Olimpíadas Propinoduto olímpico: como Rio foi de pior avaliada à sede dos Jogos

Propinoduto olímpico: como Rio foi de pior avaliada à sede dos Jogos

Política e corrupção estariam por trás da escolha das Olimpíadas de 2016

  • Olimpíadas | Dado Abreu, do R7

Do Alto Leblon para uma cela de 16m² na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, zona norte do Rio de Janeiro. O novo lar de Carlos Arthur Nuzman em nada lembra os 22 anos em que esteve à frente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), a não ser pelos colchões dos três beliches do local, usados por atletas durante a Rio 2016. Assim como o enxoval e as camas dos detentos, todos foram doados após as Olimpíadas e atualmente representam a única relação do até então 'manda-chuva' do esporte nacional com os Jogos.

Sob acusação de comprar votos para que o Rio de Janeiro fosse escolhido sede das Olimpíadas de 2016, Nuzman renunciou ao cargo de presidente do COB na semana passada. Foi na cadeia de Benfica onde ele assinou o documento e oficializou a passagem de bastão para o seu vice, Paulo Wanderley Teixeira.

A prisão de Nuzman começou a se desenhar em outubro de 2009, quando a candidatura do Rio de Janeiro derrotou as de Chicago, Tóquio e Madri, melhores avaliadas, na eleição final realizada pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) em Copenhague, na Dinamarca.

A disputa para sede dos Jogos Olímpicos de 2016, no entanto, começou em julho de 2008. Na ocasião, sete cidades apresentaram suas propostas para sediar o maior evento esportivo do planeta. Com notas de avaliação abaixo de 6,0, Baku, no Azerbaijão, e Praga, na República Tcheca, foram as primeiras eliminadas. Foram avaliados quesitos como economia, segurança, transporte, rede hoteleira e apoio do governo e da população.

O Rio de Janeiro avançou na concorrência com a menor nota entre as finalistas: 6,4. Tóquio recebeu a melhor avaliação (9,0), seguido por Chicago (8,2), Madri (7,9) e Doha (7,1). Porém, o COI não aceitou a proposta “climática” de Doha para sediar os Jogos em outubro, período menos quente no país, e assim a capital do Qatar também acabou fora da disputa.

Com as quatro candidaturas finalistas definidas, o Rio de Janeiro teria um ano até o pleito de Copenhague para mudar o cenário estabelecido e deixar de ser azarão para se tornar cidade-sede em 2016. O modus operandi para tanto estabeleceu-se nos bastidores, em um jogo político repleto de suspeitas e cartas marcadas. (Veja box abaixo).

Uma delegação composta pelo então presidente Luis Inácio Lula da Silva, o governador do Rio Sério Cabral – atualmente companheiro de Nuzman em Benfica –, o prefeito Eduardo Paes, Pelé, Gustavo Kuerten, João Havelange e outras figuras do esporte brasileiro, embarcou em 2 de outubro de 2009 para a 121ª Sessão do Comitê Olímpico Internacional, na Dinamarca. Era o momento de conhecer, enfim, a cidade-sede das Olimpíadas.

Veja imagens da votação que escolheu o Rio a cidade-olímpica

Para vencer o duelo, o Rio defendeu a tese de que deveria ser escolhida pelo ineditismo e pelo positivo momento econômico pelo qual atravessava o País. “Os Jogos Olímpicos no Rio serão inesquecíveis, pois estarão cheios da magia e da paixão do povo brasileiro”, discursou o presidente Lula, na apresentação.

Após considerações finais dos concorrentes, na qual o Rio apresentou suas belezas em um filme dirigido por Fernando Meirelles, de Cidade de Deus, a eleição em Copenhague se dividiu em três rodadas de votação. Em cada uma delas a cidade menos votada era eliminada até sobrarem as duas finalistas. Na primeira, Madri foi a melhor colocada com dois votos a mais que o Rio. Chicago, que tinha o presidente Barack Obama em sua comitiva, ficou em último e saiu da disputa. Na segunda rodada, o cenário mudou em favor do Rio de Janeiro, que herdou votos de Chicago e ficou com a maioria dos eleitores. Tóquio caiu fora. Na grande decisão o Rio teve 66 votos contra 32 de Madri e garantiu o direito de sediar a primeira edição dos Jogos Olímpicos disputados na América do Sul.

A vitória, festejada pela delegação do Brasil, foi acompanhada por milhares de pessoas ao vivo na praia de Copacabana e marcou uma conquista pessoal para Carlos Arthur Nuzman, principal entusiasta em trazer o evento ao País. Foi a quarta ocasião em que o Brasil entrou na disputa para receber as Olimpíadas, depois de duas tentativas frustradas com o próprio Rio e outra com Brasília.

Rota do dinheiro

Como o Rio de Janeiro deixou para trás concorrentes tão expressivos na reta final é o que o Ministério Público Federal quer saber. O órgão investiga o caso em parceria com o FBI e as entidades competentes de França e Suíça. Na última semana, um substancioso relatório foi apresentado pelo MPF-RJ para demostrar que houve compra de votos na escolha da sede.

No documento consta, entre outras provas, um e-mail apreendido pela Polícia Federal que revela que Papa Diack, filho do ex-presidente da Iaaf (Associação Internacional de Federações de Atletismo) e um dos pilares do movimento olímpico, Lamine Diack, cobrou Carlos Arthur Nuzman e Leonardo Gryner, ex-diretor-geral de operações do Comitê Rio 2016, por valores não recebidos.

"Nós estamos na sexta-feira, 11 de dezembro de 2009, e meu banco ainda não recebeu nenhuma transferência de sua parte. Eu tentei falar com Leonardo Gryner diversas vezes, mas não houve resposta. Você poderia verificar se ele pode confirmar 100% que as transferências foram feitas a meus endereços em Dacar ou Moscou", escreveu Papa Diack em e-mail endereçado para o então presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman.

Investigações feitas por autoridades brasileiras e francesas indicam que Nuzman e Gryner pagaram Papa Diack para que ele usasse da influência do pai na Iaaf, entidade filiada ao COI, para comprar membros africanos do Comitê. Foram identificados pagamentos de US$ 2 milhões (cerca de R$ 6,3 milhões, na cotação atual) a ele dias antes da votação. A transferência teria sido feita pela empresa Matlock Capital Group Ltd., de propriedade de Arthur Soares, o "Rei Arthur", representante dos brasileiros nas negociatas, que em contrapartida teria contratos firmados por suas empresas com o governo de Sérgio Cabral no Rio de Janeiro.

"Carlos Nuzman e Leonardo Gryner não apenas tinham conhecimento dos fatos, como também fizeram todo o trabalho de intermediação entre agentes brasileiros [públicos e privados] e africanos, no esquema de compra de votos e respectivos pagamentos", sustenta o MPF-RJ.

Para Papa Diack, porém, o depósito vindo do Brasil foi uma "infeliz coincidência". Segundo ele, em entrevista ao jornal The New York Times, os brasileiros estavam pagando para patrocinar uma nova competição de atletismo que estava sendo criado pela IAAF e ele seria o consultor de marketing do evento. Entretanto, tal competição jamais aconteceu.

A versão do africano diverge das investigações e principalmente do depoimento de Maria Celeste Pedrosa, secretária de Carlos Arthur Nuzman. Segundo ela, comentava-se na sede do COB que o dinheiro iria para construir pistas de atletismo na África e que foi depositado em contas controladas por Diack na Rússia.

No mesmo dia da escolha do Rio, Papa Diack transferiu US$ 300 mil (R$ 950 mil) para o também africano Frankie Fredericks. Ele era um dos auditores da votação, mas argumenta que tal valor era referente a dívidas entre os dois. Diack garante que seu pai, Lamine, e Fredericks sequer votaram no Rio. "Eles escolheram Tóquio. Quem disser o contrário estará mentindo", afirmou ao NYT.

Entre as denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal consta ainda o depoimento do ex-atleta brasileiro Eric Walther Maleson, o primeiro do País na modalidade olímpica de bobsled e ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportos no Gelo, que confirmou ter ocorrido fraude na votação dos países africanos para a escolha da cidade-sede.

Em julho de 2009, Maleson informou às autoridades do Brasil, por meio de carta rogatória, que a delegação brasileira, liderada por Nuzman, se dirigiu aos dirigentes da Nigéria para apresentar o Rio de Janeiro aos países africanos e, posteriormente, deu a entender que teria pago para garantir a votação da capital fluminense.

A defesa do ex-presidente do COB nega a participação de Carlos Arthur Nuzman no esquema e alega, por meio do pedido de habeas corpus, que "a hipótese formulada pelo Ministério Público", com a participação do dirigente "na empreitada criminosa", faz parte "da criação mental de seus algozes, que não contam com qualquer elemento capaz de respaldar a tese arquitetada".
Por fim, os advogados argumentam que "não se tem prova consistente de comprometimento" de Nuzman na acusação da Operação Unfair Play, que deflagrou a crise que tomou conta do esporte olímpico brasileiro.

Enquanto o caso segue em andamento, Carlos Arthur Nuzman divide a cela e um banheiro com água fria na Cadeia Pública José Frederico Marques com outros dois presos com diploma universitário. O juiz da 7ª Vara Federal Criminal Marcelo Bretas, responsável pelos processos, acatou o pedido do Ministério Público Federal e transformou de temporária para preventiva a prisão do ex-presidente do COB e do Comitê Organizador dos Jogos do Rio. No colchão que serviu de descanso para atletas olímpicos é que Nuzman tentará provar sua inocência.

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