porte de cocaína Em 1991, detido pelo porte de cocaína

Com a ajuda de Don Diego e Doña Tota, os pais do astro, da sua esposa Cláudia e do fisicultor Fernando Signorini, o empresário encetou um gigantesco trabalho destinado a convencer a Mídia, a federação (AFA), os torcedores, de que Maradona desejava se recuperar. Desejava esquecer a sua prisão, em Abril de 1991, por posse de cocaína, todas as suas loucuras nos idos de inatividade, como os tiros de chumbinho que desferira em Carlos Lorenz, fotógrafo da Editorial Atlântida que lhe armava uma tocaia na porta da sua casona de campo da Calle Plus Ultra, 80 quilômetros distante de Buenos Aires. Maradona, inclusive, aceitou se submeter a um programa radical de resgate psicológico e muscular, desenvolvido por um médico repeitadíssimo, Néstor Alberto Lentini, o diretor do setor de Capacitação Atlética que o próprio governo platino havia recentemente implantado.

Néstor Lentini
Néstor Lentini Néstor Lentini

Faltavam apenas 90 dias para a abertura da Copa. E o ex-“Pibe” determinadamente se aplicou e rejuvenesceu. Internou-se numa clínica de Santa Rosa, 500 quilômetros longe da capital. Entregou-se a uma dieta diabólica e a exercícios com um antigo pugilista, Miguel “Zorro” Campanino. Não largava do El Uniq Cic Pro Trainer, um relógio de pulso que acusava a menor alteração nas suas funções biológicas. Marcado homem-a-homem por Signorini, que verificava o seu peso três vezes a cada dia, durante horas corria numa esteira de quase US$ 10.000, a Tredex. E ainda ingeria um singelo suplemento alimentar capaz de neutralizar sua gula, o Universal Ripped Fast, do laboratório Twinlab, dos EUA, encontrável na rede do General Nutrition Center, espalhada através da América e ultra na moda, por se especializar na então efervescente comercialização de produtos naturais e orgânicos.

Fernando Signorini
Fernando Signorini Fernando Signorini

Paralelamente, se acirrava no esporte um combate radical às substâncias estimulantes e aos seus correlatos. E, claro, também havia atletas, afetados por problemas variegados de saúde, que necessitavam de alguma medicação formal. De modo a regulamentar o consumo, a FIFA e o seu departamento anti-doping criaram protocolos de controle e daí passaram a exigir que cada delegação apresentasse, oficial e previamente, uma relação de eventuais produtos utilizados por cada integrante de cada equipe. Na fórmula do Ripped Fast não havia quaisquer substâncias perigosas ou vetadas e Lentini não se preocupou em incluí-lo no rol de Maradona. Ironia, o único problema que pairava sobre o craque, como uma nuvem que insinua tempestades, era a dura oposição da uma madame rabugentona sem poder mas super-influente, Nélida Grondona, a mulher de Júlio, presidente da AFA. Abertamente, Nélida não hesitava em xingá-lo de “el índio hijo de puta!” Famosa pela sua agressividade, exerceria função fundamental na impiedosa e vil crucificação do craque.

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Com Daniel Cerrini
Com Daniel Cerrini Com Daniel Cerrini

A única extravagância de Maradona naquela competição foi uma extravagância de fato descomunal. Viajou aos EUA com uma comitiva de duas dezenas de familiares, de amigos e de bajuladores, pessoas que se esmerou em bancar com a sua grana. Naturais as presenças de Cláudia e das filhotas Dalma Nerea e Giannina Dinorah. Infelizmente, todavia, agregou ao seu entorno particular um tal de Mário Daniel Cerrini, o dono de uma academia de ginástica de Buenos Aires, que se dizia nutricionista mas que, na verdade, não passava de mero protegido de Zulema Menem, esposa do presidente Carlos Saúl. Lentini desconfiava de Cerrini e, por isso, transformou o preparador Signorini num xerife de Maradona. E Maradona efetivamente fulgurou na sua exibição inicial, placar de 4 X 0 na Grécia. Mas, por um azar de antologia, ao registrar um golaço e ao comemorá-lo, ele inadvertidamente galopou até uma câmera de TV que se localizava abaixo do camarote de George Bush, ex-presidente dos EUA. Artificiosamente congelada numa dramática fração de segundo, a imagem insinuou que Maradona ofendia Bush e odiava a FIFA e o mundo.

A imagem congelada do gol contra a Grécia
A imagem congelada do gol contra a Grécia A imagem congelada do gol contra a Grécia

Jamais se conhecerão as reais circunstâncias do processo que colocou Maradona no exame antidoping do combate subsequente, contra a Nigéria. É fato, no entanto, que ele estava sossegadíssimo em relação a qualquer resultado do teste. De passagem pela Zona Mista, brincou que seguiria a sugestão de jantar lagostas com Cláudia e com as duas meninas no charmoso restaurante Legal Sea Food, de crustáceos extraordinários. E enquanto ele relaxava, naquela mesma noite os frascos com o seu xixi viajavam de avião até Los Angeles, onde seriam analisados no Paul Zibbern, um dos laboratórios da UCLA, a Universidade da Califórnia. Pela manhã, às 10h30 na Costa Oeste e 13h30 em Boston, um técnico do Zibbern formalmente comunicou à sua chefia no instituto que, num dos frascos, ainda sem a identidade do dono do conteúdo, se constataram traços de Efedrina, uma velha suspeita de enfatizar performances, e de outras quatro das suas possíveis sub-ramificações.

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Com Cláudia e as duas meninas
Com Cláudia e as duas meninas Com Cláudia e as duas meninas

Não durou trinta minutos a confidencialidade do exame. Alguém decifrou o código alfanumérico que determinava a procedência dos frascos: Maradona. Alguém telefonou a Michel D’Hooghe, o responsável pelos antidopings da Copa: Maradona. D’Hooghe telefonou a Joseph Blatter, o secretário-geral da FIFA: Maradona. Sepp Blatter ligou a Júlio Grondona, que contou a Doña Nélida, que reagiu: “Maradona, de novo aquele índio filho da puta?” Acuado pela esposa, Grondona zuniu até o Babson College, onde a delegação da Argentina se alojava. E notificou Eduardo Deluca, cartola menor da AFA, e Deluca notificou Daniel Bolotnicoff, advogado de Maradona. Definiu-se que uma comitiva viajaria até Los Angeles, logo às sete da manhã, para presenciar o indispensável exame da contraprova do xixi comprometido pelo suposto doping. Apenas o advogado, um homem sereno e pragmático, se preocupou em avisar Franchi. Que se impactou. Sentira um cheiro bastante ruim...

Daniel Bolotnicoff
Daniel Bolotnicoff Daniel Bolotnicoff

Na tarde de 29 de Junho, num Mercury hidramático que terminaria aquela Copa impecável, apesar dos 40.000 km em um mês de “freeways”, eu retornava de Washington DC e do jogo Itália 1 X 1 México. Nunzio Briguglio, um “fratello”, enviado aos EUA pela “IstoÉ”, dividia a direção comigo, rumo ao Centro de Imprensa do Giants Stadium de Nova Jersey. Ouvíamos ópera, Puccini, a “Butterfly”, com Leontyne Price e Richard Tucker, e um trovão no celular-paralelepído nos interrompeu. Ligação urgente, uma voz roufenha, com um sotaque germânico: “Silvio, fique atento. A FIFA emitiu um aviso de que um atleta de um jogo de 25 de Junho foi flagrado nos exames anti-doping. O documento não cita seu nome. Mas, saiba que é o Maradona”. Pela minha perplexidade o Nunziotto percebeu que algo de grave havia eclodido. Uma fonte elevadíssima da FIFA acabara de revelar o flagrante de dopagem do Dieguito. Assim que chegamos ao Giants e eu conectei o meu laptop, um estranho boletim da FIFA de fato comunicava o flagrante mas sem detalhes e sem o nome do flagrado. Apenas citava duas marcas, Nastizol e Decidex, dois produtos antigripais. Uma invenção pérfida de Grondona, que transmitira a Blatter, por fax, uma relação falsa do que Maradona teria ingerido na Copa. Detalhe: e Maradona nem sabia que existiam Nastizol e Decidex.

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Sepp Blatter e Júlio Grondona
Sepp Blatter e Júlio Grondona Sepp Blatter e Júlio Grondona

Desde 1990 eu já mantinha com Blatter, digamos, uma proximidade profissionalmente cordial e, quando decidi reconstruir todo o episódio para a “Folha”, ele me contou que, intrigado com a postura de Grondona, havia solicitado a um laboratório de Zurique, na Suíça, a investigação das fórmulas de tais antigripais. E que ficou furioso. Reprocurou Grondona, cobrou: “Júlio, me dizem lá na Suíça que, tomando esses medicamentos, Maradona teria adormecido, em campo, no jogo contra a Nigéria - e nós todos vimos que ele correu como nunca...” Ampliaria o mistério, e a confusão, um outro episódio cabuloso. No Zibborn, Bolotnicoff e Roberto Peidró, o vice-médico da Argentina, embasbacados descobriram que, no frasco da contraprova, já estavam anotadas, para que então fossem analisadas, as mesmas substâncias detectadas na amostra original. Nada de Nastizol ou Decidex, mas a Efedrina, a pura e em suas variações. Imediatamente, Peidró solicitou a anulação de todo o procedimento. Ouviria, da chefia da delegação, bem mais atônito ainda, que precisaria se calar e então esquecer o caso: “Será melhor assim, Roberto”.

Roberto Peidró
Roberto Peidró Roberto Peidró

Na década de 40 era corriqueiro o uso de Efedrina como estimulante de cavalos de corrida. Eventualmente poderia funcionar no Atletismo, num velocista. Inútil no Futebol, contudo. Só que a escumalha da AFA, sob as bênçãos do rancor de João Havelange, já decretara o guilhotinamento de Maradona. Pelos impropérios da final de 1990 e pelas entrevistas nas quais distribuíra esculhambações de Sul a Norte, de Leste a Oeste. Pela sua iconoclastia. E pela sua rebeldia. Pela sua língua aguçada. Pelo infortúnio da sua imagem congelada na partida diante da Grécia. E até pelo ódio que lhe devotava Nélida Grondona. Comportou-se como um calhorda Júlio Grondona, a quem nem a morte, em 2014, livraria de uma devassa por corrupção. Pior, se comportou como um covarde Álfio Basile, o treinador da Argentina, que grotescamente se omitiu e se apequenou, não peitou a trama, e petulante acreditou que ganharia a Copa mesmo sem o seu craque e seu capitão e perdeu os cotejos seguintes, contra a Bulgária 0 X 2 e a Romênia 2 X 3, e retornou à Argentina como um fracassado.

Nélida e Júlio Grondona
Nélida e Júlio Grondona Nélida e Júlio Grondona

Nos meados de Agosto, em Buenos Aires, na montagem da defesa de Maradona, que seria julgado pela FIFA dias depois. Franchi e Lentini vislumbrariam toda a verdade. Maradona se recordou que, pouco antes do jogo fatídico diante da Nigéria, se acabara seu estoque do Ripped Fast, do qual, inclusive, nem mais necessitava. Já atingira seu peso justo e, graças às exigências do seu xerife Signorini, estava numa condição exuberante. Também se lembrou de que Daniel Cerrini, por sua conta, saíra no encalço de um estoque de reposição do Fast. E Cerrini rememorou que, sem encontrar uma loja do GNC, havia optado por uma farmácia comum, na qual ele tinha adquirido um pacotão de um produto de quase idêntico nome, o Universal Ripped Fuel. Infortúnio, eram absolutamente equivalentes as embalagens.

O fatídico suplemento que Maradona ingeriu
O fatídico suplemento que Maradona ingeriu O fatídico suplemento que Maradona ingeriu

Ao vasculhar cada bula, todavia, Lentini constatou que o Fuel continha Efedrina na sua formulação. Com a ajuda de voluntários testou o Fast e o Fuel. Bingo! Quem consumiu o Fast pôde eliminar um xixi impecável. Quem tomou o Fuel apresentou a Efedrina na sua urina. Claro, é impossível se refazer toda a história, e denunciar a lorota do Nastizol e do Decidex, e acusar os criminosos de verdade, Grondona etcetera. Ao menos, a defesa que Franchi fez de Maradona no tribunal da FIFA evitou o seu banimento do Futebol. A entidade o puniu com 15 meses. Cerrini foi proibido de exercer qualquer atividade no Ludopédio.

Pincolini, com Alberigo Evani
Pincolini, com Alberigo Evani Pincolini, com Alberigo Evani

Na véspera da decisão da Copa dos EUA/94, na Loyola Marymount University, onde a "Azzurra" se instalou em Los Angeles e onde Roby Baggio me antecipou que ele e Franco Baresi enfrentariam o Brasil, numa conversa com o fisicultor Vincenzo Pincolini, ex-velocista olímpico nos 400m, inevitavelmente o tema Maradona & Efedrina subiu à tona. Pincolini discursou. E literalmente me disse: “Punir Maradona por Efedrina me entristece. E achar que a Efedrina, hoje, seria um estimulante, me faz rir. Ninguém usa a Efedrina como uma estratégia de doping. Já existem no mundo, hoje, dezenas de outras substâncias mais eficientes – e que, na maioria das vezes, os exames não podem detectar.” Depois de uma pausa e de um gesto de entojo ele arrematou: “ Bruta safadeza com o Maradona...”

Detalhe da capa de "El Libro Negro de Los Mundiales de Futbol"
Detalhe da capa de "El Libro Negro de Los Mundiales de Futbol" Detalhe da capa de "El Libro Negro de Los Mundiales de Futbol"

Consegui que a “Folha” me abrisse uma página dupla na sua edição de 28 de Agosto, um domingo. E, curiosamente, insolitamente, a minha reconstrução provocou mais elogios na Argentina do que por aqui. Virei um mote, inclusive, em “El Libro Negro de los Mundiales de Futbol”. Trabalheira de três autores, Andrés Bufali, Jorge D. Boimvaser e Daniel Guillermo Cecchini, que a prestigiosa Editorial Planeta de Buenos Aires lançou em Novembro de 1994, me apontou como o único jornalista a encaixar todas as peças daquele terrível e lastimável quebra-cabeça. Diego Maradona pode ter os maiores defeitos do universo. Porém, não se dopou para disputar a Copa de 1994. Mais detalhes você busca e encontra na Internet.

Pesquise por “A Queda de Maradona, 28/8/1994”.

PS: Aqui esbocei mais um capítulo de mais uma tentativa de eu, enfim, escrever uma autobiografia; no mínimo, causos que vivi e/ou que testemunhei. No próximo, outra audácia de repórter investigativo, que houve, de fato, com o Ronaldo Fenômeno, na França/98. Até se esgotar esse tema, Copa, publicarei, aqui no R7, artigos e excertos sobre as outras disputas.

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