Cosme Rímoli Mora na Espanha. Nunca treinou um time. Mas resgatou Messi. E levou a Argentina à final da Copa. Lionel Scaloni

Mora na Espanha. Nunca treinou um time. Mas resgatou Messi. E levou a Argentina à final da Copa. Lionel Scaloni

A história surreal do treinador de 41 anos que está à frente da Argentina. Conseguiu levar o time à final de uma Copa do Mundo. Como Menotti, Bilardo e Sabella. Já fez história

  • Cosme Rímoli | Do R7

41 anos, nunca treinou um time. Mora na Espanha. Mas já fez história. Scaloni

41 anos, nunca treinou um time. Mora na Espanha. Mas já fez história. Scaloni

REUTERS/Carl Recine - 13.12.2022

Doha, Catar

Cesar Menotti. Carlos Billardo. Alejandro Sabella.

Três treinadores importantíssimos para o futebol argentino.

Reverenciados.

O trio tem um grande feito.

Levado a Argentina a quatro decisões de Copa do Mundo. 

Em 1978, Menotti. Em 1986 e 1990, Billardo. E, em 2014, Sabella.

Menotti e Billardo ganharam duas, 1978 e 1986.

E, agora Lionel Scaloni, conseguiu fazer com que seu país chegasse à quinta final.

O jogo será no domingo, contra a França, no Lusail Stadium, aqui em Doha.

"Não posso me comparar com eles. Eles são história da Seleção. Fizeram grande (respeitada) a camiseta da Argentina. Sim, me enche de orgulho estar na final e representar a Seleção. Mas não posso me colocar à altura de pessoass que fizeram história no futebol mundial, não só com a Argentina", admitiu, com humildade, Lionel Scaloni, logo após garantir a Seleção na final da Copa do Mundo do Catar, vencendo por 3 a 0 a Croácia, país que eliminou o Brasil.

Ele chorou muito, abraçado a Messi, depois da partida.

Tinha motivos para não acreditar no que estava vivendo.

Aos 41 anos, a história de Scaloni na Seleção Argentina chega a ser surreal.

Não usa terno, prefere calça de agasalho e camiseta, não tem carisma.

E mora na Espanha!

Ele foi um lateral direito esforçado, com carreira mediana. Marcador, extremamente tático. Começou no Newell's Old Boys, passou pelo Estudiantes, La Coruña, West Ham, Racing, Lazio, Mallorca e Atalanta.

Amigo de Jorge Sampaoli, foi chamado pelo treinador para ser seu segundo auxiliar no Sevilla, em junho de 2017. Depois de vários técnicos recusarem a Seleção Argentina, Sampaoli foi chamado pela AFA.

E foi para a Rússia, Scaloni seguiu sendo um mero segundo auxiliar.

A Argentina fracassou no Mundial, sendo eliminada pela França, por 4 a 3, nas oitavas-de-final.

O presidente da AFA, Claudio Tapia, demitiu Sampaoli. E ofereceu o cargo a Mauricio Pochettino. Ele estava no Tottenham. Não pensou duas vezes em recusar. Diego Simeone também não quis largar o Atlético de Madrid. 

Gerardo 'Tata' Martino preferiu seguir trabalhando no Atlanta United, nos Estados Unidos, e depois acertar com a Seleção Mexicana, a voltar à Seleção Argentina.

A imprensa e grande parte da população pediam para que Marcelo Gallardo assumisse o selecionado. Acontece que o então treinador do River Plate era um ferrenho inimigo da AFA. Reclamando do calendário, do estado dos gramados dos estádios, das arbitragens, das datas-Fifas.

Ou seja, Tapia sabia que Gallardo seria um grande problema como treinador da seleção.

Por coincidência, logo após o Mundial da Rússia, haveria um torneio sub-20, na Espanha. Tapia decidiu mandar Scaloni, já que ele tinha muita vontade de seguir trabalhando na AFA. A intenção era se preparar, treinar garotos, para assumir a carreira de técnico de profissionais em alguns anos.

Acontece que a Argentina ganhou o torneio Cotif, em Valencia. O trabalho de Scaloni foi ótimo.

Tapia decidiu que, diante do cenário, seria o treinador interino ideal. Até que o presidente da AFA encontrasse um técnico mais vivido, com prestígio internacional. O alvo era Pochettino. Mas ele se mantinha firme, não queria.

Scaloni não ficou de mãos amarradas, tratou de conquistar a confiança do elenco argentino, traumatizado com o egocentrismo de Sampaoli.

E foi muito claro com Lionel Messi, disse o quanto a Seleção Argentina dependia dele. E tratou de montar um esquema onde ele era preservado. Os outros jogadores correriam, por prazer, pela grande estrela argentina.

Messi era massacrado pelas cobranças, comparações com Diego Maradona. A população queria ver o homem que ganhou seis vezes a Bola de Ouro como melhor do mundo atuando tão bem pela Argentina. Não só por clubes.

Foi com Scaloni que a Argentina foi terceira colocada na Copa América de 2019, mas o time foi 'pegando liga', ganhando amistosos, Messi cada vez mais integrado, líder. Entendendo que seu país poderia surpreender na Copa do Mundo do Catar.

Tapia foi ficando contente com o trabalho de Scaloni.

Tudo ia bem até que veio a Copa América do Brasil, no ano passado. E ficou tudo muito melhor, com a conquista do título em pleno Maracanã lotado. Com o time de Tite completo, com Neymar em campo.

A última conquista era a Copa América, de 1993.

Conquista da Copa América no Maracanã. Depois de 28 anos, Argentina campeã de novo.

Conquista da Copa América no Maracanã. Depois de 28 anos, Argentina campeã de novo.

EFE/Sebastiao Moreira - 10.7.2021

Foi quando Scaloni ganhou o apoio popular e da mídia. Os argentinos passaram a perceber seu trabalho. A maneira intensa que o time passou a jogar, preenchendo os espaços, dando botes mortais nos contragolpes. E o quanto Messi passou a render, privilegiado taticamente, para quando a bola chegasse aos seus pés ele estaria pronto para mostrar sua genialidade, mesmo aos 35 anos.

O time ficou 36 partidas sem perder.

Até que caiu diante da Arábia Saudita, na estreia na Copa do Mundo.

"Foi o jogo que nos despertou. Entendemos que temos potencial para pensar em grandes conquistas. Mas que tínhamo de nos entregarmos de corpo e alma em todos os jogos. E foi o que fizemos desde a nossa estreia. Por isso não perdemos mais e estamos na final da Copa do Mundo", resume Scaloni.

Ele chega à final da Copa sem jamais ter treinado um clube.

Algo inédito no futebol da Argentina.

Scaloni tem um grande defensor.

O maior que poderia ter.

Messi.

"Lionel não deixa nada 'ao azar'. Ou seja, prepara muito bem a Seleção Argentina para as partidas. Passa o que o time tem de fazer em cada detalhe. É uma grande ajuda quando estamos no gramado. 

"Em nenhum momento estamos perdidos. Não nos desesperamos em momento algum.

"É um grande treinador. E se chegamos à final contra a França, o mérito é dele."

O treinador está muito animado, sabe que tem a oportunidade, depois de 36 anos fazer a Argentina voltar a ser campeã do mundo. Chegar ao seu terceiro título.

E com Messi.

Depois, ir comemorar com a família, em Marbella, na Espanha, onde vive.

Para espanto dos argentinos, que só descobriram em abril de 2019, quando ele foi atropelado.

Mas é lá que ele segue vivendo, feliz.

Só deixa sua casa quando tem de treinar a Seleção de seu país.

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