Cosme Rímoli O homem que acabou com a ingenuidade do jornalismo esportivo no Brasil. Juca Kfouri

O homem que acabou com a ingenuidade do jornalismo esportivo no Brasil. Juca Kfouri

Em entrevista intensa, reveladora, Juca Kfouri mostra os motivos que o fizeram o jornalista esportivo mais influente do país. Fez de Pelé ministro, participou da Democracia Corinthiana, enfrentou presidentes da CBF...

  • Cosme Rímoli | Do R7

São Paulo, Brasil

Aos 73 anos, a vida de Juca Kfouri não daria um filme.

Mas uma eletrizante série. Esteve nos movimentos mais importantes do Brasil, desde o final dos anos 60.

Sociólogo, com extrema aversão à injustiça, participou de grupos paralelos que, utopicamente, tentaram enfrentar o regime militar.

Inteligente, articulado, trabalhador incansável, teve uma carreira invejável no auge da Editora Abril.

De arquivista, chegou a diretor de redação das revistas Placar e Playboy. Na revista masculina, fez entrevistas marcantes, com presidentes da República.

Foi o homem que teve coragem de denunciar, em matérias históricas, a Máfia da Loteria Esportiva. Provou que grupos manipulavam resultados de apostas. Suportou a pressão da Caixa Econômica Federal. Comprovou tudo o que publicou. E a Loteria Esportiva se desintegrou.

'O jornalismo esportivo não era levado a sério. Não se enxergava o quanto o futebol afeta a sociedade.' Juca

'O jornalismo esportivo não era levado a sério. Não se enxergava o quanto o futebol afeta a sociedade.' Juca

Reprodução/Instagram

Influenciou definitivamente corações e mentes de gerações, mostrando a importância do trabalho investigativo, profundo, sério das grandes reportagens. Trouxe dignidade, com seu olhar de sociólogo, ao jornalismo esportivo, que era considerado menor, de mero entretenimento. Puro circo para quem não tinha pão.

Contextualizou o esporte no dia a dia deste país. Mostrou o coronelismo dos dirigentes, revelando o poder eterno de federações, como capitanias hereditárias, quem sempre se beneficiou da falta de organização séria e transparência.

Escancarou negociações da CBF com grandes marcas esportivas, patrocinadores. Foi peça fundamental na CPI da Nike, em 2000. Lastima a falta de resultados práticos dessas lutas. Mas trouxe luz a tantos descalabros.

Participou diretamente do movimento Democracia Corinthiana. O nome foi ele quem deu, muito bem aproveitado pelo publicitário Washington Olivetto. Explica, irritado, que não eram apenas Sócrates e Casagrande quem comandavam o movimento.

Juca enfrentou abertamente, com acusações comprovadas, vários dirigentes poderosos, milionários. Entre eles Ricardo Teixeira e Eduardo José Farah. Conviveu com inúmeros processos, mas viu a dinastia Havelange desaparecer.

Indicou Pelé como ministro extraordinário do Esporte. O então presidente Fernando Henrique Cardoso aceitou a sugestão e a Lei Pelé, que acabou com a "escravidão" dos jogadores, a famigerada "Lei do Passe".
 

Era o jornalista mais respeitado pelo "melhor jogador de todos os tempos".

Trabalhou na Globo. Sem medo, entrou em conflito com Galvão Bueno.

Teve embates com Vanderlei Luxemburgo, com Milton Neves. Nunca se dobrou.

Reportagem histórica que acabou com a força da Loteria Esportiva no Brasil
Reportagem histórica que acabou com a força da Loteria Esportiva no Brasil Reprodução/Placar

Provou estar certo quando comprou uma briga pesada ao se posicionar abertamente contra a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil. Avisou que pequenos grupos iriam se beneficiar dos bilhões que as competições exigiriam. Principalmente a Fifa e o COI. Desfrutou a intimidade da seleção brasileira de 1982.

Tinha amizade profunda com Sócrates, a quem tentou, e não conseguiu, salvar do alcoolismo.

Torcedor apaixonado e assumido do Corinthians. É o jornalista esportivo brasileiro "referência" em documentários e matérias do mundo todo. Vencedor de nove prêmios dos mais importantes do jornalismo deste país.

Autor de seis livros. O último, sensacional, corajoso, revela que esteve muito perto da morte. E ainda debocha de Pablo Neruda.

A biografia do espetacular poeta e escritor chileno leva o título de "Confesso que vivi". No do provocador Juca, "Confesso que perdi". Pura ironia, diante de tantas batalhas, que, se não foram ganhas, mexeram estruturalmente com o país. Não só no futebol.

Se existe um jornalista vencedor no Brasil, ele se chama Juca Kfouri.

A entrevista, exclusiva, está no Canal do Cosme Rímoli, no YouTube.

Cada semana, um personagem importante do esporte brasileiro...

Lá já estiveram Cleber Machado, Casagrande, Silvio Luiz, Milton Neves, Denilson, Zetti, Mylli Lacombe, PVC, Hortência, Flávio Gomes, Falcão, Benjamin Back, Luiz Ceará, Mylena Ciribelli, Flávio Gomes, Fernando Fernandes, Dodô, Nelsinho Baptista, Reinaldo Gottino, Flávio Prado, Mauricio Noriega e muitos outros...

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