Cosme Rímoli A terrível, e escondida, história do 'novo Pelé'. Como a imprensa massacrou Washington. Morreu esquecido e amargurado

A terrível, e escondida, história do 'novo Pelé'. Como a imprensa massacrou Washington. Morreu esquecido e amargurado

Na afobação doentia para encontrar um 'novo Pelé', já que o original estava se aposentando, a mídia da década de 70 escolheu Washington, garoto de 17 anos, do Guarani. Foi cobrado como 'melhor do mundo'. Morreu frustrado, amargurado

  • Cosme Rímoli | Do R7

A afobação da imprensa brasileira em encontrar um 'novo Pelé' foi desastrosa para Washington

A afobação da imprensa brasileira em encontrar um 'novo Pelé' foi desastrosa para Washington

Reprodução/Blog Tardes do Pacaembu

São Paulo, Brasil

Endrick, Vinícius Júnior, Rodrygo?

A imprensa brasileira aprendeu, da forma mais amarga, que não há como sonhar que haverá um "novo Pelé". 

Mesmo sob o impacto da morte do maior jogador de todos os tempos, não houve a heresia, a irresponsabilidade de transferir a qualquer garoto o peso de substituir Edson Arantes do Nascimento.

Porque jornalistas esportivos ávidos por manchetes e dirigentes afobados, irresponsáveis, já fizeram todo o mal possível a um jovem garoto promissor na década de 1970. 

Que morreu frustrado por um sonho que não era seu. 

Que estragou sua carreira.

E que acabou por levá-lo à mais profunda depressão.

Morreu desiludido, tentando ficar o mais longe possível dos jornalistas, em Bauru, cidade onde nasceu, e isso acabou sendo uma maldição na sua vida.

A história é de um massacre.

Pelé havia anunciado que não disputaria, de maneira alguma, a Copa de 1974. Apesar da pressão da opinião pública, da imprensa, até do governo militar. Sabia que havia chegado ao seu limite.

Foi quando, de maneira irracional, começou uma cruel caçada no futebol brasileiro. A busca dos jornalistas era a de um "novo Pelé".  

As redações se assanhavam. Nunca haviam vendido tantos jornais e revistas com um evento esportivo como no tricampeonato brasileiro. 

O Brasil de "90 milhões em ação", como dizia a canção que embalou o time no México, se mobilizou.

Foi quando as atenções se voltaram para Washington Luiz de Paula.

Jornalistas se deixaram levar por seus chefes, pela afobação, pela fantasia.

Washington ao lado de Falcão. O jogador do Guarani foi o melhor no torneio de Cannes

Washington ao lado de Falcão. O jogador do Guarani foi o melhor no torneio de Cannes

Reprodução/Twitter

Menino de 17 anos, habilidoso, artilheiro e, principalmente, saído de Bauru, terra que lançou Pelé para o mundo.

A descendência negra, o sorriso largo, jogador da seleção brasileira juvenil, na época. O melhor entre todos os garotos que disputaram o importante torneio de Cannes, na França.

Estava pronto o lead, que é o primeiro parágrafo, e a manchete que iriam destroçar uma carreira precoce. E tornar a vida de Washington um tormento sem fim, até a sua morte precoce, aos 57 anos.

Nascia o "novo Pelé", apelido que ele odiaria por toda a vida.

Viveu e morreu como se fosse uma farsa.

Que ele não criou.

O medo de que o Brasil perdesse o domínio do futebol mundial e as vendas de jornais e revistas despencassem, os patrocinadores fugissem. 

O país vivia o "milagre brasileiro". Era o "país do futuro". No imaginário popular, seria óbvio que surgiria um novo melhor do mundo. E que só poderia "nascer aqui".

E Washington tinha atuado no início do futebol no Baquinho, o Bauru Atlético Clube, equipe em que Dondinho, pai de Pelé, brilhou.

Não era "coincidência", como "exageravam" os radialistas da época. "O raio caiu no mesmo lugar duas vezes".

Depois do título do torneio de Cannes, o único na sua vida, a situação de Washington foi absurda.

Ele poderia escolher entre a seleção que disputaria a Olimpíada na Alemanha, em 1972, ou começar sua vida na seleção brasileira principal, como queria Zagallo.

Foi para a Alemanha. 

Washington mostrava, orgulhoso, a foto com a camisa do Corinthians. Seis meses e devolvido ao Guarani

Washington mostrava, orgulhoso, a foto com a camisa do Corinthians. Seis meses e devolvido ao Guarani

Reprodução/Twitter

O resultado foi desastroso. O Brasil perdeu para a Dinamarca, empatou com a Hungria. E foi derrotado pelo Irã. Acabou eliminado na primeira fase.

A cobrança recaiu nas costas do "novo Pelé".

Washington tinha a certeza de que, em Campinas, recuperaria seu futebol.

Só que fracassou.

A direção do Guarani, clube em que o atacante atuava com 17 anos, acreditou e cobrou dele um futebol "de Pelé". Ninguém entendeu quando ele não cumpria sua obrigação. Era apenas um "bom jogador". Não havia a percepção de que, psicologicamente, Washington não tinha força sequer para mostrar o "seu" futebol.

Ele tentava enfeitar jogadas simples, dar dibles geniais, arrancadas que não tinha condição de levar à frente. Treinadores e companheiros do Guarani perceberam que não estavam ao lado de "Pelé". 

Jornais, rádios e TVs tentaram minimizar, garantindo que faltavam jogadores talentosos ao seu lado. Deveria atuar em um "clube grande", menosprezando o Guarani.

A esperança para manchetes é que ele fosse para o Santos.

Mas o Corinthians foi mais rápido e o conseguiu por empréstimo.

Bastaram seis meses de São Jorge, e ficou claro que ele não tinha um décimo do futebol de Pelé.

Não conseguiu sequer se firmar no time como titular.

Nas 25 partidas em que entrou, marcou apenas seis gols.

Jornais, revistas, rádios e TVs perderam a paciência.

E o massacraram.

O Guarani não o quis de volta.

Despachou-o para o Vitória, da Bahia.

Lá outra vez foi péssimo, não marcou um gol sequer.

O Coritiba arriscou.

E o "novo Pelé" também foi mal, conseguindo marcar três gols.

Foi para a Ferroviária, de Araraquara.

Jogou no Bahia, Goiás, Marcílio Dias e Rio Branco, de Minas Gerais.

15 anos de carreira profissional.

De um fracasso retumbante, da expectativa que foi criada pela imprensa nacional.

Voltou para viver o resto de sua vida em Bauru.

Na cidade, os relatos são de que vivia em constante tristeza, deprimido, odiando quando era reconhecido como o "novo Pelé" que não deu certo.

Foi muito cruel o que aconteceu na sua carreira, na sua vida.

Loucura um jogador de potencial médio ter de provar ser o "melhor do mundo".

Esta história foi esquecida por muitos.

Porque condena a própria imprensa brasileira afobada.

Com alguns veículos pensando apenas nos seus próprios interesses.

Washington na Ferroviária. Já não havia expectativa, só frustração. Dele e da imprensa

Washington na Ferroviária. Já não havia expectativa, só frustração. Dele e da imprensa

Ferroviária

E não em Washington, indefeso diante desse processo muito maior.

Um "novo Pelé" seria criado de qualquer maneira.

O Brasil pagou pelo erro.

Um grande jogador não nasce a todo instante.

Muito menos Pelé.

A seleção só voltou a ser campeã do mundo sem o maior de todos em 1994.

Nada menos do que 24 anos depois da Copa de 70.

Washington tinha abandonado o futebol sete anos antes.

Fica a lição.

Mesmo que Endrick, Vinícius Júnior e Rodrygo, ou qualquer outro jovem que tenha enorme potencial, usem 'seu estafe' para protegê-los.

Evitar que caiam na tentação.

Pelé é eterno.

E só houve um.

Nunca haverá outro como ele.

Washington, que não teve proteção alguma, descobriu da pior maneira.

Morreu amargurado.

Mas não pode ser esquecido...

Torcedores e familiares se despedem de Pelé nas últimas horas do cortejo em Santos

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