Hudson cita falta de humanidade em retorno de jogos e diz: 'Estranha essa pressa em voltar no Rio'

Volante do Fluminense concede primeira coletiva após o retorno do clube aos treinamentos e lamenta volta dos jogos do Carioca

Lance

Lance

Lance

Mesmo sendo contra, o Fluminense retornou às atividades presenciais no CT Carlos Castilho e fará a reestreia no Campeonato Carioca no próximo domingo, às 19h, contra o Volta Redonda. Em entrevista coletiva online nesta quarta-feira, o volante Hudson voltou a criticar a retomada das partidas neste momento. O jogo, pela 4ª rodada da Taça Rio, está marcado para o Maracanã, mas o Tricolor não quer atuar no local por entender ser um desrespeito praticar futebol ao lado de um hospital de campanha, construído onde era a pista de atletismo Célio de Barros.

- A cabeça, temos que readaptar e tentar encaixar isso tudo de uma maneira que possamos nos treinos e nos jogos desempenhar em alto nível, como o Fluminense precisa. É lógico que é muito difícil, se pensarmos nas pessoas, estamos jogando futebol, que é o esporte do país, que comove as pessoas, e parece que estamos jogando sem estar acontecendo nada lá fora. O maior exemplo é o Maracanã, que tem um hospital de campanha no complexo. Fazemos um gol e tem uma pessoa morrendo ao lado. É no mínimo estranho, sem humanidade, não pensar no próximo. Muitas coisas só temos noção quando acontece com alguém próximo. Talvez as pessoas que estão responsáveis pelo calendário não estejam pensando com humanidade, mas nos interesses internos. Teremos que superar isso e performar em alto rendimento - afirmou o jogador.

O tema central da entrevista foi o movimento para retorno das partidas. Sobre a "pressa" para que os jogos aconteçam, Hudson citou interesses externos e favorecimentos aos clubes que apoiam a retomada. O Rio de Janeiro é o segundo estado do país com mais casos de COVID-19 e o único Estadual que voltou até o momento.

- Várias pessoas estão deixando de fazer as coisas, mas o futebol precisa voltar com urgência, tem a preparação indevida. Muito estranha essa pressa em voltar no Rio de Janeiro, o segundo mais contaminado do Brasil. Converso com atletas de outros estados e todos entendem que tem que ser uma volta gradual, sem pressa, sem atropelar. Ficamos preocupados, pois entendo que o futebol está voltando por diversos interesses internos e externos, só não vê quem não quer, mas temos que conviver com isso - disse, antes de explicar os "fatores externos".

- Não tem só Flamengo e Vasco. Tem os clubes pequenos também, que sabemos que precisam do futebol. É a oportunidade de jogadores se mostrarem e conseguirem contratos para o segundo semestre. Flamengo e Vasco são grandes equipes, mas poderiam dar o exemplo de um posicionamento, mas vemos alguns favorecimentos acontecendo já na parte externa. Não cabe a mim falar, me preocupo com o futebol em si. Mas tenho uma opinião muito bem formada, mas às vezes prefiro não falar para não polemizar ainda mais o que já vem acontecendo no futebol brasileiro.

Os jogadores do Fluminense foram os únicos a se manifestarem publicamente contra o retorno do futebol. Muitos atletas preferem se abster de uma opinião em entrevistas, mas o elenco tricolor publicou um manifesto criticando a volta apressada em um momento ainda complicado da pandemia.

- Nós temos um grupo entre nós e achamos importantíssimo nos posicionar. Nos preocupando com a parte física, de lesão e preparação. Tenho 32 anos, já passei por muitos clubes e não tinha conhecido um presidente tão transparente com jogadores e torcida, preocupado com o que os atletas pensam. Ele trabalha exclusivamente pelo Flu, não pensa em fatores externos, qualquer manipulação ou favorecimento a terceiros. Nós conseguimos perceber bem. Não conheci um dirigente como o Mário. Compactuo muito da visão dele. O manifesto foi pensado exclusivamente pela questão física, pois seremos cobrados em campo da mesma forma. Nossa preocupação é essa. Em um momento como esse nos sequer temos a possibilidade de uma preparação como um profissional deveria ter - afirmou Hudson.

Veja outras respostas:

Nova paralisação

Acho que é uma questão de lógica e bom senso. Sabendo que os outros estaduais começam em meados de julho, terminando em agosto, e o Carioca podendo terminar com duas ou três semanas antes. Podemos ficar esse mesmo período sem jogos, o que traz falta de ritmo de jogo, atrapalha no padrão de jogo técnico e tático. O time com sequência tem mais tendência de desempenhar melhor o futebol. Ficamos sem entender a pressa tão precoce. No momento em que o Rio atingiu ontem o segundo maior número de mortes no Brasil. O futebol é minha vida e estou louco para voltar, mas poderia esperar um pouco mais.

Físico

Frisamos bem, partiu de nós o manifesto. A preocupação maior possível, claro que com as pessoas que estão morrendo, mas também com a capacidade física, a probabilidade muito maior de se lesionar. No jogo não tem como se poupar, isso exige muito dos atletas, principalmente no futebol de hoje em dia, que é mais físico. Estamos há mais de três meses parados, o corpo ainda está se adaptando a situações que só o treino presencial pode preparar. Lógico que há uma preocupação grande. Na pré-temporada, quando ficamos 30 dias de férias, tivemos várias lesões musculares. Imagina 90 dias e voltar em 10. Isso agora, porque queriam que a gente voltasse antes, vale lembrar. É um desgaste desnecessário. Para que o bom senso prevaleça no que é melhor para todos. Dez dias é pouco.

Protestos no jogo

O protesto em si, o que fazer, ainda não programamos. Claro que a indignação é visível. É cedo para voltar a jogar, mas ainda não temos nenhuma forma. Nosso manifesto foi muito claro para todos entenderem o que se passava na cabeça dos jogadores. Foi uma decisão mais importante dos jogadores de se posicionar e saber o que os atletas pensam. É importante lembrar que é um momento que estamos preocupados nos preparar, ter contato com a bola. O Odair tem muita coisa para passar e nos lembrar. Estamos focados nisso para estar o melhor possível no dia do jogo.

Torcida

O Fluminense está sendo um exemplo, com certeza vai ser lembrado por se posicionar. A torcida, como sempre, está apoiando o clube, compactua das ideias do presidente e dos jogadores. Recebemos mensagens diariamente de incentivo e apoio ao nosso posicionamento, a tudo. Eles têm dado exemplo de abraçar o clube em um momento difícil. Todos estão se esforçando ao máximo para ajudar o clube a honrar os compromissos. É exemplar. Isso nos motiva mais ainda, dá alegria de poder voltar a jogar futebol. É uma torcida que merece o melhor do Fluminense. É por isso que estamos brigando e nós vamos brigar dentro de campo.