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Polícia acaba com o período mais escandaloso da história do São Paulo. Casares renunciou. ‘O Morumbi virou um caça-níquel’, resume promotor do Ministério Público

Como o blog havia antecipado, a ida da Polícia à casa de ex-esposa, que ele nomeara diretora do clube, deixou Casares isolado. Sem apoio, diante das denúncias de desvio de dinheiro, tomou o único caminho digno. Renunciou

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Julio Casares sabia que sofreria o impeachment. Por isso também renunciou. Não tinha apoio algum para ficar no São Paulo Rubens Chiri/São Paulo

Como o blog antecipou, Julio Casares ficou sem saída.

Renunciou.


A estocada final foi hoje pela manhã.

Sucumbiu diante do escândalo de policiais entrando na casa de sua ex-mulher, Mara, que ele transformou em diretora do São Paulo. Levaram R$ 28 mil em dinheiro, documentos do clube e mais seu computador.


Ela é suspeita de envolvimento de vendas de ingressos e aluguel de camarote, propriedade do São Paulo Futebol Clube.

A situação foi vexatória, ainda mais para um presidente afastado pelos próprios conselheiros, por sua conduta suspeita, há cinco dias, e que estava esperando a votação dos sócios para o mais que previsível impeachment.


Jogadores como Savarino e Vitinho, do Botafogo, se recusavam a vir jogar no São Paulo, com tantas denúncias e investigações.

Instituições financeiras já não ofereciam dinheiro emprestado a um clube que, quando Casares assumiu, em 2021, devia R$ 625 milhões. Atualmente, deve R$ 1,1 bilhão.


Torcidas organizadas, que pareciam estranhamente adormecidas diante das inúmeras denúncias contra Casares, acordaram. E exigiam a sua saída. Com gritos pregando até mesmo a violência contra o dirigente, que era cultuado, pelos torcedores, até o mês passado.

O São Paulo é comandado há décadas por um mesmo grupo político, que é dividido em quatro.

Na semana passada, três deles, percebendo que Casares não sobreviveria, diante de suspeitas da Polícia Civil do depósito de R$ 1,5 milhão na sua conta pessoal e da retirada de R$ 11 milhões da conta do São Paulo Futebol Clube, abandonaram a coalisão Juntos Pelo São Paulo.

Casares e Douglas Schwartzmann sempre foram muito próximos. Foi o ex-presidente quem o nomeou diretor-adjunto da base do São Paulo. Cuidava de todos os detalhes que envolviam os meninos formados em Cotia Divulgação/São Paulo

Assustadas com as denúncias, os grupos Vanguarda, Legião e Sempre Tricolor viraram as costas ao presidente afastado.

Depois da invasão da casa de Mara, do diretor-adjunto de futebol de base, Douglas Schwartzmann, e da funcionária Rita de Cássia Adriana Prado, os membros do grupo Participação, ao qual pertence Casares, decidiram abandoná-lo.

Como o blog também antecipou, os ex-presidentes José Eduardo Pimenta, Carlos Miguel Aidar e Leco, retiraram seu apoio e recomendaram a renúncia.

Na mais completa solidão, pressionado, sem poder algum, ameaçado por torcedores, sem paz para circular pelos restaurantes mais sofisticados da capital paulista, investigado pela Polícia Civil, sem a menor chance de escapar do impeachment, na manchete de todos os portais, atacado em todos os programas esportivos de rádio, web e tevê, Casares finalmente tomou a atitude mais digna.

Renunciou à presidência do São Paulo.

Cargo que declarou ter sonhado a vida toda.

Casares tinha prazer em contratar veteranos midiáticos. Sem consultar técnicos. Caros, sem jogar como no passado, dirigente desperdiçou dinheiro do clube e acumulou desilusões como o colombiano James Rodríguez Rubens Chiri/São Paulo

Sua renúncia foi comemorada pela direção do clube.

Harry Massis, que era seu vice, e assumiu a presidência, desde que afastado na semana passada, se tornou oficialmente presidente do São Paulo, até dezembro.

Massis prometeu a conselheiros que fará uma ‘devassa’ no clube. Deve chamar uma empresa de renome para fazer minuciosa auditoria, examinar todas as contas do São Paulo nos último cinco anos, quando Casares assumiu.

Ele quer entender como a dívida dobrou.

No futebol, a princípio, Massis deverá seguir com Crespo como treinador. Muricy Ramalho foi nomeado por Casares como coordenador de futebol, como se fosse um cargo de confiança.

Não há a garantia que ele continue. O blog apurou na semana passada, horas antes do afastamento de Casares que ele não sabia o que fazer, se continuava ou saía.

Com a saída do dirigente acabarão as contratações midiáticas. Jogadores com salários milionários, veteranos, que tinham mais impacto pelo que fizeram anos atrás. Como Oscar, Lucas Moura, James Rodríguez.

Julio Casares nomeou a ex-mulher diretora do São Paulo. Policiais foram à casa de Mara buscar prováveis provas da denúncia de venda irregular de camarote do São Paulo Reprodução/São Paulo TV

As vendas por preços mais que questionáveis de atletas da base também vão parar. As saídas serão muito analisadas, antes de confirmadas.

Assim como os nomes dos empresários com que Casares costumava negociar atletas. A maneira deles trabalharem também será destrinchada. Principalmente em relação às comissões pagas pelo clube.

A rotina do São Paulo vai mudar profundamente.

Casares fez uma carta de dez páginas, de despedida.

Colocou nas suas redes sociais.

Ela está aqui, na íntegra.

“Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.

Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.

O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.

Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.

Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar.

Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal.

Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.

Promotor do Ministério Público garante. 'O Morumbi virou uma máquina gigante caça-níquel' Reprodução/Ministério Público de São Paulo

Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.

Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.

A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.

Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.

Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.

Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.

Savarino não quis vir para o São Paulo. Se negou diante do caos que estava a gestão Casares Vitor Silva/Botafogo

Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.

Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.

Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição.

Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.

Show de Shakira e o uso do camarote do Morumbi iniciaram, de fato, a derrocada de Julio Casares Divulgação/São Paulo Futebol Clube

Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.

Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.

Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.

Júlio Casares"

A Polícia Civil continuará investigando as denúncias contra Casares, sua ex-esposa, Douglas Schwartzmann, e Rita de Cássia.

“As evidências que foram trazidas hoje mostram com segurança para a polícia e o Ministério Público que a arena Morumbi, em razão de shows seguidos foi transformada, na verdade, em uma gigantesca máquina de caça-níqueis.

“E que favoreceram pessoas especificamente e não o clube, que é vítima de tudo o que está acontecendo”, resumiu o promotor do Ministério Público, José Reinaldo Carneiro Guimarães.”

Quem estava na presidência do clube nestes shows, que obrigavam o time a jogar em Brasília, na Vila Belmiro? Quem era, à última instância, responsável pelos camarotes?

O superintendente geral do São Paulo, Márcio Carlomagno, e homem que o ex-presidente queria como seu sucessor, foi ‘aconselhado’ por Harry Massis e deixará seu cargo, ‘matando o desejo de assumir a presidência.

O mandato de Casares pode ter acabado no São Paulo.

Mas sua sombra, não...

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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