Mais Esportes Dentão x Cobrador: a partida mais cara e misteriosa da sinuca no Brasil

Dentão x Cobrador: a partida mais cara e misteriosa da sinuca no Brasil

Conheça a história de artistas do pano verde que se escondem por trás de apelidos e chegam a movimentar R$ 40 mil em uma única tarde de bilhar

Matheus Vigliar/R7

Eles até se mostram dispostos a sair da informalidade, mas ainda guardam um charmoso quê da mais típica malandragem em volta de uma mesa com seis caçapas. A sinuca já movimentou R$ 40 mil em um só jogo, mas quase ninguém conhece os seus astros. Dentão e Cobrador são os personagens do mais caro e misterioso duelo da história desse esporte no Brasil.

A opção pelo anonimato – e aqui os nomes e sobrenomes, tampouco os CPFs, serão revelados – faz sentido. Ser conhecido é a última coisa que um jogador de sinuquinha, uma variante da sinuca tradicional (leia mais abaixo), quer para a carreira em bares e clubes. Não bastasse lidar com o vendaval de uma gorda quantia de dinheiro na mão, o reconhecido estrelato tiraria deles justamente a vantagem de ser desconhecido.

Arte/R7

Se você não identifica um Baianinho de Mauá, Cobrinha, Lolito, Gordinho do Sul ou Tripulim, atuais expoentes da modalidade, pode muito bem se deixar levar pelo impulso daquele Rui Chapéu escondido dentro de você e perder boas somas contra pessoas simples que estão ali para antes de tudo se divertir. A bermuda larga e o chinelão de dedo conferem o tom descontraído de quem não se importa exatamente com a renda extra.

Dentão e Cobrador fazem parte desse universo. O vídeo do duelo entre os dois, que aconteceu em março de 2017, já ultrapassou 8,5 milhões de visualizações no canal “Betosinuca Betão de Ro.”, do Betão, de Jaru (RO), um dos tantos dedicados ao esporte no YouTube. Além da vitória de Cobrador por 10 partidas a 9 e do valor de R$ 40 mil como premiação, pouco se sabe sobre a partida além do mostrado no vídeo.

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O R7 percorreu algumas das principais mesas da periferia da capital paulista, entrevistou organizadores dos torneios, donos de bares e jogadores para unicamente saber mais sobre a partida. Faltaram, no entanto, os artistas do pano verde. Dentão e Cobrador foram blindados por absolutamente todos os envolvidos. 

“Tem gente que paga para jogar futebol e gente que ganha para jogar sinuca. O futebol em São Paulo acaba, no máximo, às 22h, 23h. A gente vai até 5h, 6h da manhã”, disse Kalango, do site “No Trabalho Bilhar”, um dos principais organizadores de torneios pelo Brasil. Ele ainda vai além na comparação com o futebol: “Jogar sem apostar é como bater pênalti sem goleiro”.

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A reportagem, que nem na cara nem no jeito de andar se parece com um agente infiltrado, foi sempre tratada com cortesia e desconfiança. Se por um lado as portas dos bares estavam “abertas para o seu trabalho”, era necessária a comprovação da profissão mediante um crachá de identificação. Até mesmo este texto deveria ser apresentado aos mais influentes. Eles queriam saber antes “o que está sendo falado do nosso esporte”. Foto? Nem pensar.

Dentão é um dos nomes da “primeira-força” da sinuquinha no Brasil. Cobrador, não. Por isso, o jogo foi combinado com algumas regras próprias. O homem mais velho em relação a Dentão da Praia Grande, no litoral sul de São Paulo, dava a primeira tacada e tinha três bolas de vantagem, no “par ou ímpar”, de regra limpa. Quem conseguisse dez vitórias primeiro, levava os tais R$ 40 mil para casa.

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“A sinuquinha era conhecida como esporte de malandro. Durante muito tempo se viu assim, foi para a literatura, mas a coisa vem mudando”, disse Betão, em referência ao conto “Malagueta, Perus e Bacanaço”, de João Antônio. Segundo Betão, o vídeo é o mais visto do esporte no Brasil, tendo sido exibido ainda em outros 26 países segundo dados do YouTube.

O apelido de Dentão não requer muitas explicações. A alcunha mais intrigante está com o taco adversário, matando as bolas do outro grupo de números. Cobrador deixa a impressão de trabalhar em ônibus circulares: a quantia de dinheiro que recolhe de cima das mesas dá outra dimensão para o nome carinhoso de um jogador pra lá de ousado. Afinal, por maior que sejam os zeros na conta bancária, pouca gente tem coragem de colocar R$ 20 mil em um jogo.

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Mas não é só de vitória que Cobrador faz jus ao apelido. Em um jogo que, se não inventou, ao menos, popularizou pelos bares, ele recolhe maços e maços de dinheiro de cima das mesas. Cobrador dispõe cinco bolas enfileiradas no centro da mesa e cobre a aposta de quem quiser para encaçapar todas em, no máximo, sete tentativas. Entre um perde e ganha, da mesma forma que alguém desafia chutes precisos entre garrafas de água na Praça da Sé, ele diverte quem passa por lá.

Os presentes naquele dia histórico, no que dão a entender ser o Bar do Cabeção, em Votorantim, no interior de São Paulo, contam que Dentão da Praia recolheu o dinheiro com amigos. Segundo eles, só isso já intimidou, e muito, o seu jogo. Perder um dinheiro que não tem é ainda mais complicado mesmo para um jogador habilidoso e experiente.

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Diante de mais de 50 pessoas ao redor da mesa, Dentão e Cobrador não têm noção que estão em um duelo histórico. Os mais envolvidos se dividem em dizer que jogos mais caros já existiram no Brasil e esse não é o padrão de apostas. Se por um lado existe a lenda que um jogador perdeu R$ 195 mil em um único dia; por outro, torneios com premiações totais de R$ 1.000, R$ 2.000 e R$ 3.000 são mais comuns. No máximo, uma moto de um amigo está em cima da mesa — não no sentido literal, claro.

Os uniformes dos jogadores também ajudam a desvendar o perfil de cada um. E justamente por isso o vídeo não foi parar em outro canal no YouTube. Enquanto Cobrador está de calça jeans e camisa polo, Dentão aparece sem camisa. Esse foi o principal motivo para que Júlio César, da “Rádio 100% Jogos de Sinuca”, de Palmas (TO), não aceitasse publicar o vídeo.

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“Quem fez o vídeo na época me mandou e eu não quis publicar. O vídeo não se enquadra no perfil que publico no canal. A mesa de sinuca deve estar limpa, os jogadores não podem estar sem camisa, não deve haver som alto. Não é todo vídeo que serve para a postagem”, disse Júlio César, sem arrependimento pela não publicação. O canal dele hoje conta com mais de 100 mil inscritos, o que lhe rendeu a cobiçada placa de prata oferecida pelo YouTube para os que atingem a marca significativa.

Cobrador usa das suas vantagens e vai logo matando suas bolas. Apesar de “dar algumas brancas” (não acertar nenhuma bola que precisa), se mantém vivo no jogo e pressionando o adversário. A torcida, ainda que timidamente, começa a tomar partido pelo elo mais fraco. A identificação por quem tem menos dinheiro parece ser natural. O canhoto Dentão também faz por merecer e prova ser um dos melhores do país diminuindo a diferença.

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A partida então chega a um momento crítico, que não permite mais erros. Lá pelo décimo minuto, Dentão tem a chance de vencer o 19º duelo daquela tarde de domingo. Era encaçapar a bola verde e comemorar a vitória, ser erguido pelos amigos e tudo mais que tinha direito. Talvez até uma volta olímpica.

A opção pela jogada utilizando a lateral da mesa, a popular tabela, provou não ser a melhor. Nem a foto com Rui Chapéu em uma rede social o ajudou. Ali era uma questão de força, como fizeram questão de demonstrar alguns amigos ao final.

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Cobrador, do outro lado, não esperou nem matar a sua bola rosa, ao fundo da mesa, para comemorar a vitória. Com os punhos cerrados e o taco para cima, gritou palavras de ordem com a certeza de que aquela partida enfim estava decidida. Dito e feito.

“Quem entendia de sinuca era ele. Em cima dele foram e gramaram muitos e muitos [...] muito cobra ficou falando sozinho, esfacelado em volta da mesa, como coruja cega”, como conta o livro de João Antônio.

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Para Cobrador, apenas mais R$ 20 mil de lucro. Dentão não perdeu dinheiro, mas a oportunidade de levar R$ 40 mil para casa.

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