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Curiosidades da Copa: os troféus, da Jules Rimet até a Taça FIFA

No México/70 o Brasil arrebatou de vez a maravilha inspirada da Nike da Samotrácia. Que, por incúria da CBF, acabou surrupiada de sua sede no Rio e, acredite, derretida por um ourives argentino.

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

A Nike da Samotrácia, inspiração da Jules Rimet
A Nike da Samotrácia, inspiração da Jules Rimet A Nike da Samotrácia, inspiração da Jules Rimet

Em 28 de Maio de 1928, no congresso pioneiro que planificava a organização da edição inaugural da Copa do Mundo, no Uruguai, dois anos depois, Jules Rimet, o presidente da FIFA, sugeriu a criação de um troféu exclusivo, de posse transitória, entregue ao campeão. Rimet imaginava que a existência da Copa multiplicaria a quantidade de equipes de qualidade através do planeta e, assim, também propôs que arrebataria o troféu, definitivamente, quem ganhasse por três vezes a competição. Imaginava que, pelo número dos candidatos valorosos, decorreriam décadas antes que uma seleção se habilitasse. Abel Lafleur, um artesão e um francês como Rimet, recebeu a missão de realizar a obra.

Pôster da Copa da Rússia/2018, com os dois troféus
Pôster da Copa da Rússia/2018, com os dois troféus Pôster da Copa da Rússia/2018, com os dois troféus

Inspirado em uma representação de Nike da Samotrácia, deusa helênica da vitória, escultura incompleta do Século II, em exposição no Museu do Louvre de Paris, Lafleur bolou uma dama alada, em prata recoberta de ouro, sobre um elegante pedestal de lápis-lazuli, com 35cm de altura e 3,8kg de peso. Num outro congresso, em 1º de Julho de 1946, o troféu ganhou um nome, a Taça Jules Rimet. Por incrível ironia, já em 1950, com o triunfo do Uruguai na Copa hospedada pelo Brasil, se tornou vulnerável a virar objeto, definitivamente, de um só país. O Uruguai havia conquistado o seu segundo título. A Itália também tinha dois lauréis. E caberia ao Brasil, em 1970, na nona edição da Copa, ultrapassar a "Celeste" e a "Azzurra" e completar as três conquistas essenciais.

Carlos Alberto, o capitão da conquista definitiva da Jules Rimet
Carlos Alberto, o capitão da conquista definitiva da Jules Rimet Carlos Alberto, o capitão da conquista definitiva da Jules Rimet

Paira uma tristeza imensa sobre essa posse que seria de antologia mas acabou por se transformar em inutilidade. Antes de o Brasil abiscoitá-la, irrecorrivelmente, a taça desapareceu, em Londres, no dia 20 de Março de 1966, na véspera da Copa organizada pela Inglaterra. De modo a estimular o interesse pela competição, a FIFA levava o troféu a um passeio pelas cidades-sede. No caso, o troféu emprestado, claro, pela então CBD de João Havelange, a sua detentora desde o Chile/1962. E naquela data a Jules Rimet enriquecia uma gigantesca exposição filatélica no Center Hall de Westminster. Do nada, apesar de todas as medidas de proteção e de vigilância, a taça desapareceu.

Pickles, na praça de Londres em que encontrou a Jules Rimet
Pickles, na praça de Londres em que encontrou a Jules Rimet Pickles, na praça de Londres em que encontrou a Jules Rimet

Mobilizada, a Scotland Yard, celebérrima polícia da Grã-Bretanha, liderou uma caçada brutal até que um cidadão, identificado apenas como Jackson, solicitou um resgate de valor equivalente, hoje, a R$ 75.000, ou derreteria a Jules Rimet. A Yard apreendeu Jackson, na realidade um ex-militar arruinado de nome Edward Betchley, 46 anos, e gastou uma semana a interrogá-lo. Então, no dia 27, um piloto de barcaças fluviais, David Corbett, 26, fazia a sua ronda habitual com Pickles, seu cãozinho preto-e-branco da raça Collie, quando o bicho se enfiou num arbusto de uma praça ao sul de Londres e encontrou a taça, envolta em folhas de jornal. Além da fama evidente, Pickles mereceu, de uma empresa de rações, um fornecimento de alimentação para o resto da vida - e ele viveria por mais três anos.

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Pickles, com David Corbett
Pickles, com David Corbett Pickles, com David Corbett

No livro “Day of the Match” os autores Rowan Walker e Scott Murray detalham o episódio e relatam que um dos cartolas da CBD se indignou com a “falta de segurança” na exposição de Westminster e ainda desferiu uma frase lapidar: “No Brasil, ninguém ousaria cometer o crime, ou o sacrilégio, de furtar a Jules Rimet. No Brasil, afinal, até os ladrões são apaixonados por futebol.” Poderia ter-se poupado de tamanha estultice. Depois que a seleção de Pelé & Cia. abiscoitou a taça, para sempre, no México/70, por lógico descargo de consciência a FIFA lhe entregou, além da original, uma réplica perfeita. Segurança total?

A vitrina da CBD/CBF, antes do furto
A vitrina da CBD/CBF, antes do furto A vitrina da CBD/CBF, antes do furto

Nada. Ridicularia absoluta. A entidade trancou a réplica num cofre e expôs a original em sua sede então na Rua da Alfândega do Rio, numa vitrina supostamente inabalável, à prova de balas, abraçada por uma moldura de madeira e pregada à parede. Tolice cósmica. Que aguçou a ambição de Sérgio Pereira Ayres, ou “Peralta”, o portador de uma credencial de representante do Atlético/MG na entidade. Decidido a furtar a peça, o “Peralta” se juntou a Francisco José “Barbudo” Rocha Rivera, e a José Luiz “Bigode” Vieira da Silva, seus amigos de pensão, no bairro de Santo Cristo. O trio, na noite de 19 de Dezembro de 1983, entrou na sede sem empecilhos, com um mero pé-de-cabra arrombou a vitrina através da moldura e tranquilamente recolheu a Jules Rimet de verdade e mais alguns badulaques.

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A vitrina, depois do furto
A vitrina, depois do furto A vitrina, depois do furto

Tão simples, o plano funcionaria, perfeitamente, não ocorresse uma delação. Por via das dúvidas, “Peralta” havia considerado conveniente levar, também, a taça do cofre. Por isso convidou um especialista para participar da operação, Antonio Setta, ou “Broa”, famoso como um dos mais competentes da cidade. O “Broa”, porém, refugou, ao saber que o trio pretendia derreter a peça e angariar grana com os seus metais preciosos. Achou a intenção abominável, inclusive porque seu irmão, Giacomo, emocionado, sofrera um infarto ao ver Carlos Alberto, com o troféu, na tribuna do Estádio Azteca. Ao ler, num jornal, que o assalto de fato sucedera, o "Broa" não hesitou e imediatamente denunciou os ladrões.

O "Peralta" e o "Barbudo", detidos
O "Peralta" e o "Barbudo", detidos O "Peralta" e o "Barbudo", detidos

A polícia demorou muito até capturar os malfeitores. Apenas em 25 de Janeiro de 1984 detive o “Peralta”, bem sossegado a caminhar no Aterro do Flamengo. Também bastante tarde se descobriu que, repassado a um ourives argentino, Juán Carlos Hernández, o troféu já fôra fundido. A FIFA ainda forneceria nova réplica ao Brasil. O para-sempre, contudo, já era nunca-mais. E , desde 1974, um novo troféu substituíra a Jules Rimet, uma taça sumariamente batizada mesmo de FIFA, ôca e com uma casca de 6,1kg de ouro, 75%, altura de 36,5cm e uma base de ouro e de pedra malaquita na cor verde, avaliada em cerca de R$ 800 mil. Uma criação do italiano Silvio Gazzaniga, esta será eternamente transitória.

Gazzaniga, o criador da Taça FIFA
Gazzaniga, o criador da Taça FIFA Gazzaniga, o criador da Taça FIFA

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