Livro revela submundo das transações milionárias de jogadores de futebol
Mais Esportes|Do R7
Paris mudou com a chegada de Neymar. Até a torre Eiffel foi iluminada com as cores do Brasil, e não se tratava de um gesto político do governo francês para marcar 200 anos de um tratado com o País sul-americano. O motivo era, no fundo, bem mais importante: a chegada de um craque planetário para liderar o time do establishment francês para rivalizar com os grandes da Europa. A contratação de Neymar surpreendeu o mundo do futebol, deixou os torcedores do Barcelona irritados e desenhou um novo patamar sobre as transferências de jogadores.
Ainda que o valor de 222 milhões de euros (cerca de R$ 821 milhões) choque qualquer contabilidade, a realidade é que a transação foi apenas a ponta do iceberg de um mercado desregulado, sem controle dos estados e monitorado por uma entidade com sua reputação arrasada: a Fifa.
São os bastidores dessa realidade que revela o livro Footballs Secret Trade: How the Player Transfer Market was Infiltrated, escrito por Alex Duff e Tariq Panja (2017, Bloomberg Press). Ambos mergulharam por anos no submundo do futebol para descobrir como a matéria-prima do jogo, o atleta, passou a fazer parte de um esquema globalizado de bilhões de dólares e sem um controle claro.
"Um grupo de investidores globais foi capaz de levar vantagem diante da total falta de regulação no comércio de jogadores de futebol, um ativo que hoje gera US$ 5 bilhões (R$ 16 bilhões) por ano", disse à reportagem um dos autores, Tariq Panja, que por anos foi o correspondente da Bloomberg no Rio de Janeiro e hoje é considerado um dos jornalistas que mais conhecem os negócios do futebol, e seu submundo.
Com dados e histórias sobre dezenas de casos de jogadores e seus empresários, os dois autores chegam à constatação de que "autoridades do futebol perderam o controle sobre o mercado de transferência, permitindo que indivíduos de todas as partes do mundo somem lucros a partir de um esporte que faz parte do coração de milhões de pessoas pelo mundo".
O próprio caso de Neymar, mesmo antes da compra pelo PSG, já era apontado no livro como o exemplo claro de um produto alvo de um leilão mundial, sem regras nem pudores. "Neymar se tornou a commodity que os grandes clubes do mundo queriam", aponta a publicação. Os autores contam como o empresário brasileiro Wagner Riberto levou o jogador, ainda com 14 anos, para visitar o Real Madrid.
"Quando o Santos descobriu, ficou preocupado que Neymar, que ainda não tinha um contrato profissional, seria contratado pelo time espanhol", diz o autor. Imediatamente, o advogado Marcos Motta foi chamado pelos cartolas do clube da Vila Belmiro para blindar o garoto. "Dissemos: 'ele é menor de idade'", relembra Motta. "Ligamos para a Fifa, para a Confederação Brasileira, para todos", explicou o advogado que, na semana retrasada, foi quem garantiu a transferência do atacante para o PSG.
Pouco depois daquele episódio, Neymar assinaria seu primeiro contrato com o Santos. Em seguida, numa primeira renovação, o Santos garantiu ao craque 40% dos futuros ganhos com uma eventual venda ao jogador, antes mesmo de a transferência ocorrer e mesmo sem saber se o talento vingaria. O acordo ainda previa a chegada de um fundo, por meio do dono de uma rede de supermercados, Delcir Sonda. "Antes de seu 18º aniversário, Neymar já era um milionário", contam os autores, apontando para o "dote" inicial de R$ 5 milhões ao jogador.
À medida que os gols apareciam, a fila de investidores surgia para obter um pedaço dos direitos de uma futura transferência. Nos meses seguintes, as viagens para a Europa também passaram a ser frequentes para o estafe de Neymar e, principalmente, para seu pai. Numa delas, quem os recebia era Roman Abramovich, dono do Chelsea.
PROPOSTAS - Em agosto de 2010, nos EUA e no mesmo dia que Neymar vestiria a camisa da seleção pela primeira vez, a delegação do clube inglês ofereceria 35 milhões de euros pelo atacante. A reunião acabou sem acordo. Aquele seria, segundo o livro, a primeira de dezenas de reuniões com os maiores clubes do mundo. Do Real Madrid, veio uma proposta de 45 milhões de euros em 2011, também recusada. Mas Florentino Pérez, presidente do clube espanhol, não se deu por vencido. Aproveitando a viagem do então presidente do Santos, Luís Álvaro, pela Europa, o espanhol telefonou ao cartola brasileiro oferecendo um avião para buscá-lo.
"Não perca seu tempo e gasolina do avião. Não estamos interessados em vender Neymar", retrucou o dirigente do Santos. Florentino então decidiu embarcar em seu jato ir até Paris jantar com Luís Álvaro no Guy Savoy, um dos restaurantes mais caros da Europa. Nada disso funcionava, nem mesmo um contrato desenhado por Motta à pedido do Real Madrid convencia o time brasileiro. Do outro lado do Canal da Mancha, Abramovich também não desistia.
Michael Emenalo, diretor de futebol do Chelsea, foi até Santos e propôs transformar Neymar no Michael Jordan do futebol. "À medida que o pai de Neymar se encontrava com os pretendentes de seu filho, mais entendia que poderia extrair dinheiro deles", afirma o livro. Por isso, decidiu que pediria a qualquer um deles um adiantamento de 10 milhões de euros e mais 30 milhões de euros com o contrato fechado.
E foi isso que o Barcelona fez em 15 de novembro de 2011. Para garantir o acerto, o clube orquestrou uma engenharia de contratos que acabou levando todos aos bancos dos réus e demonstrou a falta de controle que pode existir nas transferências de jogadores pelo mundo.
CLUBE DE ALUGUEL - Se Neymar é um retrato fiel do leilão mundial feito pelos craques e esquemas que beiram à ilegalidade, o livro também revela como agentes e empresários sempre conseguiram estar um passo à frente das regras estabelecidas pela Fifa, mantendo um comércio muitas vezes questionável. O "pai" desse sistema, segundo os autores, teria sido o empresário Juan Figer. "Foi ele quem liderou o caminho para que grandes e pequenos o seguissem", indicou. Ao longo do anos, ele passou a alugar clubes inexpressivos no interior do Uruguai para justificar transferências milionárias.
À medida que Brasil, Argentina, Uruguai e mesmo a Fifa fechavam o cerco contra essas práticas, Figer modificou sua estratégia para continuar lucrando e encontrou num clube de segunda divisão de Portugal, Portimonense, o caminho para comercializar seus jogadores, como se fossem de um time. Figer comprou 75% das ações do modesto time.
Assim, de um clube com um público médio de 3 mil pessoas e mais de cem anos de histórias sem títulos, o Portimonense começou a registrar a venda de jogadores para grandes times e com valores milionários. De acordo com a publicação, esses jogadores jamais atuaram por essas equipes.
Exemplos de manobras para contornar as regras não faltam. Um deles, também mencionados no livro, foi a atuação do iraniano Kia Joorbachian e Media Sports Investments no Brasil. Foi a venda de Carlos Tevez e Javier Mascherano, do Corinthians para o West Ham, que abriu a maior crise da história recente da Premier League, responsável por organizar o Campeonato Inglês. No livro, os autores apresentam documentos inéditos sobre como o West Ham mentiu sobre quem, de fato, controlava os jogadores.
Para Panja, todos esses casos revelam que, mesmo com o aumento de vigilância da Fifa nos últimos anos, a entidade terá um "trabalho difícil para conseguir monitorar áreas obscuras que ainda existem nas regras de transferências". O próprio autor admite que levou mais de dois anos para reunir o material para o livro, diante da dificuldade em encontrar pessoas dispostas a falar e documentos. Nem mesmo a maior crise financeira dos últimos 70 anos abalou a expansão dos valores de transferências de jogadores de futebol. Desde 2011, o salto foi de 44%. E tudo isso sem contar com a venda recente de Neymar que abriu uma nova era.
Um dos trechos do livro deixa claro a desconexão existente entre a economia real e o mundo do futebol. Ao se reunir com o empresário brasileiro Eduardo Uram, que teria cerca de 120 jogadores sob seu comando, o executivo foi questionado por Panja se a pior recessão na história recente do Brasil afetava seus negócios. Com um charuto cubano Cohiba Premium na boca, Uram deu uma baforada, esperou a fumaça subir e disse: "Isso é o quanto eu sinto a crise".





