Cosme Rímoli A dois meses dos 70 anos, Piquet descobre. Usar 'neguinho' para Hamilton é inaceitável. Termo não é politicamente incorreto. É racista

A dois meses dos 70 anos, Piquet descobre. Usar 'neguinho' para Hamilton é inaceitável. Termo não é politicamente incorreto. É racista

O tricampeão de Fórmula 1 foi excepcional nas pistas. E é marcado por frases polêmicas. Mas errou ao chamar Lewis Hamilton de 'neguinho'. E tem de lidar com a reação do mundo

  • Cosme Rímoli | Do R7

Piquet não representa apenas sua fabulosa trajetória na Fórmula 1. Mas um país 54% negro

Piquet não representa apenas sua fabulosa trajetória na Fórmula 1. Mas um país 54% negro

Reprodução/Pirelli

São Paulo, Brasil

"O 'neguinho' meteu o carro e deixou.

"O Senna não fez isso. O Senna não fez isso. Ele foi assim: 'Aqui eu arranco ele de qualquer maneira'. O 'neguinho' deixou o carro.

"É porque você não conhece a curva; é uma curva muito de alta, não tem jeito de passar dois carros e não tem jeito de passar do lado.

"Ele fez de sacanagem."

"Neguinho" foi a maneira como o tricampeão mundial Nelson Piquet decidiu tratar Lewis Hamilton, heptacampeão do mundo. Falou de forma aberta, pública, em uma entrevista, em 2021. E o vídeo viralizou neste fim de semana.

Ele comentava uma batida que envolveu Hamilton e Max Verstappen, no Grande Prêmio da Inglaterra.

Verstappen está namorando a filha de Piquet, Kelly. 

A repercussão foi imensa. Atingiu os principais veículos de comunicação do mundo. 

E hoje vieram respostas, públicas, desmoralizantes.

A Federação Internacional de Automobilismo foi muito dura.

"A linguagem discriminatória ou racista é inaceitável sob qualquer forma e não tem parte na sociedade. Lewis é um embaixador incrível do nosso esporte e merece respeito. Seus esforços incansáveis para aumentar a diversidade e a inclusão são uma lição para muitos e algo com o qual estamos comprometidos na F1."

A Mercedes, escuderia de Hamilton, também ficou ao lado do piloto. Assim como a rival Ferrari. Elas condenaram as palavras racistas, discriminatórias.

O próprio piloto, negro, e um grande defensor da igualdade racial, também fez questão de responder, em português.

"Vamos focar a mudança de mentalidade. É mais do que linguagem. Essas mentalidades arcaicas precisam mudar e não têm lugar no nosso esporte. Fui cercado por essas atitudes e alvo delas a minha vida toda. Houve muito tempo para aprender. Chegou a hora da ação."

E ainda repercutiu mensagem de um fã. "Quem é essa p... de Nelson Piquet?"

Mesmo aqui, no Brasil, ele foi muito recriminado. A questão de seus títulos mundiais ficou para trás. A grande maioria de internautas nas redes sociais não perdoou o uso do termo racista.

Na história do esporte, Hamilton é um dos maiores defensores da luta contra o racismo

Na história do esporte, Hamilton é um dos maiores defensores da luta contra o racismo

Reprodução/Instagram

Piquet é tricampeão mundial, merece todo o respeito pela carreira fabulosa. Está a dois meses de completar 70 anos. Sempre teve como característica suas frases politicamente incorretas. Mas ele tocou em um ponto inaceitável. 

O racismo. O mundo mudou. As pessoas não tratam as outras como "neguinho" sem um fundo racista. Mesmo no Brasil, os vários apelidos, até de artistas consagrados, tiveram como berço a discriminação racial.

Nas redes sociais, muitos internautas estão apelando para o cantor Neguinho da Beija-Flor. O apelido dele é também racista, só não enxerga quem não quer ver.

A música popular brasileira acumulou expressões que ironizavam a cor negra da pele dos cantores. Noite Ilustrada, Jamelão, Blecaute, Bola Sete, Cinco Crioulos, o Branco e o Preto.

Os 5 Crioulos eram um grupo dos anos 60. Que chegou a ter Nelson Sargento e Paulinho da Viola

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Reprodução/Instagram

No futebol, a mesma coisa.

Grafite, Petróleo, Escurinho, Somália, Tiziu, Carvão, Apagão, Fumaça e tantos outros.

Pelé revelou que, ao chegar ao Santos, era chamado de Gasolina. Não aceitou. E outros veteranos buscaram a ironia. Tentaram se referir a ele como Alemão. Mas ele também não se dobrou.

O que aconteceu com Nelson Piquet é emblemático.

Ele tem todo o direito de seguir com sua personalidade forte, dizer o que quiser. Desde que não use expressões racistas.

Grafite chegou à seleção brasileira

Grafite chegou à seleção brasileira

Reprodução/Instagram

Porque haverá reação.

Além de ser tricampeão mundial, ele é brasileiro.

Nasceu em um país com 54% de sua população formada por negros, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgado em 2020.

O Brasil demorou, mas está aprendendo a se respeitar.

Não há como um brasileiro tão ilustre atacar não só um heptacampeão mundial, mas qualquer pessoa, usando a cor de sua pele, em tentativa de humilhá-lo.

Nelson Piquet foi fabuloso dentro das pistas.

Mas precisa respeitar, entender toda a profundidade do racismo...

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