Lateral dos juniores da Lusa faz curso de gastronomia e divide gramados com fogão
Mais Esportes|Do R7
Um dos segredos do bife Wellington, aquele filé mignon assado e envolvido em massa folhada, é o molho. Um pouquinho de especiarias, canela e cravo, deixa um gostinho meio doce. Esta não é uma reportagem do caderno Paladar, é de Esportes mesmo. A culpa da mistureba é de Gabriel Lima, lateral-direito dos juniores da Portuguesa e aluno do curso de Gastronomia da Universidade Metodista. São dele as dicas para o prato clássico que dá água na boca. Gabriel leva uma vida dupla, metade cozinheiro e metade jogador de futebol.
Pela manhã, ele é o jogador que procura uma chance no time profissional da Portuguesa, na Série A2 do Campeonato Paulista. Treina diariamente no Parque Ecológico do Tietê e agora disputa a Copa Ouro, torneio da Federação Paulista. No início do ano, foi um dos destaques da equipe na Copa São Paulo de Juniores, mas o time caiu na primeira fase.
Um pouco mais para trás, foi campeão paulista sub-13 no mesmo time que tinha Gabriel, o Gabigol, hoje na seleção olímpica. A comissão técnica afirma que ele é um lateral técnico, que avança muito e cruza bem, mas que precisa se dedicar mais à marcação.
Em 2013, viveu um perrengue danado. Rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito e foi submetido a uma cirurgia. Seis meses depois, descobriu que o mesmo ligamento havia se rompido de novo. Foram duas cirurgias no mesmo joelho. Ficou quase um ano e meio parado, um drama para quem está começando, ele tinha 17 anos. Hoje, já chamou a atenção de Ricardinho, técnico do time profissional.
À noite, ele é um dos quarenta alunos do curso de Tecnologia em Gastronomia em São Bernardo. Está no terceiro semestre, o que significa que vai pegar o canudo no ano que vem. O curso, com mensalidades em torno de R$ 1100,00, prepara o aluno para a ampla área de Gastronomia e dá cancha para montar o próprio negócio. A grade curricular vai se adaptando àquilo que os alunos veem fora da sala de aula, como os inúmeros programas de tevê de culinária.
O coordenador Marcelo Bergamo explica que ele não será um chef assim que sair do curso porque este na verdade é o cargo dentro do organograma de um restaurante. "A gastronomia vem crescendo muito porque as pessoas têm mais chances de viajar e compreender a culinária como uma manifestação cultural", explica Bergamo.
A reportagem do jornal O Estado de S. Paulo acompanhou a aula de culinária francesa nesta semana, dentro do módulo "Cozinhas do Mundo". Como líder do seu grupo, Gabriel teve de acertar o ponto da vieira, molusco enjoado, parente chique da ostra. As vieiras da aula são importadas do Canadá, a 260 reais o quilo. São seis unidades por grupo e olhe lá. O jogador fixa o olho no prato para não perder o ponto, pecado mortal em iguaria tão delicada. Com o prato pronto, os jovens do grupo de Gabriel ganharam um sonoro "perfeito" do professor logo na primeira garfada.
CAMINHO - Essas trajetórias paralelas vão se encontrar no ano que vem. Gabriel estará no último ano como júnior da Portuguesa e vai concluir o curso de Gastronomia. As duas profissões são como óleo e água, não se misturam. Mas não se anulam. Na verdade, Gabriel faz parte de uma espécie de jogador de futebol difícil de ser encontrada, aquele que pensa em um plano B, que tem para onde correr se as coisas não derem certo. "Acho que ele é melhor jogador que cozinheiro", opina José de Lima Junior, gerente de Produção e grande inspirador do filho nas duas áreas.
Gabriel acha que dá para ir tocando as duas vidas por enquanto. Reclama que a perna fica pesada em alguns treinos, afinal ele fica de pé cozinhando por quase três horas todos as noites. Nem sempre consegue dormir o suficiente. Os colegas de curso acham um barato ver um jogador no fogão. Ele não disse isso com essas palavras, mas ficou subentendido que o seu prato preferido é uma partida de futebol. Mais que um bife Wellington.
TIME PROFISSIONAL PENA NA A2 - Depois de 17 rodadas, a Portuguesa vem penando na Série A2 do Campeonato Paulista. Apenas oito se classificam à próxima fase e continuam a sonhar com uma vaga na elite do Campeonato Paulista do ano que vem.
Neste domingo, a equipe recebe o Rio Branco de Americana e precisa vencer para se aproximar dos líderes do torneio, sendo que classificação para a fase final está complicada.
A campanha não agrada aos torcedores. No treino de sexta-feira, membros da principal torcida organizada invadiram o treino no CT do Parque Ecológico para cobrar uma partida contra o time. Uniformizados com chuteiras e meiões, 15 torcedores queriam treinar com os profissionais. Era uma forma de protestar contra a campanha ruim, na qual a luta pelo rebaixamento se tornou uma realidade, não a busca pela classificação à fase final.
"A direção do clube entende a posição da torcida, porém repudia a forma como a ação foi feita e a interferência no ambiente profissional", disse nota oficial do clube.
Após a derrota para o Batatais, por 3 a 0, na última rodada, o técnico Ricardinho fez um desabafo e listou problemas que já eram mais ou menos conhecidos: a falta de qualidade de alguns atletas, os problemas de planejamento e a falta de perspectivas.
A derrocada da Portuguesa não é um fenômeno recente. Nos últimos 13 anos, foram sete rebaixamentos. O mais dolorido para os torcedores - e que tem desdobramentos até hoje - aconteceu no Campeonato Brasileiro de 2013.
O clube foi punido pelo STJD com a perda de quatro pontos pela escalação irregular do meia Héverton na última rodada e acabou na Série B. Desde então, o clube não conseguiu mais se reerguer, imerso em uma grave crise financeira. No ano seguinte, caiu para a Série C e no ano passado foi rebaixado à Série A2 do Campeonato Paulista.












