Cosme Rímoli Neymar. "Nem aí para ser o melhor do mundo." Quem acredita?

Neymar. "Nem aí para ser o melhor do mundo." Quem acredita?

Ele tentou disfarçar hoje, a frustração de oito anos de espera. Saiu do Brasil para ser melhor do mundo. Não conseguiu. E já se prepara para nova derrota

  • Cosme Rímoli | Do R7

Neymar. A desilusão de quem há oito anos sonha em ser melhor do mundo

Neymar. A desilusão de quem há oito anos sonha em ser melhor do mundo

Uefa

São Paulo, Brasil

Esopo foi um escritor grego.

Que conhecia o básico da alma humana.

E que escreveu várias fábulas, nos 44 anos de vida que teve direito, entre 564 a 520 anos antes de Cristo.

Fábulas são pequenas histórias com um ensinamento moral.

Entre elas, talvez a mais conhecida seja a da raposa e as uvas verdes.

"Chegando uma Raposa a uma parreira, a encontrou carregada de uvas maduras.

"A cobiça o dominou.

"Começou a fazer tentativas para subir; porém, como as uvas estavam altas e a subida era íngreme, 

"Por mais que tentasse, não conseguiu apanhá-las.

"Então disse:

"Estas uvas estão muito azedas, e podem manchar-me os dentes; não quero colhê-las verdes, pois não gosto delas assim.

"E, dito isto, foi-se embora..."

Moral da história: a raposa classificou as uvas como verdes, que poderiam manchar seus dentes. E disse que desistia delas, quando na verdade, faltou competência para apanhá-las.

Esopo resumiu uma situação recorrente do ser humano, em todas as áreas.

Amorosa, trabalhista, esportiva.

E Neymar, 22 séculos depois acaba de mostrar o quanto é imortal a obra do grego.

Na entrevista coletiva de hoje, véspera do primeiro jogo da Champions League, entre PSG e Manchester City, Neymar falou como a raposa, diante das uvas desejadas, sonhadas há oito anos.

"Estou muito feliz com a temporada que o PSG vem fazendo.

"Sobre a Bola de Ouro, já nem ligo.

"Não é algo que penso.

"E sendo sincero, não estou nem aí.

"Quero é ganhar a Liga dos Campeões.

"Isso com certeza faz a diferença na minha vida, na minha carreira", acaba de dizer, em Paris.

Faltam pouco mais de nove meses para Neymar completar 30 anos.

Desde que começou sua carreira como profissional, em 2009, assumidamente mimado pelo pai e empresário e pelos clubes que passou, Neymar tem característica dar uma declaração, esquecer, dar outra completamente diferente, em seguida. 

É mais do que incoerência, suas palavras se adaptam às circunstâncias.

"Eu quero ser o melhor jogador do mundo. Simples assim", disse o próprio Neymar, em 2019, para entrevista ao jornal inglês Mirror.

O máximo que Neymar chegou foi ao terceiro lugar. Em 2015 e 2017

O máximo que Neymar chegou foi ao terceiro lugar. Em 2015 e 2017

Reprodução/Fifa

Este foi o motivo que o fez negociar, sem a direção do Barcelona saber, com o PSG. E ir para a França, em 2017. Fugir da sombra de Messi. Ser o protagonista, mostrar que merecer ser o melhor do mundo, pela Fifa, pela prestigiada France Football.

São oito anos de frustração. Que a Bola de Ouro segue em ficar mais alta do que pode subir.

Foram várias decepções em seguida.

Neymar tentava, sem sucesso, disfarçar a decepção.

Mas a da temporada 2020, onde foi peça importantíssima para o PSG chegar à final, foi a mais dolorida.

Ele não conseguiu segurar a raiva por ser preterido.

"Já que não deu certo no futebol, partiu basquete. Já desisti do basquete. Virei GAMER", escreveu nas suas redes sociais.

Neymar não ficou nem entre os três melhores de 2020, perdeu para Messi, Cristiano Ronaldo e o justíssimo vencedor, o letal polonês Robert Lewandowski.

'Fogo amigo." Mbappé briga para ser protagonista dentro do próprio PSG

'Fogo amigo." Mbappé briga para ser protagonista dentro do próprio PSG

Reprodução/Instagram

O brasileiro tem enormes dificuldades em ser escolhido como melhor do mundo.

Seu talento excepcional é precedido por uma antipatia cultivada por ele mesmo.

Simulações não são vistas como esperteza na Europa. E sim como um recurso desleal para ganhar pênaltis, faltas que não aconteceram. Expulsar adversários injustamente.

Provocar, desdenhar, humilhar marcadores, a ponto de estimulá-los a dar pontapés também pesa contra o brasileiro.

Assim como excesso de individualismo, os dribles desnecessários, o egoísmo em jogar mais para as câmeras, para a torcida do que para o time.

Os chiliques contra árbitros e bandeiras custaram cartões infantis e grande perda de admiração.

O surgimento do 'fogo amigo'. Mbappé. Um jogador fenomenal, de enorme força física, velocidade, artilharia. Campeão do mundo pela França, visto pela Europa como mais importante para o PSG do que o brasileiro.

É o seu maior rival, hoje.

De Bruyne, Haaland, Gundogan, Benzema são também obstáculos.

Assim como o eterno Messi, a dois meses dos 34 anos, que mesmo sem a luta pela Champions, vem deslumbrando na Espanha.

Robert Lewandowski, vencedor de 2020, continua a sua obstinação por gols.

É o artilheiro disparado do Alemão, com 36 gols. Está a quatro do recorde de Gerd Muller, que dura 50 anos.

Cristiano Ronaldo luta muito, mas já caminha para os 37 anos. Seu rendimento está longe de ser o mesmo de anos atrás.

Neymar está no palco mais importante, novamente.

Vai disputar as semifinais da Champions contra o Manchester City.

Caso seu time vença, a disputa do título será com o sobrevivente de Chelsea e Real Madrid.

Esta é mais uma oportunidade para Neymar, a oitava, desde que partiu para a Europa, atrás de dinheiro, fama e do título de melhor do mundo.

Mas as tentativas frustradas o marcaram.

Brigas, chiliques, expulsões, simulações. Neymar tem muita resistência na Europa

Brigas, chiliques, expulsões, simulações. Neymar tem muita resistência na Europa

Reprodução/Twitter

O máximo que conseguiu foi chegar a terceiro.

Jogando ainda no Barcelona, em 2015 e 2017.

Já são três anos deixado para trás.

Injustiçado até, como na temporada 2020.

Neymar lida com as frustrações as negando.

Como a raposa de Esopo, uma representação simbólica dos homens.

Nem em Paris, Barcelona, Mococa ou Suarão.

Não há ser humano, com dois neurônios em funcionamento, que acredite na desistência de Neymar em ser o melhor do mundo. 

Ele joga pelo PSG, pela Seleção Brasileira.

Mas principalmente por ele mesmo.

Por essa razão, talvez as uvas não fiquem jamais maduras para o brasileiro.

E a Bola de Ouro não chegue.

Por tudo que fez contra sua própria carreira...

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