Cosme Rímoli A vingança selvagem e cerebral de Adesanaya contra o seu carrasco Apoan. Haverá o tira-tema. A terceira luta entre os rivais

A vingança selvagem e cerebral de Adesanaya contra o seu carrasco Apoan. Haverá o tira-tema. A terceira luta entre os rivais

O nigeriano usou teatro, estratégia e conseguiu a revanche contra o seu carrasco, o brasileiro Apoan. E retomou o cinturão dos médios do UFC. Foi uma vitória cerebral. Dana White já projeta o terceiro confronto

  • Cosme Rímoli | Do R7

A vingança de Adesanaya. As flechadas imaginárias no seu carrasco Apoan, desmaiado por seus socos

A vingança de Adesanaya. As flechadas imaginárias no seu carrasco Apoan, desmaiado por seus socos

Reprodução/Twitter

São Paulo, Brasil

Foi a mais impressionante armadilha na disputa de um cinturão, na história do UFC.

Digna de um gênio das artes marciais.

O nigeriano Israel Adesanya misturou teatro, capacidade incrível de absorção dos socos duríssimos, estratégia.

Principalmente força mental para superar o único trauma que carregava no mundo das lutas.

Usou a truculência, a ansiedade do brasileiro, ex-alcoólatra e ex-servente de pedreiro, para entrar de vez para a elite dos grandes campeões do MMA. 

E bastaram quatro minutos e 21 segundos, no segundo round, da luta principal no emotivo UFC 287, em Miami, para que Alex Poatan desmoronasse, nocauteado por Adesanaya.

Irônico, ele tirou todo o trauma de acumular três derrotas para o paulista, estirado no octógono, fingindo dar flechadas. Pura sensação de prazer, já que Poatan se apresenta para as encaradas caracterizado como um índio brasileiro.

Em novembro, Apoan arrasou com Adesanaya, como nos tempos do kickboxing. Chocou o UFC

Em novembro, Apoan arrasou com Adesanaya, como nos tempos do kickboxing. Chocou o UFC

Reprodução/Twitter UFC

Enquanto Adesanaya comemorava a recuperação do cinturão do UFC dos médios, Dana White punha sua ganância para funcionar.

E, analisando o ranking dos médios, não há outra coisa a fazer. Senão marcar uma terceira luta entre os dois rivais, para 'provar' quem, afinal, é o melhor.

Trilogias por cinturões entre dois lutadores especiais, com uma vitória cada um, é um caminho natural e muito seguido na história de Dana White no controle do UFC.

Haverá o desempate.

E, provavelmente, ainda neste ano, para aproveitar o impacto da vitória do showman nigeriano.

A luta foi espetacular para quem admira o xadrez com o corpo que é o MMA. 

O uso do melhor das lutas e da estratégia para superar o oponente.

Foi o que aconteceu ontem de forma cinematográfica em Miami.

O falastrão Adesanaya dominava os médios, vinha de 12 vitórias empolgantes. "Limpou" a categoria.

Robert Whittaker caiu diante dele duas vezes. Venceu Anderson Silva poupando o ídolo brasileiro. Bateu o inflado Yoel Romero. Humilhou o brasileiro Paulo Costa, o Borrachinha, Kelvin Gastelum, Jared Cannonier, Marvin Vettori.

Dana foi obrigado a buscar Poatan a peso de ouro. O brasileiro era a "pedra no sapato" do nigeriano. Ele o havia derrotado duas vezes no kickboxing, no qual não há espaço para luta agarrada, para o jiu-jítsu. Só trocação de socos, pontapés e cotoveladas.

Comentaristas brincam, dizem que os violentíssimos socos do brasileiro misturam diretos e uppers. O upper é o golpe que vem de baixo para cima, geralmente no queixo do rival.

Adesanaya sofreu duas derrotas no kickboxing para o brasileiro. A primeira, por pontos. E a segunda, por nocaute.

Apoan é descendente de índios nordestinos. E vai caracterizado para as encaradas. Adesanaya ironizou

Apoan é descendente de índios nordestinos. E vai caracterizado para as encaradas. Adesanaya ironizou

UFC

Dana sabia disso e, depois de Apoan fazer três lutas de preparação no UFC, armou o grande espetáculo.

Os dois se encontraram, para deleite dos fãs, em Nova York, no histórico Madson Square Garden.

E no combate pelo UFC 281, na noite de 12 de novembro de 2022, o nigeriano dominou os quatro primeiros rounds e também era dono do quinto, até que em uma fulminante sequência de socos, Apoan o nocauteou em pé.

Vitória espetacular.

Dana não deixou Alex Pereira, nome verdadeiro do paulista, nem respirar e já tratou de marcar a revanche que, lógico, o brasileiro não pôde recusar.

Essa afobação, a certeza que era melhor que o nigeriano foi o começo da derrota histórica de ontem.

Apoan tratou de treinar exatamente da mesma maneira. Encurtar o espaço, se preparando para travar as combinações de chutes altos e baixos empolgantes de Adesanaya.

Foi aí que começou o show.

A impressão nítida era que o africano estava intimidado, com medo, travado. O que foi dando mais e mais confiança ao brasileiro.

O primeiro round foi de aparente imposição de Apoan.

E veio o segundo assalto.

O brasileiro já se sentia dono do octógono, soltando seus socos, enquanto o nigeriano recuava, parecendo inferiorizado.

Até que ele mesmo, sem ninguém perceber, nem o público, nem os comentaristas, nem os narradores nem, muito menos, Apoan, caminhou para trás, para a grade.

Como se estivesse encurralado.

Apoan se sentiu vencedor e firmou os dois pés no chão, preparando-se para nova saraivada de diretos, para fazer desmoronar o nigeriano.

Sonho realizado do nigeriano. Graças ao seu incrível talento. E à estratégia contra a truculência de Apoan
Sonho realizado do nigeriano. Graças ao seu incrível talento. E à estratégia contra a truculência de Apoan Reprodução/Twitter

Só que Adesanaya estava mais do que preparado para os diretos. Ele, ao contrário da luta de novembro, manteve a posição de defesa, com os dois punhos protegendo seu rosto. 

Até que, com o impulso da própria grade, desferiu socos violentíssimos sobre os diretos de Apoan. Ele usou a biomecânica a seu favor.

Quando o brasileiro escolheu os diretos, foi fácil acertar o seu rosto, com os seus socos passando por cima dos golpes de Apoan.

Foram movimentos coreografados, estudados e violentíssimos.

O brasileiro caiu sem sentidos com os socos altos no seu rosto.

Vitória espetacular de Adesanaya, que retomou o cinturão, com toda a justiça, e matou seu trauma.

Dana White era o mais empolgado da noite.

Ele é contratado pelo grupo chinês WME-IMG, que comprou o UFC por 4 bilhões de dólares, cerca de R$ 22 bilhões.

White só quer saber de lucro.

E esse confronto pessoal de Apoan e Adesanaya, que encanta o público consumidor de pay-per-view, ou seja, que paga, e caro, para vê-los lutar no octógono, é perfeito para o presidente do UFC, que corre atrás de ídolos para movimentar a principal categoria de MMA do mundo.

Portanto, sairá o tira-teima.

Adesanaya já sofreu muito nas mãos de Apoan.

Ontem foi a vez de o brasileiro pagar seus pecados.

O terceiro confronto é totalmente imprevisível.

Será marcado, para a empolgação dos fãs.

E para a alegria dos cofres do WME-IMG, dono do UFC...

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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