Cosme Rímoli 'Velei meu filho no salão do clube.' A profunda, e trágica, ligação entre Abel Braga e o Fluminense

'Velei meu filho no salão do clube.' A profunda, e trágica, ligação entre Abel Braga e o Fluminense

Ao conquistar a Taça Guanabara, ontem, Abel fez questão de deixar clara a profunda relação que alcançou com o Fluminense. Construída por vitórias e pela terrível perda do filho

  • Cosme Rímoli | Do R7

Na alegria da conquista da Taça Guanabara, a lembrança da perda do filho João Pedro

Na alegria da conquista da Taça Guanabara, a lembrança da perda do filho João Pedro

Reprodução/Instagram

São Paulo, Brasil

"No Salão Nobre do Fluminense eu velei meu filho.

"O Fluminense para mim é alma. Tudo que eu represento como ser humano, caráter, tá incluído na alma que o Fluminense me dá.

"O Fluminense para mim é alma.

"Simplesmente isso."

A maneira escandalosamente simples e dura com que Abel Braga demonstrou seu apreço ao Fluminense, na conquista da Taça Guanabara, ontem, depois da vitória marcante dos seus reservas por 4 a 0, diante do Resende, foi comovente.

Era sábado, dia 29 de julho de 2017. Abel estava no Centro de Treinamento do Fluminense. O treino para enfrentar a Ponte Preta já havia acabado. Ele estava voltando para casa, quando ouviu a terrível notícia dada por seu filho Fábio, de que, às 12h20, seu filho mais novo, João Pedro Braga, havia caído do 6º andar, onde a família morava, na rua General Artigas, no Leblon. E morrido. Fábio estava ao lado do corpo de João.

João Pedro tinha crises convulsivas. Precisava tomar remédios diariamente, durante a manhã e à noite, para evitar as crises. A janela do banheiro de onde caiu era panorâmica e baixa. A possibilidade maior da morte é de que ele tenha tido uma crise e caído.

A direção do Fluminense cancelou imediatamente o baile programado para comemorar os 115 anos do clube. E também não disputou a partida de futebol americano entre Fluminense Guerreiros e Cane Cutters.

O clube parou em solidariedade à tragédia.

A trágica morte de João Pedro tornou única a relação entre Abel Braga e o Fluminense

A trágica morte de João Pedro tornou única a relação entre Abel Braga e o Fluminense

Arquivo Pessoal

O velório de João Pedro aconteceu no Salão Nobre das Laranjeiras.

Abel jamais esqueceu o apoio que recebeu no "pior momento" de sua vida.

Depois de um ano, ele explicou de onde buscou força para seguir trabalhando, após a terrível morte de João Pedro.

"Eu sou um cara extremamente religioso. Confio muito em Deus, tenho uma família fantástica. Um filho fantástico, mulher fantástica, amigos fantásticos, que são aqueles que não precisam ligar todos os dias. Consegui separar bem o momento da lágrima, do choro. Tem hora que (choro) em conjunto com a mulher, porque sabemos que essa saudade não se apaga, a dor, esse vão que fica na nossa frente que não vamos conseguir reconstruir. Você fica meio sem chão. Mas o meu trabalho e a solidariedade que recebi do país.

“Ele foi cedo, e a gente pergunta o porquê. E essa é a pergunta da minha mulher: ‘Por que teria que ir com 19 anos se não viveu nada, não me deu neto? Por que Deus levou ele? Por que era o tempo dele?' O pai e a mãe não entendem isso.

"Ele quis mostrar para o Brasil em que eu, como treinador, como ser humano... Não sei se ele quis aumentar muito essa relação marido, mulher, filho (Fábio), de a gente agora estar sempre muito mais agarrados. Apesar de tudo, com muito mais preocupação de um com o outro, até pela realidade que vivemos no Rio. Eu não consigo entender.

“Quando recebi a notícia de que ele tinha caído, estava indo de volta do treino, no túnel Lagoa-Barra. E muito difícil passar ali, quando eu estou muito sensível faço (o caminho) pela (avenida) Niemeyer.

"Tem hora que estou entrando bem no túnel e não consigo parar de ouvir a voz do meu filho (Fábio). Foi o Fábio que (ligou) e ficou com ele no play (playground, onde João caiu)”. João estava no play. (Daí pensei) Eu moro no andar tal, caiu, perdi meu filho. Tem hora que vem essa voz, essa coisa, muito duro."

Abel Braga. Respeito ao luto pela torcida do Fluminense e mesmo dos adversários

Abel Braga. Respeito ao luto pela torcida do Fluminense e mesmo dos adversários

Fluminense

Abel fez essas confissões em 2018, sete meses depois da morte de João Pedro, ao Sport TV. 

Desde a morte do filho, Abel se tornou muito mais solidário com os jogadores, criou uma relação mais familiar nos clubes onde trabalha.

Uma das provas está sendo a profunda ligação com o time do Fluminense. Quer na luta para disputar a fase de grupo da Libertadores, quer na disputa para acabar com a hegemonia do Flamengo, tricampeão carioca.

A tragédia com João Pedro e a reação absolutamente digna dos dirigentes da Laranjeiras tornaram o elo entre o treinador e o clube fortíssimo.

Três campeonatos cariocas e duas Taças Guanabara, como jogador. 

Como técnico, um Brasileiro, dois cariocas e duas Taças Guanabaras.

Mas jamais algum profissional de futebol terá ligação tão intensa e trágica com uma equipe.

Porque ele aceitou velar seu filho no clube.

Fazer a despedida de João Pedro nas Laranjeiras.

Na pior situação para qualquer pai, foi o Fluminense quem o acolheu.

E essa atitude jamais será esquecida por Abel Braga.

Pelo futebol deste país, que vive um momento tão egoísta e violento...

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas