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Cosme Rímoli - Blogs
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As mortes de Antero Greco e Apolinho. Duas perdas irreparáveis para o jornalismo esportivo deste país

Cada um no seu estilo, com caminhos distintos, mas marcantes. São Paulo e Rio de Janeiro perderam dois excelentes comunicadores, dignos representantes do melhor do jornalismo brasileiro

Cosme Rímoli|Cosme RímoliOpens in new window

Antero Greco fez história no jornalismo impresso. Mas foi na ESPN que o Brasil o conheceu

“Cosme, chegue cedo, estude o máximo que você puder, tenha um texto claro, seja o último a ir embora.

“Releia as matérias, ninguém tolera erros de português.

“E o principal: apareça nos nossas partidas de futebol.

“E jogue bem.

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“Esse é o segredo para virar jornalista de Esporte,aqui no Estadão.”

Antero Greco era assim.

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Inteligente, jornalista de visão diferenciada, texto impecável, mas muito parceiro, companheiro.

De aparência fechada, beirando à constante tensão, era apenas casca.

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Mas só percebia quem tinha o privilégio de conviver com ele.

O conheci em 1986 e em 1987 trabalhamos juntos.

De segunda a sexta eu cobria férias no Estado.

E, aos domingos, no Jornal da Tarde.

Duas propostas completamente diferentes.

Antero Greco era o ponto fora da curva do Estadão.

O editor-assistente que compreendia que a informação correta precisava ser transmitida pelo tradicional jornal.

Mas que a linguagem poderia ser mais leve, menos sisuda, seca, sem graça, como era tradição no principal jornal que pertencia à família Mesquita.

Segui todos seus conselhos.

Observava sua preocupação detalhista não só com o futebol nacional, principalmente com o internacional.

Conhecia como ninguém os clubes italianos.

Estive com ele em coberturas de Copas.

Antero sério na organização do Estadão.

Eu no Jornal da Tarde.

Mas a competividade acabava em jantares regados a conversas intermináveis, que varavam as madrugadas, para desespero de garçons europeus, que insistiam em nos mandar embora, e fingíamos não entender.

Além do excelente jornalista, valorizando cada detalhe de inúmeras histórias, o humor, a alegria, as frases de duplo sentido, traziam alívio à mesa, repleta por jornalistas cansados, pressionados, famintos depois de exaustivos dias de cobertura de Mundiais.

Já começava a se moldar ali o comentarista inteligente e hilário, que dominava as madrugadas de quem ama futebol, com seu parceiro Paulo Soares, na ESPN/Brasil.

Quem não chorou de rir com a dupla?

Quem não se deleitou com as piadas dignas de Quinta Série?

Quem não percebia a cumplicidade, o amor fraternal dos dois?

Antero era parceiro dos parceiros.

Defendia com unhas e dentes jornalistas bons, e outros nem tanto, que pisaram na editoria de Esportes do Estadão. Por isso conseguiu não só amigos, mas verdadeiro fã-clube no jornalismo brasileiro. O que é raríssimo.

Sua doença provocou uma tristeza imensa no nosso meio.

Quando soube de sua melhora, o convidei para uma entrevista, relembrar os velhos tempo do Estadão, da disputa com o filho menor, o Jornal da Tarde.

Ele me respondeu que ainda não estava bem.

Mas quando melhorasse, falaria comigo, com certeza.

Foi o que esperei até hoje, 16 de maio de 2024, quando soube de sua morte, aos 69 anos.

Lastimo e agradeço muito, Antero, pelo tempo que convivemos, pelos conselhos.

Pelos ensinamentos a um foca, que virou companheiro de viagens, no jornal rival.

Pelo exemplo de jornalista corajoso, destemido, visionário.

Mas principalmente por sua presença iluminada.

Humana.

Por seu nome ser sinônimo de amor pela vida, pelas gargalhadas.

- Foto: Reprodução

Já Apolinho, Washington Rodrigues, figura mítica do rádio do Rio de Janeiro, tive a sorte de conviver em coberturas de Copa.

Era um ícone na rádio do Brasil.

Como comentarista, era dono de uma visão de jogo diferenciada.

Não sei porque ele encasquetava comigo.

É muito comum nos Mundiais cada veículo de comunicação forma seu clã.

Ou, no máximo, se junta com outros clãs do mesmo estado.

Mas me vi dividindo jantares e almoços com Apolinho.

“Cosme, vocês de São Paulo são muito invocados.

“Nós do Rio de Janeiro trabalhamos sério também.

“Só que sabemos aproveitar a vida.

“Vocês, não...”

Ele capitalizava a atenção por onde passava.

Bastava sentar e logo se formava um séquito.

Jornalistas de todo o Brasil se apressavam em se aboletar para ouvir suas incríveis histórias, de mais de seis décadas de jornalismo.

Absolutamente carismático.

Inteligente e convincente.

A ponto de fazer com que a direção do Flamengo, um dia, em 1995, entregou seu time para que assumisse como treinador.

E, em 1998, como diretor de futebol.

Sobraram passagens impublicáveis.

Outras ilustrativas.

Quando revelou que fazia o possível, como técnico, para quando o Flamengo jogava, ter uma televisão a alcance do banco de reservas.

Ele não conseguia como treinador, entender a partida no nível do gramado.

E também ouvia os palpites dos comentaristas.

Uma vez, comandando o Flamengo contra o Juventude, ele ouviu o saudoso Fernando Calazans criticá-lo por só dar bronca em Nélio, não ter coragem de cobrar Romário. Apolinho passou, imediatamente, a cobrar o atacante. Falava alto para a tevê captar.

Era claro que repartia o comando com os jogadores do Flamengo.

Conseguiu ser vice-campeão da Supercopa dos Campeões da Libertadores.

Deixava claro que sentia saudade do romantismo do futebol antigo, do contato mais direto com os jogadores, técnicos.

De personalidade envolvente, tratava conhecidos eventuais, como eu, em amigos, durante quando os encontrava.

Para mim, e para muitos colegas jornalistas, Apolinho representava a alma boêmia, esperta, leve, alegre do Rio de Janeiro.

Outro companheiro de Copas, Gilmar Ferreira, o definiu hoje como uma mistura de João Saldanha com Chacrinha.

Concordo com a definição, sem ter a intimidade de Gilmar de décadas de convivência.

Apolinho tinha esse apelido por ser o primeiro repórter de rádio a usar microfone sem fio.

“Era o mesmo da Apolo 11″, foguete que levou o homem à lua, gostava de brincar.

Na entrevista que fiz com José Carlos Araújo, falamos de Apolinho.

Peguei seu telefone com Mylena Ciribelli.

Queria entrevistá-lo.

Não deu tempo.

Ele partiu ontem, aos 87 anos.

Antero e Apolinho.

Duas carreiras distintas.

Um jornalista e outro radialista.

Dois trabalhadores apaixonados pelo que faziam.

Extremamente competentes.

Marcantes.

Seres humanos cativantes.

Deixaram o futebol deste país muito mais triste.

Em um pesado luto.

Sorte de quem os conheceu.

Eu tive essa sorte...









Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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