Martine e Kahena estão dispostas a encarar até tufões em busca do bi olímpico

Dentre os grandes momentos dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, um esteve entre os mais apoteóticos para o torcedor brasileiro. Era 18 de agosto quando a dupla de velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze decidiu contornar à esquerda a última boia da regata decisiva disputada na Baía de Guanabara. A manobra renderia o ouro em uma final espetacular na disputa pela medalha contra a dupla da Nova Zelândia - e colocaria as brasileiras na história do esporte olímpico nacional. Quatro anos depois, a dupla parte como favorita ao ouro nos Jogos de Tóquio, e para isso se diz pronta para encarar até tufões.

A disputa de regatas do outro lado do mundo é quase uma novidade para as velejadoras da categoria 49erFX, mas os primeiros resultados foram promissores. No ano passado, Martine e Kahena disputaram o evento-teste olímpico no Japão e sagraram-se campeãs. A meta, claro, é repetir o desempenho daqui a seis meses.

"Foi um campeonato muito de superação. Cada dia a gente enfrentou situações diferentes, pouco vento, depois onda, muito vento. A gente se ajudou muito nesse campeonato, de uma apoiar a outra", lembra Kahena. "Foi incrível, a gente chegou cansada e conseguimos superar nossos limites e ainda vencer o evento-teste."

O cansaço citado teve a ver com a rotina de viagens a que foram submetidas naquele período. A dupla estava na Ásia, voou ao Peru para a disputa dos Jogos Pan-Americanos - também foram medalhistas de ouro - e retornou ao Japão para o teste olímpico, subindo ao lugar mais alto do pódio. Para os Jogos, a logística será menos cansativa, mas nem por isso a preparação será livre de percalços. "Quanto mais tempo a gente passar na raia olímpica, melhor", pondera Martine. "Mas no Japão as condições mudam bastante."

A preocupação com as condições climáticas é uma constante em um esporte que depende muito das correntes marítimas e da velocidade do ar, e na sede dos próximos Jogos esse aspecto é bastante peculiar.

"Existe uma variedade bem grande lá no Japão. Os ciclos de tempo funcionam um pouco em função dos ciclones, que chegam a virar tufões. Existe uma chance bem grande de termos que esperar um tufão passar para continuar a competição", ressalta Martine. "A gente está preparada também para esperar."

A estadia e a alimentação também merecem atenção especial da dupla nas semanas que antecederão a Olimpíada. "Moradia não tem como alugar por temporada, então temos que ficar em hotel. E cozinha de hotel é complicado. Tem um chef brasileiro que até treinou os cozinheiros japoneses, mas japonês não sabe fazer comida brasileira. Pra mim é sempre um desafio muito grande", afirma Martine.

Nesse aspecto, Kahena parece um pouco mais tranquila. "Nós precisamos nos adaptar ao Japão, porque aqui já estávamos adaptadas. É um desafio" comenta a velejadora.

De qualquer forma, as duas sabem que repetir o ouro de quatro anos atrás será uma tarefa ainda mais difícil. "Se manter (na ponta) é difícil, porque tem outras meninas olhando, fazendo a mesma manobra. Elas estão crescendo e a gente tem que correr atrás e querer sempre mais", diz Kahena. "Ganhamos os últimos Jogos Olímpicos, então naturalmente isso já traz uma pressão. Mas a gente sempre se cobra bastante."