Calendário, contratações, imprensa. Os sabotadores dos 'milionários'
Palmeiras e Flamengo são os clubes mais cobrados. Mas Cruzeiro, Grêmio e Athletico Paranaense também sofrem. Melhor para o Santos, Vasco, CSA
Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

São Paulo, Brasil
Há uma velha artimanha jurídica dos clubes no Brasil.
Não é ilegal.
Vários deles pagam a maior parte do vencimento aos seus atletas como direito de imagem e luvas.
Por conta de imposto menor.
Na CLT, na carteira registrada, a quantia paga é bem abaixo.
Isso é muito fácil de constatar.
A folha de pagamento das equipes que disputam a Série A.
Palmeiras, R$ 8,5 milhões.
Cruzeiro, R$ 8 milhões
Corinthians, R$ 7,6 milhões
Flamengo, R$ 7, 5 milhões
Internacional, R$ 4,9 milhões
São Paulo, 4,9 milhões
Santos, R$ 4,8 milhões
Grêmio, R$ 4,6 milhões
Atlético MG, R$ 4,2 milhões
Vasco, R$ 3,3 milhões
Fluminense, R$ 2,5 milhões
Bahia, R$ 2,8 milhões
Botafogo, R$ 2,5 milhões
Athletico, R$ 2,4 milhões
Goiás, R$ 2,3 milhões
Chapecoense, R$ 1,7 milhão
Fortaleza, R$ 1,6 milhão
Ceará, R$ 1,1 milhão
Avaí, R$ 840 mil
CSA, R$ 450 mil

A maioria dos dados foi levantada pelo colega Mauro Cezar.
Mas até uma criança na quinta séria tem raciocínio desenvolvido para perceber a incoerência.
O Flamengo com seu elenco milionário não pode pagar menos do que o Corinthians e seus atletas medianos. Esse é o exemplo mais gritante.
Empresários garantem.
A folha da maioria dos clubes, com exceções do Corinthians e Cruzeiro, que pagam grande parte dos atletas na CLT, os números são discrepantes. E podem passar do dobro da carteira de trabalho.
O que fica quase impossível checar porque são cada vez mais dados sigilosos dos clubes. Os acordos de luvas e direito de imagem muitas vezes são tratados como segredo de estado, até para convívio pacífico no elenco.
Mas Palmeiras e Flamengo são apontados por todos os dirigentes deste país como as equipes mais ricas.
E são.
O clube carioca tem orçamento previsto até o final do ano de R$ 750 milhões em caixa. Com transmissão de tevê, patrocínios, arrecadação, venda de jogadores, sócio-torcedores e outras receitas paralelas.

O Palmeiras, depois do seu sofrido acordo com a Globo, chega a R$ 700 milhões.
Corinthians e São Paulo ficarão perto dos R$ 500 milhões.
Cruzeiro, Atlético Mineiro, Grêmio baterão nos R$ 400 milhões.
O restante ficará abaixo.
Ou gastará mais da metade que arrecadará.
Como o Santos e sua previsão de R$ 370 milhões.
A relação dinheiro/conquistas deveria ser óbvia.
Mas não é.
O Corinthians, por exemplo, foi tricampeão paulista.
O Internacional despachou o Palmeiras da Copa do Brasil.
O Talleres tirou o São Paulo da pré-Libertadores.
O Santos, com seu pequeno potencial financeiro, é o atual líder do Brasileiro.
O Flamengo precisa fazer das tripas coração para reverter a desvantagem para o Emelec, nas oitavas-de-final da Libertadores.
O que acontece é uma série de fatores.
A começar pelo futebol ser um esporte diferenciado, onde inúmeras vezes, o time mais fraco consegue ganhar.
Paulista, de Jundiaí; Criciúma; Santo André; e Juventude foram campeões da Copa do Brasil, por exemplo.

Ituano, duas vezes, Bragantino, Inter de Limeira e São Caetano venceram o Campeonato Paulista.
As surpresas costumam ser maiores em jogos eliminatórios.
Em torneios longos, de pontos corridos, quando o arsenal é menor, as zebras costumam não se sustentar.
Entre os inúmeros fatores da decepção dos clubes mais ricos atuais, há o primeiro grande erro.
As estrelas têm sido contratadas mais pelos dirigentes do que pelos treinadores. Presidentes buscando impacto positivo, como Rodolfo Landim, no Flamengo.
A compra milionária de Arrascaeta, por exemplo, foi ordem sua. Abel Braga, que jamais foi fã do jogador, preferia Bruno Henrique pelo setor esquerdo, foi o grande prejudicado. Ele não o encaixou na equipe e este foi um fator de sua demissão.
O Palmeiras também vai atrás de estrelas, que não foram estudadas a fundo. Como é o caso de Borja. Em sua carreira toda, ele teve poucos momentos de brilho. Não é surpresa seu baixo rendimento no maior período de Brasil.
Além disso, há a pressão.
Por parte da mídia.
Jornais e rádios caminham por um caminho cada vez mais difícil. Vários diários já fecharam as portas. Assim como as poucas equipes esportivas de rádio seguem com pouca verba, inclusive para acompanhar in loco jogos da Seleção Brasileira. Quanto mais dos clubes.
Na busca de audiência, vender jornais, elencos são supervalorizados. Sem levar em conta que atletas com grande potencial técnico precisam se encaixar, ter entrosamento, conjunto para formar um time forte.
O calendário serve para sabotar tanta expectativa.
Os Campeonatos Estaduais e a Globo são grandes impecilhos para os clubes.
Quem garante a permanência dos presidentes da CBF no cargo são os presidentes das Federações. E a maior fonte de renda dessas organizações está nos Estaduais. Assim, em janeiro, os clubes deixam de fazer pré-temporada completa, amistosos para entrosar seus times. Precisam jogar valendo três pontos contra equipes pequenas que, muitas vezes se preparam há três meses para os Estaduais, já que não jogam Libertadores, Brasileiros, Copa do Brasil, nada. Só treinam.
A emissora carioca atrapalha porque força quem o futebol neste país siga o seu ano comercial. Aconteça de janeiro a dezembro, em vez de acompanhar o Europeu, que é de setembro a junho. Com dois meses para pré-temporada e amistosos.
A Globo é a grande parceira financeira da CBF e os clubes aceitam esse insano calendário com Estaduais, Copa do Brasil, Libertadores, Copa Sul-Americana e Brasileiro. Que se acumula com os jogos da Seleção Brasileira.
As grandes equipes, as mais caras, mais pressionadas pela mídia e por suas torcidas, são as que sofrem.
Por estarem disputando campeonatos mais importantes.

Ou não foi mais fácil para o Vasco, eliminado de tudo que disputou esse ano, empatar com o time reserva do Palmeiras, em São Paulo, sábado? A preocupação do time de Felipão é a Libertadores, com jogo hoje, na terça-feira.
Assim como o Santos já caiu na primeira fase da Copa Sul-Americana, contra o River Plate do Uruguai. Da Copa do Brasil. E perdeu o Paulista.
O foco de Jorge Sampaoli e seus comandados é total no Brasileiro. O que sobra mais tempo para treinamentos. Quando o técnico tem competência como o argentino, o resultado aparece.
A liderança também tem a colaboração do calendário.
Os milionários Flamengo e Palmeiras são os mais comentados. Mas o Grêmio e, principalmente, o Cruzeiro pagam o preço de sua competência. O time gaúcho, que disputa as fases decisivas da Copa do Brasil e Libertadores está apenas em 11º no Brasileiro.
Os mineiros, também nas duas competições, sofrem na competição nacional, ocupando apenas a 16ª colocação.
Por quê? Porque têm de colocar seus reservas no Brasileiro que, por ter 38 jogos, permite a recuperação. Se não der para vencer o título, pelo menos para chegar à Libertadores de novo em 2019.
Renato Gaúcho e Mano abrem a mão conscientemente da disputa do troféu do Brasileiro. Por puro bom senso.
Três competições massacrantes são pesadas demais para o elenco que possuem.
Ou o CSA não comemora hoje o empate contra os reservas gremistas porque o time gaúcho jogará sua vida na Libertadores contra o Libertad, na quinta?
O Athletico Parananense, comandado com eficiência por Tiago Nunes, também estaria muito melhor no Brasileiro. Se não houvesse a pressão da disputa da Libertadores.
Palmeiras e Flamengo priorizam de maneira clara, assumida, a Libertadores em 2019.
Se não der, aí o foco recai no Brasileiro.
Sem o mesmo entusiasmo.
Ou seja, a resposta para quem busca o sucesso de equipes sem orçamento neste país é muito fácil.
Basta analisar o calendário; as contratações caríssimas feitas por dirigentes, em busca de prestígio, reeleição, muitas não indicadas por técnicos; a pressão exagerada da mídia em times que não estão formados.
A agonia dos torcedores no estádio, muitas vezes enganados pela expectativa que seus times se encaixem como por encanto.
Tendo como base o dinheiro gasto na compra dos atletas.
Os times mais fracos, eliminados de tudo, têm mais tempo para se preparar, se entrosar. E ainda ganhar mais força física.
Tudo para enfrentar reservas caros, mas desentrosados, disputando torneios qaue não são prioridade para seus clubes.
Como o desvalorizado Brasileiro.
Nada é por acaso.
E vai muito além de um técnico ultrapassado gritando palavrões como preleção.
Os times milionários decepcionam porque estão amarrados.
À péssima estrutura do futebol brasileiro.
E da pressão forçada da imprensa.
Só jogadores caros nunca foi garantia de títulos...















