Libertadores

Cosme Rímoli Fla, Palmeiras, Bragantino, Athletico. Dinheiro faz o Brasil dominar, de vez, o futebol da América

Fla, Palmeiras, Bragantino, Athletico. Dinheiro faz o Brasil dominar, de vez, o futebol da América

Não é por acaso que Palmeiras e Flamengo decidem a Libertadores e Athletico e Red Bull Bragantino, a Copa Sul-Americana. Patrocinadores bilionários e organização europeia desequilibram o futebol no continente

  • Cosme Rímoli | Do R7

Palmeiras e Flamengo. A Libertadores, como em 2020, virou Copa do Brasil

Palmeiras e Flamengo. A Libertadores, como em 2020, virou Copa do Brasil

Reprodução/Instagram

São Paulo, Brasil

Palmeiras e Flamengo decidem a Libertadores.

Como Palmeiras e Santos fizeram, no torneio de 2020.

Desde 2017, de quatro campeões, três são brasileiros.

A Libertadores da América é o torneio mais importante do continente.

Athletico e Red Bull Bragantino decidirão a Sul-Americana, segunda competição da América do Sul.

Nada é por acaso no futebol.

Jornais argentinos e uruguaios já destacam que a hegemonia brasileira pouco tem a ver com o talento do jogadores nascidos aqui. 

O segredo está no dinheiro e na organização.

Não há como concorrer com clubes como o Flamengo e o Palmeiras, que deverão faturar, mesmo neste ano de pandemia, R$ 1 bilhão e R$ 800 milhões, respectivamente. A projeção das diretorias dos dois clubes é faturar, no mínimo, mais R$ 500 milhões, em 2022, com a volta total do público aos estádios.

Se o Palmeiras tem a Crefisa, o Flamengo tem sua força popular. E a facilidade em encontrar patrocínios governamentais, como o do Banco de Brasília, que garante R$ 35 milhões, mas pode chegar a até R$ 50 milhões.

O Athletico Paranaense é o maior clube de Curitiba, uma capital rica. O Athletico se comporta como empresa, controlado com a mão forte de Mario Celso Petraglia, que conseguiu estruturar o clube desde a década de 80, tendo como inspiradores o Real Madrid e o Barcelona.

“Jamais na história de um clube de futebol foi feito o que nós fizemos aqui, em um clube sem dono. Era um clube de várzea, de bairro, que remendava a meia, que comprava roupa no botequim da esquina para poder jogar. Não tinha onde treinar, onde jogar, não existia", disse Petraglia em entrevista ao colega Julio Gomes, em 2018.

Red Bull Bragantino. Equipe de R$ 120 milhões. Dinheiro da bilionária multinacional

Red Bull Bragantino. Equipe de R$ 120 milhões. Dinheiro da bilionária multinacional

Ari Ferreira/Bragantino

Personalista ao extremo, ele seguiu seu plano de forma impressionante. Soube tirar proveito da popularidade do clube junto a políticos e conseguiu incentivos fundamentais para o moderníssimo e inexpugnável Centro de Treinamento. Ambicioso e ágil conseguiu que a Arena da Baixada virasse "estádio de Copa do Mundo". A reformulação no estádio teve incentivos fiscais absurdamente altos.

Mesmo assim, os R$ 490 milhões gastos estão travados judicialmente. Há uma batalha para a definição de quanto o clube tem de pagar. São sete anos de recursos. O governo estadual, que se comprometeu a bancar um terço do estádio, também está envolvido na briga jurídica, que deve levar ainda mais alguns anos.

Enquanto isso, o Athletico, que tornou "europeu" seu nome, tirando o acento e acrescentando um h, tem aproveitado a arrecadação no estádio.

A Arena da Baixada foi a primeira a ter gramado artificial.

Junte-se a isso a implantação de um trabalho de base com estrutura rígida, quase militar. A descoberta e formação de jovens atletas para se destacarem e serem vendidos nunca foi aleatória, por acaso.

O clube arrecadou só em 2020, ano de pandemia, R$ 152 milhões em venda de jogadores.

Ou seja, se Palmeiras e Flamengo têm a proteção da bilionária Crefisa e da maior torcida do país, o Athletico é um clube-empresa na prática, com estrutura europeia e potencial financeiro invejável. A ponto de haver terminado 2020 com mais de R$ 130 milhões de lucro, projetar R$ 200 milhões para o fim deste ano e aumentar mais seu caixa com a arrecadação do estádio.

Organização de clube-empresa e arena ainda não paga, segredos da força athleticana

Organização de clube-empresa e arena ainda não paga, segredos da força athleticana

Gustavo Oliveira/Athletico

Fora o que conseguirá com o direito de transmissão de seus jogos. Foi o clube a ter mais coragem no enfrentamento da Globo, quando ela possuía o monopólio.

O quarto envolvido na disputa dos títulos mais importantes da América do Sul, escancarando a hegemonia brasileira, é um clube que tem dono.

O Red Bull Bragantino.

Por uma questão de hipocrisia e habilidade dos advogados ao usar a legislação esportiva, a empresa Red Bull, com patrimônio de US$ 26,9 bilhões, cerca de R$ 145 bilhões, se "associou" ao clube interiorano em 2019 e ficou responsável pelo departamento de futebol.

Ou seja, exatamente a razão de existir do Bragantino.

O plano é simples. E ousado.

Aproveitar ao máximo as jovens promessas do futebol brasileiro e da América do Sul. E vendê-los para o mercado europeu, com muito lucro. 

Claudinho já é um caso clássico.

O clube comprou o atleta por R$ 1,5 milhão do Corinthians.

Vendeu o jogador ao Zenit, da Rússia, por R$ 93 milhões.

Já investiu mais de R$ 120 milhões em jovens promessas para a equipe interiorana.

O próximo passo é a construção de uma arena moderna para 20 mil pessoas. Antes, porém, faz parte do planejamento a conquista de títulos importantes para valorizar o clube, ainda mais a marca na América do Sul. 

A divulgação do balanço do Red Bull Bragantino de 2020 foi parcial, reclamam especialistas. Mas os investimentos em jogadores não pararam em 2021. E vão continuar. Até o clube se impor como um dos maiores do continente.

Situação surreal diante da crise, da recessão vivida na América do Sul.

A lei do mandante deverá deixar ainda mais fortes Flamengo e Palmeiras. Lei do Mandante é a que possibilita a venda direta dos jogos em casa dos clubes. Sem a necessidade de que o mesmo veículo de comunicação tenha o direito de todas as equipes.

Ou seja, elas ficarão ainda mais ricas.

Além das quatro que decidem a Libertadores e a Copa Sul-Americana, os clubes argentinos, uruguaios, chilenos, equatorianos e colombianos podem se preparar.

O Atlético Mineiro e o Corinthians estão se estruturando para em 2022 partir também para conquistas internacionais.

Bancado por mecenas bilionários, o clube mineiro, semifinalista da Libertadores, ficará ainda mais forte. Porque o plano é tornar o Atlético uma "máquina de fazer dinheiro", usando a sua apaixonada torcida para lotar a sua sonhada arena, com capacidade para 46 mil torcedores. 

Se o estádio for inaugurado em 2022, no próximo ano o time ficará mais forte. Com a meta assumida: Libertadores. Neste ano, o fortíssimo time já é semifinalista da Copa do Brasil e lidera o Brasileiro.

O paradoxo está na dívida atleticana: mais de R$ 1 bilhão. E que o clube espera contornar com conquistas, transmissões, arrecadações, com os sócios-torcedores. Os mecenas alegam que só se preocupam com a montagem da equipe e com a construção do estádio. As dívidas são do clube.

O Corinthians, o clube mais popular da cidade mais rica do país, se livrou das amarras do estádio. Pelo menos é o que afirmam seus dirigentes. Enquanto a oposição jura que a dívida do clube é de mais de R$ 1 bilhão, informação que fica impossível checar porque os balanços são incompletos em relação à dívida do estádio, a situação, comandada ainda por Andrés Sanchez, garante que a dívida do clube é de "só uns" R$ 400 milhões, como diz o ex-presidente.

E, com a liberação do público nos estádios, o clube espera voltar a ganhar dinheiro com a arrecadação. Em um dos últimos atos como presidente, no ano passado, Andrés Sanchez conseguiu fazer com que 30% do dinheiro das entradas dos jogos ficasse no clube. Antes, 100% iam para o pagamento do empréstimo feito para a construção do estádio.

Por isso o investimento em Willian, Roger Guedes, Renato Augusto e Giuliano. Fora o clube já haver deixado apalavrada a contratação de Paulinho. A meta é formar uma grande equipe para a disputa da Libertadores em 2022.

Ou seja: se quatro clubes brasileiros se impuseram na hegemonia da América do Sul, em 2021, decidindo os dois torneios mais importantes, mais dois candidatos fortíssimos estarão no páreo. 

Boca Juniors, River Plate, Nacional, LDU, Defensa y Justicia, Independiente del Valle, Peñarol, Atlético Nacional, Libertad, Olimpia, Colo Colo... Todos estão muito abaixo financeiramente dos principais clubes brasileiros.

São obrigados a vender suas grandes promessas ainda jovens. E não só à Europa. O Palmeiras e o Red Bull Bragantino estão se especializando em buscar essas promessas e as levar. 

O Flamengo buscando reforços da Premier League.

O Atlético contratando jogadores midiáticos mundiais.

E o Athletico agindo como o primeiro clube-empresa de forma extraoficial.

Ou seja, o dinheiro está se impondo no futebol sul-americano de maneira escancarada.

Sem volta.

Flamengo, Palmeiras, Atlético, Red Bull Bragantino e Athletico estão estruturados, bancados por patrocinadores e mecenas bilionários.

A disputa na América do Sul está desigual.

A saída seria a Conmebol voltar atrás e impedir que clubes do mesmo país decidam a Libertadores e a Copa Sul-Americana.

Mas, por enquanto, esse retrocesso não está sendo avaliado.

Poderá passar a ser.

Já que a hegemonia do Brasil no futebol sul-americano é um fato.

No atual contexto, com os clubes se negando a virar empresas, irreversível.

A disputa ficou desigual.

E com essas finais da Libertadores e Sul-Americana, o Brasil terá nove clubes na Libertadores de 2022.

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