Mais Esportes Sinuquinha tenta se profissionalizar sem perder charme clandestino

Sinuquinha tenta se profissionalizar sem perder charme clandestino

Organizadores de torneio em Belém querem disputas de cinturões em diversas modalidades da conhecida sinuca de bar

  • Mais Esportes | Kaique Dalapola, do R7

Jogos de sinuca rendem apostas altas em dinheiro

Jogos de sinuca rendem apostas altas em dinheiro

Reprodução/Canal Jogos de Sinuca

Maços de dinheiro, torcida, patrocinadores e muito talento. Tudo isso em volta de uma mesa de sinuca comum, muitas vezes com o pano verde irregular, dessas encontradas em botecos das periferias ou regiões boêmias. Essa cena tem se tornado cada vez mais conhecida, sem que se precise ir até os lugares onde os jogos acontecem. Transmissões das partidas nas redes sociais atingem milhões de visualizações.

Essa é uma realidade que acontece mais ou menos de três anos para cá. Antes disso, os jogadores da sinuquinha, como é chamada modalidade diferente do luxuoso snooker inglês, buscavam o anonimato para ganhar dinheiro de quem sem muita habilidade se arriscava em um jogo de alto nível.

O cenário do esporte no país tem vivido uma crescente evolução desde que o R7 publicou uma reportagem, em agosto de 2018, contando a história por trás da partida até então mais cara e misteriosa no Brasil: a disputa entre Dentão e Cobrador, valendo R$ 40 mil. Se antes o que valia era ser desconhecido, hoje a possibilidade de fama na internet mudou a cabeça de grandes jogadores.

O próximo passo prometido por organizadores de grandes eventos é uma revolução no esporte, elevando a qualidade, sem deixar o atrativo ar quase clandestino da coisa. Dentão e Cobrador foram para Belém, no Pará, onde aconteceu entre os dias 10 e 14 deste mês o torneio que pode ter sido um marco na transformação da sinuquinha no país.

Dentão chegou às quartas de final do torneio que reuniu 32 competidores conhecidos nacionalmente por suas habilidades. A disputa valia o cinturão de melhor jogador do Brasil. Já o Cobrador, que é reconhecido no meio por sua coragem de apostar alto, ficou de fora porque é acostumado a jogar somente com o chamado partido. Nessa modalidade, o adversário dá alguma vantagem ao oponente.

Favorito goleado

Torneio em Belém, no Pará, pagou R$ 20 mil em prêmios

Torneio em Belém, no Pará, pagou R$ 20 mil em prêmios

Divulgação/PSC Sinuca

Regulamentação e patrocínio

A 1ª Copa Betsinuca não foi considerada um marco apenas por ter reunido os "tacos-fortes" do país, como são chamados os principais jogadores, ou por ter pago R$ 20 mil para os quatro primeiros colocados. Novidades importantes para o esporte surgiram nas mesas paraenses.

Uma delas foi o lançamento de um aplicativo de celular para os fãs de sinuquinha acompanhar os jogos e escolher os jogadores favoritos. Outro destaque é o grande investimento na transmissão, que aconteceu em alta definição e com várias câmeras captando diferentes ângulos das partidas. E, principalmente, por ter uma regulação da PSC (Professional Snooker Championship).

“A PSC surge para adequar as regras da sinuca, e juntamente com uma fabricante de mesas, está tornando tudo padrão. Também chega com objetivo de organizar os grandes torneios no Brasil, e fazer eventos com diversas modalidades, para saber quem ganha o cinturão em cada uma delas”, explicou Evandro Miguel, presidente da PSC.

Esse movimento de organizar os jogos é considerado importante entre os jogadores porque, embora esteja presente em todos os cantos do país, a sinuquinha não segue nenhum grande padrão. É diferente do chamado sinucão (ou sinuca de mesão), que é a modalidade que era praticada por Rui Chapéu e é mais parecido com o esporte inglês. Por aqui, os tamanhos de mesas e bolas são diferentes dos internacionais.

Na sinuquinha de bar, cada cidade costuma ter mesas de diferentes tamanhos, e cada região pratica uma modalidade diferente. As categorias mais conhecidas são o jogo de bolinho (com apenas três bolas na mesa e ganha quem encaçapar a última), par ou ímpar (com 14 bolas numeradas e cada jogador deve encaçapar um grupo de sete) e a bola lisa (cada competidor tem quatro bolas da mesma cor e deve encaçapar as do adversário).

O objetivo da PSC não é padronizar todas as mesas do Brasil, mas apenas as que jogam os chamados tacos-fortes. Essa lista é bem extensa, e para fazer parte dela tem basicamente uma regra: ser patrocinado pela Papaguara.

A Papaguara é uma marca de biscoitos com sede em Ananindeua, no Pará. A princípio, não tem nada a ver com a sinuca, mas o dono dela, conhecido no meio como Edy da Papaguara, é um amante da sinuquinha e há alguns anos decidiu ser o maior investidor do esporte no país.

Edy patrocina dezenas de jogadores que considera taco-forte, além de apoiar os principais canais especializados em transmissão dos jogos no YouTube, e espaços que realizam partidas em diversas cidades de todas regiões do país.

Neste evento que aconteceu em Belém, os dois principais organizadores foram o Edy e o Evandro, da PSC. O primeiro é patrocinador de todos os jogadores, e o segundo é quem define as regras que, possivelmente, a partir de agora serão adotadas em todos grandes eventos de sinuquinha no Brasil.

Youtubers reunidos

Vagnão de Araraquara em jogada na final de torneio

Vagnão de Araraquara em jogada na final de torneio

Divulgação/PSC Sinuca

Um dos fatos que chamaram a atenção da 1ª Copa Betsinuca foi a qualidade de transmissão e alta audiência no YouTube. Além disso, aconteceu um fato raro: os narradores (e donos) dos principais canais especializado em partidas de sinuquinha estiveram juntos na narração e comentários.

Entre os envolvidos na transmissão estavam os youtubers Júlio César, do canal Rádio 100% Jogos de Sinuca, que é um dos primeiros do segmento e o que popularizou os vídeos de sinuquinha, Paulo Henrique, do Mundo da Sinuca, o maior canal do esporte no Brasil, com mais de 1 milhão de inscritos, e Vagner Monteiro, dono do canal Vagnão de Araraquara.

O Vagnão, como é conhecido, é dono de um canal com mais de 600 mil inscritos e conhecido por ter bordões criados para cada jogada e adaptados do mundo do futebol. Além disso, ele comentou boa parte das partidas, se destacou por ser o vice-campeão do torneio, perdendo a final para o Lorin de Fortaleza.

E a história do Vagnão é curiosa. Até chegar a esse vice-campeonato, a caminhada é longa. Ele é jogador profissional de sinuca há cerca de três décadas, mas a maior parte da carreira ele praticava o esporte no mesão internacional. 

Em 2012, ele criou o canal para publicar seus jogos e, três anos mais tarde, começou a publicar outros jogos, mas sempre da mesma modalidade. A sinuquinha apareceu somente depois que ele se aposentou, em 2016, por ser a mesa encontrada com mais facilidade em todos os lugares.

Vagnão começou a se adaptar aos novos jogos na sinuquinha e jogadores. Em paralelo, seguia filmando as partidas que eram possíveis. "No começo do canal, tinha uma certa audiência e a gente já percebia que o crescimento era muito rápido. E no início não tinha lives, era só os vídeos gravados", lembrou.

Nessa época, há pouco mais de três anos, os canais também enfrentavam resistência dos próprios jogadores para serem filmados. "Os jogadores rodavam o Brasil jogando apostado, então tinha muita recusa em ser filmado, porque não queriam ser reconhecidos. Mas já tinha WhatsApp, então, de qualquer forma, quando chegava um cara diferente na cidade, o pessoal já batia uma foto, mandava nos grupos e alguém sempre sabia quem era bom", explicou.

As figuras se tornavam conhecidas mesmo sem serem filmadas, portanto, tiveram que ceder. "Agora as coisas inverteram, e os jogadores pedem para serem filmados, porque quem não aparece nos grandes canais não ganha patrocínios, não são contratados por grandes eventos, etc", afirmou Vagnão.

O enorme crescimento da modalidade demandava por pessoas se dedicando exclusivamente para o esporte. Vagnão entendeu essa necessidade e resolveu mudar sua vida, deixando o emprego em um escritório de contabilidade, que é um negócio de família, para se dedicar totalmente ao canal do YouTube.

Por mais que parece uma mudança de risco, o youtuber conta que já havia indício de que o negócio seria de sucesso. Além disso, ele tinha a opção de retornar ao emprego anterior caso se arrependesse. 

"Percebi que poderia focar no canal quando o que eu recebia no YouTube era quase o meu salário no emprego, e vendo que ainda tinha como crescer mais no canal. Então deixei o escritório, e hoje vivo exclusivamente do canal", disse.

Segundo ele, quando decidiu se dedicar somente na plataforma de vídeos, já tinha muitos eventos querendo contratá-lo para fazer as transmissões, e seria inviável fazer em paralelo com o outro emprego. No começo, os youtubers gravavam as partidas e publicavam posteriormente. No entanto, principalmente após o início da pandemia, a onda é nas transmissões ao vivo. 

A dedicação de Vagnão rendeu alguns frutos, como diversos patrocínios, inclusive da Papaguara, além da remuneração e, mais recentemente, a criação da Arena Vagnão, em Jundiaí, no interior de São Paulo. 

A arena é um espaço moderno, dedicado exclusivamente a grandes partidas de sinuquinha. Segundo Vagnão, a ideia surgiu após a produtora VS7 procurá-lo a fim de fazer a parceria para elevar a organização e transmissão de partidas do esporte.

O jogo de inauguração da Arena Vagnão foi entre Baianinho de Mauá e Maycon de Teixeira de Freitas. Os dois são considerados os principais jogadores de sinuquinha no país. Baianinho especialista na modalidade par ou ímpar, enquanto Maycon domina principalmente o jogo de bolinho.

A 1ª Copa Betsinuca foi a disputa de cinturão do jogo de bolinho. Ou seja, Maycon entrou com enorme favoritismo. Ele era incontestavelmente a principal atração do torneio, graças ao seu grande público nas redes sociais e aos elevados números de visualizações de vídeos de partidas dele independentemente do adversário.

Na primeira fase, Maycon foi o último a jogar, fechando a noite. E realmente foi um jogo épico. Na partida contra Concreto de Manaus, perdeu de 7 a 0 — a pior derrota do torneio. "Não vou tirar o mérito do rapaz que é um grande atleta, mas também teve sorte no começo da partida. Também estou meio cansado. Mas quero pedir desculpa para todos que torceram para mim", disse o jogador na trasmissão oficial logo depois do massacre.

Concreto de Manaus foi eliminado logo na fase seguinte. O torneio terminou com Lorin de Fortaleza campeão, conquistando o cinturão do jogo de bolinho e faturando R$ 10 mil, Vagnão em segundo, ganhando R$ 5 mil, seguidos por Goianinho e Felipinho, que receberam premiação de R$ 3 mil e R$ 2 mil, respectivamente.

E o Baianinho?

Baianinho de Mauá, principal jogador de sinuquinha no Brasil

Baianinho de Mauá, principal jogador de sinuquinha no Brasil

Divulgação/Baianinho de Mauá

Nem tudo foram flores. O grande torneio que pode ter sido o marco na sinuquinha brasileira não contou com a presença de Baianinho de Mauá, a figura mais conhecida do esporte no país e considerado por quase todo mundo do meio como o melhor jogador brasileiro.

O bruxo, como é conhecido pelos bares e canais que se apresenta, está se recuperando de uma cirurgia e sequer viajou para Belém.

Hoje, é impossível falar de sinuquinha no Brasil sem dar destaque para o homem de 47 anos, de jeitão simples, diferente do imaginado porte de atleta profissional. Ele foi um dos que mais ganhou grana usando como aliado o fato de ser desconhecido. E tudo começou há mais de três décadas, longe da promessa de profissionalização, em uma charmosa clandestinidade.

Adriano Imperador engata romance com estudante de medicina

Últimas