Cosme Rímoli Mesmo com demissão de Gaciba, CBF não cogita. Não quer árbitros profissionais no Brasil

Mesmo com demissão de Gaciba, CBF não cogita. Não quer árbitros profissionais no Brasil

Erros absurdos e sugestão de editar os áudios entre VAR e juízes derrubaram o presidente da Comissão de Arbitragem, Leonardo Gaciba. CBF promete 'revolução'. Mas não aceita profissionalizar os árbitros. Seguirão amadores

  • Cosme Rímoli | Do R7

Gaciba demitido sumariamente. Queria editar áudios entre VAR e árbitros

Gaciba demitido sumariamente. Queria editar áudios entre VAR e árbitros

Lucas Figueiredo/CBF

São Paulo, Brasil

 A escandalosa arbitragem de Flamengo e Bahia foi a gota d'água.

Derrubou Leonardo Gaciba da presidência da Comissão de Arbitragem.

Ele foi escolhido pelo presidente Rogério Caboclo em abril de 2019.

O perfil definido pelo dirigente da CBF: um nome importante, comentarista de arbitragem da TV Globo, com bom relacionamento com os dirigentes e juízes. De personalidade afável, sem arroubos personalistas.

A principal missão era aprimorar o uso do VAR, o árbitro de vídeo no país. Em relação aos juízes em campo e não às questões tecnológicas, com os que trabalham nas cabines nos estádios.

Gaciba também queria melhorar as relações trabalhistas dos juízes.

Seu grande sonho era profissionalizar os árbitros, que eles não precisassem, como hoje, ter uma segunda profissão. E apenas trabalhassem como juízes.

Mas Gaciba além de não conseguir nem chegar perto do seu maior desejo, se perdeu. Não soube se posicionar diante dos erros na implantação do VAR.

Seu grande pecado foi admitir, em outubro de 2020, que um gol anulado do São Paulo contra o Atlético, no Mineirão, havia sido legal. A partida estava empatada em 0 a 0. E terminou com a vitória mineira por 3 a 0.

"Fizemos uma análise do lance. A linha realmente não é colocada (de forma correta). Há outros detalhes que temos na análise que a gente faz. Não adianta lutar contra a imagem. Claramente, a linha não está colocada de forma padrão. Não é erro da tecnologia. É um equívoco humano da colocação da linha de impedimento", disse ao Sportv.

Gaciba comprou seu inimigo mais poderoso. O ex-presidente do Comitê de Arbitragem, Sérgio Corrêa, responsável pelas questões tecnológicas do VAR e os juízes na cabine. 

O presidente da Comissão de Arbitragem foi proibido de dar mais entrevistas. 

Os erros dos juízes continuaram. E sem explicações públicas. Com a queda de Caboclo, Gaciba virou alvo fácil. Clubes reclamavam, criticavam, ironizavam. Sem poder se defender, ele foi ficando cada vez mais tenso. E tomando atitudes inaceitáveis, até mesmo para os dirigentes da CBF, que não são os maiores defensores da democracia no futebol.

Gaciba não queria a divulgação das conversas entre os árbitros de vídeo e os juízes de campo. Quando se viu isolado na opinião, sugeriu que os diálogos fossem editados, para que não prejudicassem os árbitros, em caso de decisões erradas.

Sérgio Corrêa avisou Edinaldo Rodrigues que a postura de Gaciba era absurda. O presidente interino da CBF já havia decidido pela troca do comando da Comissão de Arbitragem. Principalmente por conta de erros envolvendo o Flamengo, clube mais popular do Brasil, e que acumulava o maior número de reclamações envolvendo Gaciba.

A partida contra o Bahia, com um pênalti inexistente marcado para o Flamengo, por Elmo Alves Resende Cunha, foi o ponto final de Gaciba.

A gota d'água. O pênalti inexistente marcado a favor do Flamengo contra o Bahia

A gota d'água. O pênalti inexistente marcado a favor do Flamengo contra o Bahia

Reprodução/CBF

O vice-presidente e também ex-árbitro, Alicio Pena Júnior, assumiu interinamente. Mas com chance de seguir no cargo.

Ednaldo Rodrigues avisa que deseja uma ampla reformulação na arbitragem brasileiro. Com mais treinamentos, maior nível de exigência.

Mas não cogita o óbvio.

A profissionalização dos árbitros.

O desejo do demitido Gaciba e da esmagadora maioria dos árbitros do país, seria a CBF criar um entidade paralela, com real autonomia para trabalhar com juízes realmente profissionais. Como acontece com a Inglaterra, desde 2001, a PGMOL (Professional Game Match Officials Limited).

Ela seleciona, prepara, cobra e trata os árbitros profissionalmente. Com salários dependendo da qualificação de cada um. E exige que eles se dediquem apenas ao futebol.

Além de ex-árbitros trabalhando na orientação dos juízes, há psicólogos, fisioterapeutas, preparadores físicos, podólogos e oftalmologistas.

A relação é trabalhista.

Com os juízes sendo avaliados em cada partida.

Uma péssima temporada pode significar demissão.

Mas isso está fora dos planos da CBF.

A direção quer continuar controlando os árbitros no país.

E os mantendo na condição de amadores.

A 'revolução' propagada por Edinaldo Rodrigues não é tão profunda.

Muito pelo contrário...

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