Lance Em luta contra tumor e por vaga em Tóquio, Verônica Hipólito impõe meta: 'Resgatar minha essência'

Em luta contra tumor e por vaga em Tóquio, Verônica Hipólito impõe meta: 'Resgatar minha essência'

Velocista, dona de duas medalhas nos Jogos Paralímpicos do Rio, vive turbilhão de emoções e opta por adiar cirurgia na cabeça para tentar realizar o objetivo de ir aos Jogos de Tóquio

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Diante de todos os desafios que a pandemia de Covid-19 trouxe aos atletas na preparação para os Jogos de Tóquio, Verônica Hipólito precisou voltar o foco para sua saúde e tirar o pé do acelerador no momento decisivo da caminhada.

Ela, que aos 24 anos tem no currículo duas medalhas nos Jogos Paralímpicos Rio-2016 (100m e 400m T38), um título mundial nos 200m T38, em 2013, e diversos recordes nas pistas, descobriu a volta de um tumor no cérebro há um mês e meio, e tenta conciliar o tratamento com a obtenção do índice para o evento. A atleta já passou por quatro cirurgias para retirar tumores até hoje.

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A seletiva nacional que vai definir os velocistas classificados para a Paralimpíada está marcada para acontecer entre os dias 8 e 12 de junho, no Centro de Treinamento do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), em São Paulo.

Verônica espera alcançar o objetivo em meio aos cuidados, e admite que impôs um desafio maior do que medalhas, recordes ou índices para lidar com o susto.

- Eu treino para estar em Tóquio e conquistar a medalha de ouro que sempre sonhei tanto. Não saí das camas das cirurgias e não adiei os tratamentos simplesmente por um like no Instagram, mas porque amo correr. É o sonho de todo atleta. Sei que estou dando o meu melhor, e que terá sido um ciclo absurdamente divertido. Acima de qualquer coisa, quero me divertir. A medalha é linda, e o recorde arrepia. Mas corro para resgatar minha essência. Se não tiver isso, não vale a pena - disse Verônica, ao LANCE!, após um evento online do Time Petrobras, do qual ela é um dos destaques.

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Enquanto trabalha na mente as estratégias para obter a qualificação para o Japão, onde sonha com um ouro inédito na classe T37, a paulista de 24 anos estuda, com o apoio dos médicos, se optará por radioterapia ou radiocirurgia.

A avaliação de sua equipe é de que há pontos positivos e negativos em ambos. O primeiro demanda 28 dias seguidos de sessões, enquanto o segundo dura apenas 20 minutos. Na radiocirurgia, uma espécie de coroa é prendida no osso do crânio, o paciente entra em uma máquina de ultrassom e os médicos tentam milimetricamente acabar com o tumor.

- A volta do tumor é um caso absurdamente raro. Já deveria ter feito a cirurgia, mas esperei um pouco mais. Agora, vou ter que iniciar um tratamento. Estamos decidindo qual vai ser. Minha vida e saúde estão acima de tudo. Confio totalmente nos meus médicos. Mas estou como sempre. Ficamos assustados, é claro, mas se eu não acreditar na minha recuperação, quem vai? Foi uma escolha minha continuar treinando. Não sei se vou fazer o índice, mas todos esses dias eu pensei em Paralimpíada - contou a atleta, sem perder o sorriso que é característico.

- O problema está aí. O que fazer diante dele é que vai de cada um - disse.

Como não tem mais uma boa recuperação muscular para distâncias maiores que 100m após anos de medicações e procedimentos invasivos que afetaram sua performance, Verônica não tem treinado para os 200m e os 400m. A queda de rendimento a levou a ser reclassificada da classe T38 para a T37, em 2018. Mas a velocista celebra os pequenos avanços.

- Minha condição física piorou. No fim do ano passado, introduzi alguns hormônios, como o do crescimento, para ajudar na recuperação, pois estava ficando muito machucada. Hoje, estou muito feliz de estar treinando com menos dor, graças às ondas de choque - celebrou.

Verônica espera passar por mais um dos tantos desafios da sua vida. Aos 12 anos, ela descobriu o tumor no cérebro e passou pela primeira cirurgia. Aos 14 anos, sofreu um AVC que paralisou todo o lado direito de seu corpo. Foi a porta de entrada no esporte paralímpico.

As outras operações aconteceram em 2015 e 2017, em meio às conquistas, e o ano de 2018 reservou um tratamento intenso, que foi um baque para a paulista. Mesmo assim, ela surpreendeu nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, em 2019, e voltou para casa com duas pratas, nos 100m e 200m T37.

A força acumulada em anos de desafios na vida profissional e pessoal a levou a tirar do papel o Time Naurú, uma equipe de atletismo de alto rendimento que tem como conceito focar esforços na evolução dos seus atletas, dentro e fora das pistas, oferecendo oportunidades de crescimento constante. O projeto é um de seus orgulhos e uma motivação para continuar a ser um exemplo.

- Quando comecei a ser xingada, achei que não era certo. Não acho justo eu trabalhar tanto pelo movimento esportivo, ver as coisas darem certo para a gente e fecharmos os olhos pros outros. Queremos disponibilizar patrocínio e estrutura a outros atletas, ensiná-los sobre carreira, estarmos juntos. O esporte é muito maior do que uma medalha. Se é gordo, magro, homem, mulher, LGBTQ+, não importa. Melhorou minha vida e quero melhorar a dos outros - afirmou Hipólito.

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