Cosme Rímoli A intensa e delicada relação entre Leila e a Mancha. Muito além de cobrança por jogadores para o Palmeiras e dinheiro para o Carnaval

A intensa e delicada relação entre Leila e a Mancha. Muito além de cobrança por jogadores para o Palmeiras e dinheiro para o Carnaval

Em entrevista exclusiva, Paulo Serdan revela detalhes da relação entre a principal organizada e a presidente do Palmeiras. Além de reforços, de Carnaval. 'O Palmeiras não pode virar um clube de elite, por estar rico'

  • Cosme Rímoli | Do R7

'Estamos com o Abel e com os jogadores. A cobrança da Mancha é direcionada à Leila', Serdan

'Estamos com o Abel e com os jogadores. A cobrança da Mancha é direcionada à Leila', Serdan

Reprodução/Facebook

São Paulo, Brasil

"O apoio da Mancha Verde nunca esteve e nunca estará à venda.

"Não é porque um presidente decide, apoiado na Lei Rouanet, doar dinheiro para o Carnaval, ou seja o que for, que vamos nos dobrar, aplaudir o que está errado.

"Ou cobrar.

"Da mesma maneira, não cobramos porque não ganhamos dinheiro.

"É absurdo pensar assim.

"Jamais vão nos calar com dinheiro.

"Vou deixar claro que a Leila não tentou.

"Só não aceitou nosso posicionamento.

"Também não protestamos por não receber apoio financeiro.

"Só fala isso quem não conhece a Mancha.

"Teremos sempre nossa opinião e ponto-final.

"Agrade ou não.

"Nós somos a maior torcida do Palmeiras, somos independentes desde que nascemos, em 1983.

"Vou ser direto para calar muita gente, inclusive jornalista, que não tem nem coragem de nos perguntar.

"A Mancha Verde não está cobrando a Leila porque ela não nos deu dinheiro para o Carnaval deste ano.

"Isso é ridículo, porque ela já não deu no ano passado.

"E em 2022 não houve cobrança alguma porque concordamos com o elenco, tudo estava equilibrado. Tanto que ganhamos três títulos.

"Ela está errando feio agora.

"Em relação ao clube, ao time. E não vamos ficar quietos.

"A Leila nos ajudava financeiramente para o Carnaval? Ajudava.

"Como o Mustafá dava, como o Paulo Nobre dava. E nós não criticamos, cobramos, até de forma muito mais pesada os dois ex-presidentes?

"Dinheiro nenhum vai nos calar.

"Sempre que enxergarmos algo errado, vamos cobrar.

"Quer nos ajudar no desfile de Carnaval, nos ingressos, nas viagens?

"Ótimo.

"Não quer, tudo bem.

"Nós nos gerimos desde que começamos. 

"Mas nosso silêncio e nossa voz não estão à venda.

"Seja o presidente que for..."

Em entrevista exclusiva ao blog, Paulo Serdan, fundador da Mancha Verde, presidente de honra da organizada, presidente da escola de samba da torcida, revelou, com detalhes, como começou a relação com Leila Pereira, como se desgastou, como se rompeu. E como está, com a Mancha fazendo várias cobranças públicas à dirigente.

Paulo, como começou esta relação, que é tão questionada?

Primeiro, que todas as diretorias dos clubes grandes têm relação com suas organizadas, sem hipocrisia. Mas vou me fixar na nossa ligação com a Leila Pereira. Foi ela quem nos procurou, quando decidiu ser conselheira, começar uma carreira política no Palmeiras. 

Foi o ex-presidente Arnaldo Tirone quem nos apresentou e a Leila disse que queria aproximar o torcedor do clube, que ela sentia que estava se distanciando. A relação com o Mauricio (Galiotte) era mesmo distante. 

Ela falou dos planos de montar grandes times para o Palmeiras conquistar os maiores títulos. Nos mostrou que o clube iria crescer como nunca, mas sempre ao lado da torcida, e que entendia muito bem o quanto era importante ter a Mancha ao lado do time onde fosse.

Repito, foi a Leila que nos procurou. E pediu nosso apoio. Depois de muito conversar, entendemos e concordamos com o planejamento de crescimento do Palmeiras e a reaproximação de vez com a nossa torcida.

Mas nunca foi uma troca. A Leila nos daria o dinheiro e teria o nosso apoio, fizesse o que fizesse. Deixamos muito claro isso, logo na primeira conversa.

Paulo, vamos ser diretos, quanto dinheiro a Leila deu para os Carnavais da Mancha Verde?

Primeiro, vou explicar aos seus leitores. Ela não "deu dinheiro" para a Mancha. A Leila usou a Lei Rouanet (criada em 1991, que permite que uma empresa possa reverter parte do imposto de renda devido à qualquer manifestação cultural. No caso da Mancha, o Carnaval). Em 2017, ela doou R$ 250 mil. Em 2018, R$ 750 mil. Em 2019, R$ 1,9 milhão. Em 2020, R$ 3,7 milhões. Em 2021, nada. Em 2022, nada. Em 2023, nada. E não precisamos do dinheiro dela. Vamos fazer um Carnaval belíssimo neste ano. Temos os mesmos profissionais que nos ajudaram a sermos campeões sem a Leila. E vou ser mais direto. Todo centavo que ela doou à torcida foi contabilizado, foi às claras. E o que a gente via de errado, nesse período que a relação estava próxima, a gente cobrou.

Mas, Paulo, é certo a torcida ganhar dinheiro do presidente?

Não é "ganhar dinheiro". No mundo todo, os dirigentes dão ajuda aos torcedores porque sabem o quanto é importante ter pessoas apaixonadas por seus clubes, incentivando cada minuto seus jogadores na busca da vitória, da conquista de um campeonato, que, no fim, reverte para o clube. E também, sem hipocrisia, para os próprios dirigentes. 

Acho importante eu ter a chance de explicar uma situação que vivo desde o início da década de 1980. Acredito que o apoio e mesmo as cobranças firmes, fortes, da Mancha Verde ajudaram muito o Palmeiras a crescer.

Mas nós não dependemos de dinheiro de presidente nenhum para sobreviver.

Ajuda, toda organizada precisa. Para estar ao lado do time em todos os jogos, não há milagres. Gastamos para viajar, para fazer camisas, bandeiras, alugar ônibus, comprar passagens, ingressos. Somos milhares ao lado do Palmeiras.

Além disso, há o Carnaval. Quando a Mancha Verde desfila, é a escola que representa o Palmeiras, que ninguém se esqueça.

Mas, se não vier ajuda da Leila, nós seguimos da mesma maneira.

Temos patrocinadores fortes para o desfile deste ano.

A escola vai entrar linda, do mesmo jeito, brigando pelo título.

Vida que segue, como sempre seguiu.

Leila Pereira na Mancha Verde. Apoio à escola de samba ajudou no primeiro título no Carnaval

Leila Pereira na Mancha Verde. Apoio à escola de samba ajudou no primeiro título no Carnaval

Reprodução/Twitter

Como houve o rompimento com a Leila?

Quando ela venceu a eleição e decidiu colocar o Olivério Júnior como assessor de imprensa do clube. Ele já era dela, tudo bem. Mas do Palmeiras, não. Por um motivo muito simples e que vai além do fato de ele "ser corintiano".  Porque sabemos que há corintianos trabalhando na nossa diretoria, no marketing, por exemplo.

Mas isso acontece em todos os clubes, sempre há torcedores divergentes trabalhando de forma honesta na direção.

O problema era muito maior e específico.

O Olivério tem uma ligação profunda com as maiores lideranças do Corinthians. Como ele poderia frequentar o vestiário do Palmeiras e depois jantar com os dirigentes do Corinthians? Com as pessoas que mandam no nosso maior rival? 

Em uma conversa descontraída no Parque São Jorge, ele poderia contar os nossos problemas, nossas fraquezas. Mesmo sem querer, em uma simples conversa boba. Era incompatível. Isso não existe em nenhum lugar do mundo. E nós exigimos a saída dele para a Leila.

Mas, Paulo, o Olivério tomou alguma atitude como assessor do Palmeiras que fez a Mancha exigir sua saída, que acabou acontecendo?

Não, ele não fez nada. Repito, a situação que era incompatível. Havia um desconforto geral, a Leila sabia disso antes mesmo de nomear o Olivério. Nós fomos firmes. O clima ficou pesado para ele, tanto que acabou saindo. Depois disso, a Leila nos chamou para conversar e disse que não aceitaria a interferência da Mancha nas suas decisões como presidente do clube. E que estava se afastando da torcida. 

Da mesma maneira, quando ela nos chamou e mostrou planos com os quais concordávamos, nós apoiamos. Quando tomou atitude que não concordamos, como nomear o Olivério, nos posicionamos. Seguimos contra. Não perdemos nossa independência. Ela quis seguir outros caminhos, tudo certo.

Talvez ela pensou melhor e viu que estávamos certos.

O Olivério deixou de assessorar o Palmeiras. E trabalha só para ela. E está tudo bem. Não era certo ele frequentar os treinos, o vestiário do clube.

A Mancha Verde usou suas redes sociais para apoiar publicamente Leila. Desde conselheira até presidente

A Mancha Verde usou suas redes sociais para apoiar publicamente Leila. Desde conselheira até presidente

Reprodução/Facebook

O que mudou depois do rompimento?

Nós continuamos mostrando nossa independência. Devolvemos R$ 200 mil que ela havia dado para que membros da Mancha fossem para o Mundial de Clubes (nos Emirados Árabes). Leila não queria receber de volta, mas devolvemos.

Em 2022, víamos alguns erros, mas não queríamos atrapalhar o time. Ganhamos a Recopa, o Paulista e o Brasileiro. Esperamos e decidimos cobrar agora para ajudar o Abel Ferreira e os jogadores, que não têm culpa. Precisamos urgentemente de reforços para continuarmos ganhando. Não podemos aceitar essa apatia da diretoria, essa economia sem explicação. 

Perdemos o Gustavo Scarpa, que foi o melhor jogador do Brasil em 2022. O Danilo, o melhor volante do país, também foi. E a diretoria sabia meses antes. Por que a Leila não autorizou repor essas peças? 

O Abel Ferreira parece um membro da Mancha Verde. Estamos pedindo a mesma coisa para o time. E não vamos sossegar enquanto a equipe não estiver reforçada. 

Todos os clubes do Brasil contrataram jogadores, estão mais fortes do que em 2022. Por que o Palmeiras não? Não será o Endrick, com 16 anos, que vai resolver todos os problemas do time. Alguém precisa avisar a Leila. E não adianta subir um monte de meninos da base. Pois corre o risco de queimar todos. Até mesmo o Endrick está sendo cobrado de forma exagerada. Tudo por conta da falta de contratações.

Você deixa claro que há outros erros no Palmeiras. Quais são?

O Palmeiras tem os ingressos mais caros do Brasil.

A Leila aumentou demais a "joia" (quantia cobrada para uma pessoa se tornar sócia de um clube, afora as mensalidades). Ela diz que já tem muito sócio. Ela está elitizando o Palmeiras. 

E outra coisa, a camisa oficial do clube, que os jogadores usam, é caríssima (R$ 429,90). Mesmo tendo uma camisa mais barata, que foi criada para a torcida (R$ 179,90), todos sonham com a mesma camisa do jogador.

A Leila disse que iria aproximar o torcedor do clube. E está fazendo exatamente o contrário. Deixando o torcedor palmeirense comum longe. Virou caro demais torcer pelo clube.

Paulo, o que há de verdade em uma possível candidatura sua como presidente do Palmeiras? Já que cada vez mais membros da Mancha Verde se tornam sócios do clube?

Cosme... O Palmeiras tem perto de 6.000 associados. Os sócios que são da Mancha são pouquíssimos. E vamos ser verdadeiros. Hoje, o Palmeiras está completamente dominado politicamente pela Leila. Ela será reeleita presidente, não há a menor dúvida. 

A única pessoa que poderia enfrentá-la, com o mesmo poder financeiro, é o Paulo Nobre, que se afastou do clube, porque sabe que politicamente a Leila se tornou forte demais.

Eu sou "bipolar", um dia estou soltando fogos, nas vitórias; outro dia, nas derrotas, estou xingando. Sou torcedor, não dirigente de clube.

Meu amor pelo Palmeiras não tem igual. Mas não tenho a menor pretensão de ser presidente.

Virei conselheiro, para tentar ajudar, e não vou concorrer na próxima eleição. Não é para mim. Não estou confortável. Pensei que era uma coisa e é outra. Tem de mandar email para tentar falar no conselho deliberativo. Explicar o motivo, que pode ser vetado. É uma burocracia só.

Os conselheiros perderam poder há muito tempo. Ainda mais depois que a eleição passou a estar nas mãos dos associados.

O poder é do presidente.

Paulo, qual é a sua profissão? Como é que você consegue estar tão presente na vida do Palmeiras?

Bom você perguntar isso. Não vivo do Palmeiras. Amo o clube, que é uma coisa muito diferente. Trabalho, e muito. Sou dono de confecção há anos e anos. Trabalho com instalação de painéis de LED. Faço eventos. Muitas vezes, deixo o meu trabalho em segundo plano pelo clube. Mas muitas e muitas vezes. A minha vida é pública. O meu dinheiro vem do meu trabalho. Como a maioria dos torcedores organizados. As pessoas precisam investigar antes de falar bobagem.

Pichação nos muros do Palmeiras. Protesto pela falta de reforços e pela postura da presidente

Pichação nos muros do Palmeiras. Protesto pela falta de reforços e pela postura da presidente

Reprodução/Twitter

Paulo, o rompimento com a Leila é definitivo?

Foi ela quem rompeu com a Mancha. Se um dia ela quiser nos chamar para conversar, vamos sentar e conversar, como fizemos da primeira vez.

Mas manteremos nossa independência sempre. Somos claros. O que não concordamos, falamos direto, na cara, sem falsidade.

Se quiser aceitar nossa opinião, que aceite. Senão, tudo bem. Mas sempre vamos nos posicionar, seja qual for o presidente, nos dê a ajuda que for.

Não somos ingratos. A quadra da nossa escola se chama José Roberto Lamacchia e Leila Pereira, que é o nome dela e do seu marido, e eles nos ajudaram muito. Os camarotes da nossa escola foram construídos com o dinheiro do Paulo Nobre.

E o Mustafá Contursi nos ajudou financeiramente nos tempos que éramos uma escola de samba nas divisões inferiores do Carnaval.

Não esquecemos essas ajudas, e todos foram cobrados.

Os protestos contra a Leila vão continuar.

Com respeito, até porque as pessoas que cuidam da organização da Mancha já estão maduras. Eu tenho 55 anos. Os exageros acabaram. Mas a firmeza, não.

Queremos jogadores importantes para o time, temos o mesmo discurso do Abel Ferreira. Chega de jogadores imaturos que podem se valorizar. A hora é de atletas formados, prontos.

Estamos ao lado dos atuais jogadores, que não têm culpa de nada.

A cobrança será feita de forma direta para quem manda.

A presidente Leila Pereira.

E mais do que tudo.

A Mancha vai continuar exigindo o Palmeiras perto, ao lado do seu torcedor.

Não só daquele que vai em um jogo, em uma final.

Mas daqueles que estão em todas as partidas gritando, incentivando os jogadores, os técnicos.

Em todas as partidas, importantes ou não, seja onde for, a Mancha, as organizadas, estão lá.

Não é porque o clube está mais rico que vai se elitizar.

O Palmeiras é do seu torcedor.

Não tem dono...

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