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BRASILEIRO 2022
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Desfile no rio Sena e ameaça de terrorismo: Paris está preparada para a abertura das Olimpíadas

Desde os ataques letais de 2015, a França se acostumou com as ameaças e a presença de soldados em locais públicos

Mais Esportes|Catherine Porter e Ségolène Le Stradic, do The New York Times

Pela primeira vez a cerimônia de abertura não será promovida no confinamento de um estádio, mas sim no Rio Sena (Dmitry Kostyukov/The New York Times - 04.04.2024)

O atentado terrorista de 2015 deixou Paris revoltada e arrasada, e foi também o que convenceu a atual prefeita, Anne Hidalgo, a defender que a Olimpíada fosse efetuada ali. “Pensei comigo mesma que deveríamos fazer algo unificador, poderoso e pacífico que nos ajudasse a deixar aquilo para trás. Passei a me dedicar a isso”, disse ela em entrevista recente, lembrando a tarde terrível de janeiro em que um bando de homens mascarados invadiu o escritório do jornal satírico “Charlie Hebdo” e abriu fogo, matando 12 pessoas.

Passados nove anos, os Jogos Olímpicos estão marcados para começar em julho na capital, com a França em alerta máximo para risco de ataques, principalmente depois da violência na casa de espetáculos em Moscou, em março. Apesar disso, pela primeira vez a cerimônia de abertura não será promovida no confinamento de um estádio, mas sim no Rio Sena, no qual os atletas desfilarão em barcos, atravessando o centro dessa metrópole densa e antiga diante de 500 mil espectadores nas arquibancadas e nas janelas dos prédios mais próximos.

Há quem diga que esse detalhe faz do evento um alvo óbvio, mas Hidalgo e outras autoridades revelam total confiança no plano de segurança. “A melhor reação é fazê-la, mas com seriedade e profissionalismo. Se não fizermos por medo, quem vai ganhar são eles. O que não é o caso”, afirmou ela.

Os atletas desfilarão em barcos, atravessando o centro da metrópole (Dmitry Kostyukov/The New York Times - 04.04.2024)

Diversos especialistas também afirmam apostar nos preparativos. “De acordo com o plano atual, Paris estará mais do que preparada para a cerimônia. A polícia francesa não poupou despesas para isso”, declarou Frédéric Péchenard, antigo diretor da agência nacional de policiamento.

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O presidente Emmanuel Macron afirmou em entrevista recente para a TV que a intenção de fazer uma cerimônia desse tipo era criar algo completamente novo, aberto, para mostrar a França sob seu melhor ângulo. “O objetivo era mostrar que temos condições de fazer coisas extraordinárias.”

Mesmo assim, os desafios são óbvios e muitos. O desfile percorrerá um trecho de seis quilômetros, passando por centenas de prédios históricos de diferentes eras, formatos e tamanhos, incluindo o Louvre e a Torre Eiffel. Ao longo dele, há mais de cem pontos de acesso; telhados irregulares e janelas incongruentes; e um labirinto de canos, túneis e tubulações de esgoto no subsolo. Sem contar o próprio rio, com seus movimentos, redemoinhos, conexões, trânsito. “Será preciso instaurar uma operação bastante complexa e bem longa, mas ainda assim não conseguirá eliminar todos os riscos”, admitiu Bertrand Cavallier, ex-comandante da escola de treinamento da polícia militar francesa.

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Desde os ataques islamitas letais de 2015, a França infelizmente se acostumou com as ameaças e os soldados patrulhando as praças e estações de trens lotadas, o dedo em repouso ao lado do gatilho da metralhadora. O último, cometido em dezembro, matou um turista e feriu outros três.

O desfile percorrerá um trecho de seis quilômetros, passando por centenas de prédios históricos de diferentes eras (Dmitry Kostyukov/The New York Times - 04.04.2024)

Segundo os organizadores, o potencial para o terror faz parte do planejamento desde o início. Ao longo dos meses de preparação, em respostas aos temores, houve alguns ajustes em relação ao plano inicial da cerimônia de abertura – como a redução do número de espectadores permitidos às margens do rio, por exemplo.

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Outro ponto que eles levantam é a experiência que têm com grandes eventos. “Em 2016, a França sediou o campeonato europeu de futebol, que atraiu um público de 600 mil estrangeiros”, lembrou Tony Estanguet, presidente do Comitê Olímpico de Paris. As autoridades afirmam que mesmo os flagrantes de fracasso, como os problemas perigosos de controle de multidão na final da Champions League de 2022, representaram lições importantes. “Todas as decisões desde 2015 foram tomadas levando a segurança em consideração. Há três anos sabemos de nossas necessidades com precisão milimétrica, tanto de tempo como de espaço”, declarou Estanguet em entrevista.

As linhas gerais do plano já foram divulgadas: às áreas mais próximas de ambas as margens, estendendo-se a muitos e muitos quilômetros além do trecho utilizado para a festa, serão marcadas como zona protegida e interditada a veículos motorizados oito dias antes da cerimônia. As 20 mil pessoas que moram e trabalham na região terão de se registrar para pedir um QR e serão verificadas. Ninguém poderá entrar se não tiver código. Durante esse período, o rio ficará fechado para a navegação.

As pesquisas sugerem que os parisienses estão divididos em relação aos planos para a cerimônia de abertura (Dmitry Kostyukov/The New York Times - 04.04.2024)

No dia da cerimônia, o espaço aéreo sobre Paris e à volta da cidade, em um raio de 150 quilômetros, permanecerá fechado, incluindo os quatro aeroportos mais próximos – entre eles o Charles de Gaulle, terceiro maior da Europa. A polícia vigiará os túneis e esgotos subterrâneos. As estações de metrô do perímetro ficarão fechadas, como também as lojas e os restaurantes. Os soldados inspecionarão os barcos que serão usados pelos atletas. Quatro helicópteros vão monitorar o céu com a ajuda de oficiais treinados em rastreamento e desativação de drones.

Cerca de 45 mil policiais militares e civis se espalharão pela Grande Paris, o que equivale a dez vezes o volume normal. Haverá cem mergulhadores especialistas em bombas inspecionando a água; 650 oficiais das unidades especializadas em antiterrorismo; mais de 700 bombeiros especializados em impedir ataques nucleares e químicos; aproximadamente dois mil seguranças cuidando das áreas de espectadores pagantes; e 2.500 oficiais estrangeiros, incluindo norte-americanos, muitos com cães farejadores de bombas. “Haverá um policial a cada metro quadrado. O trabalho de inteligência e reunião de informações é imenso e abrangente. Sinceramente, acho que vai ser uma festa muito bonita”, disse Ghislain Réty, líder de uma das unidades antiterrorismo do país, formadas depois do ataque terrorista da Olimpíada de Munique, em 1972, quando 11 atletas israelenses foram mortos.

Desde os ataques islamitas letais de 2015, a França infelizmente se acostumou com as ameaças e os soldados With Story: BC-OLYMPICS-PARIS-SECURITY-NYT -- The opening ceremony for this summer’s Paris Games will be held outside a stadium — an Olympics first. Making it safe is complicated, at 5.1 x 1.8 -- cat=I (THE NEW YORK TIMES/Dmitry Kostyukov/The New York Times - 04.04.2024)

As pesquisas sugerem que os parisienses estão divididos em relação aos planos para a cerimônia de abertura. Alguns estão preocupados, mas muitos já se acostumaram a conviver com os alertas e encaram os Jogos apenas como mais um alvo em potencial. Na verdade, a maioria reclama mais do pesadelo da locomoção e da multidão que lotará a cidade. “Não quero ter medo de que aconteça algo para estragar os Jogos, que normalmente é um período bem caótico. Se for assim, você acaba não fazendo nada”, filosofou Jeanne Huyge, de 23 anos, aproveitando o sol do horário de almoço com uma amiga sentada em um dos bancos de frente para o rio em uma tarde recente.

c. 2024 The New York Times Company

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