No boxe, Julião Neto quer medalha no Rio-2016 e terminar de construir a 1ª casa
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O pugilista Julião Neto tem dois sonhos na vida. O primeiro é se tornar uma das surpresas da equipe brasileira nos Jogos Olímpicos do Rio e conquistar uma medalha na categoria peso-mosca (até 52 kg). Ele não está entre os favoritos, mas diz que vai comendo pelas beiradas e confia muito no seu direto, aquele golpe reto que sonha pegar bem na fuça do rival. São só três lutas até a medalha. O outro projeto é terminar a casa para a mãe, dona Benedita, no bairro da Cremação, em Belém. Depois de morar a vida inteira de favor, é a primeira vez que a família tem um endereço só deles. Julião diz que os sonhos vão dar em um lugar só.
Ele explica. Atualmente, ele é um dos contemplados da Bolsa-Atleta, programa de financiamento individual criado pelo Governo Federal para promover o desenvolvimento do esporte e de esportistas. Na categoria Olímpico, uma das mais altas, ele ganha por volta de R$ 3.100,00. Se conseguir uma medalha olímpica, pode pleitear um valor maior no próximo período, entre R$ 5 mil e R$ 15 mil, de acordo com os outros resultados que alcançar. É o sonho olímpico traduzido na planilha do orçamento doméstico.
"Todo atleta pensa em ganhar uma medalha pelo reconhecimento, pela glória. Ser o melhor. Mas a medalha, no meu caso, é a chance de uma vida melhor também. Não posso negar isso. Sempre sonhei em poder dar uma casa para minha mãe", disse o lutador de 34 anos. "Medalha faz a gente entrar na história e mudar de vida. Luto pela minha família. Eles dependem de mim".
Outro fator pode ajudar na contas de Julião. Como terceiro-sargento da Marinha, ele recebe uma remuneração mensal de R$ 3.200, mais benefícios. Aqui, a promoção para ganhar mais é difícil. Como atleta temporário, ele não vai mudar de patente e almejar uma posto mais elevado. O cargo é específico, mas pode ser renovado a cada oito anos. "O dinheiro está dando para eu viver do boxe. Isso é o que eu mais queria", disse.
Não sobra para luxo. Ele mora 10 minutos distante do local onde treina, o Clube Escola Joerg Bruder, em Santo Amaro. Sua casa é bem arrumadinha. Só é feia a entrada com restos de materiais de construção de outra família - o terreno é dividido. Julião está preocupado com o valor do aluguel, R$ 800. Abre as mãos e vai contando no dedo as despesas mensais: água, luz, telefone, internet. "Queria achar um lugar mais barato. Já me ofereceram um lugar de R$ 500 do outro lado da Avenida João Dias, mas o problema é pegar a condução. Vou chegar no treino cansado e estressado. Aí não dá, né", disse o lutador.
É meio piegas, mas lutador não é só a profissão de Julião. É quase um sobrenome, uma marca de família. Quando tinha oito meses, ele perdeu o pai, que era comerciante e dono de um barco de pesca em Igarapé-Miri, no Pará. Foi aí que começou a saga de dona Benedita atrás de uma casa porque ela foi despejada pela família do marido. Foi morar com a mãe, a avó de Julião. Eram sete filhos amontoados em um cômodo 3 por 3. Julião conta que não tinha espaço para montar cama, então todo mundo ficava espalhado nas redes e colchões na hora de dormir.
O boxeador não conta essas coisas assim de primeira, uma palavra atrás da outra. As lembranças aparecem junto com os socos, enquanto vai batendo no saco vermelho do ginásio. Ele dificilmente encara o interlocutor, tem um jeito de falar olhando para baixo e para os lados. Às vezes se perde nas luvas. Mas conta que aquela história do "olho de tigre" é verdade quando está no ringue. "Só pelo jeito de olhar dá para saber quem vai ganhar uma luta".
A casa, de novo. Volta e meia, ele fala sobre a casa. Pagou mais ou menos R$ 100 mil para começar o projeto do chão. São sete cômodos, um para cada irmão. "São todos casados, mas minha mãe fez questão de ter um quarto para cada um. Eu tenho o meu", disse o lutador, que é casado com Priscila há 16 anos. Eles têm um filho de três anos.
O peso-mosca ganhou uma das cinco vagas que o Brasil tem direito na modalidade como país-sede. Participou dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara-2011 e Toronto-2015. Em Londres, perdeu na segunda luta. No Rio, sabe que terá sua última Olimpíada. Atualmente, ocupa a 16.ª posição no ranking mundial, mas acredita em surpresas. "Vou com tudo para conquistar uma medalha. Os favoritos são um do Azerbaijão e outro de Cuba. Mas só três lutas, a terceira já vale medalha. Depois, vai ser só alegria. Tá na hora de ter alegria nessa vida".
As chances do Brasil são razoáveis. O País pode brigar por medalhas em nove das dez categorias (só falta alguém no superpesado, acima de 91 kg). No Mundial de 2013, foram duas medalhas, uma prata e um bronze. Os principais nomes são Robenilson de Jesus (56 kg) e Robson Conceição (60 kg). Mas pouca gente apostava nos medalhistas olímpicos de Esquiva e Yamaguchi Falcão antes dos Jogos de Londres-2012. Nesta segunda-feira, a equipe realizou o último treino aberto no Rio. A definição das chaves, etapa que pode facilitar ou dificultar a busca pela medalha, será no dia 4 de agosto. As lutas começam dois dias depois.
Julião pensa em voltar a morar com a mãe. Mesmo com mulher e filho. Ele vai e volta nos assuntos assim mesmo. No mesmo instante em que fala da Olimpíada e da fase final da preparação no Rio, ao lado da Irlanda e dos Estados Unidos, ele toca a falar de Belém. Para ele é tudo uma coisa só. "O ringue sempre foi minha vida. Consegui tudo nele. Não consigo separar as coisas".
Julião é um cara gentil. Foi atencioso - e sobretudo paciente - na sessão de fotos e ofereceu água duas vezes na tarde quente da zona sul de São Paulo. Só fez um pedido: uma das fotos de presente para fazer um pôster e mandar para a mãe.











