Futebol 'Zombavam de mim na escola', diz goleira campeã brasileira

'Zombavam de mim na escola', diz goleira campeã brasileira

Bruna de Almeida já precisou de um par de luvas de Tiago Volpi para treinar; agora, ela tenta superar perda da irmã para covid-19

  • Futebol | Eugenio Goussinsky, do R7

Bruna perdeu uma irmã para a covid-19

Bruna perdeu uma irmã para a covid-19

Instagram/Bruna de Almeida

Na primeira vez que Bruna de Almeida foi para o gol, ela se assustou. Tinha 12 anos e já jogava futebol simplesmente para fazer atividade física. Na época, o esporte começava a se abrir para as mulheres. Corria o ano de 2002, quando foi realizada a primeira Copa do Mundo Feminina. E neste dia 26, quando é celebrado do Dia do Goleiro, Bruna lembra como conseguiu transformar o susto inicial em paixão.

"Foi tudo muito novo para mim, jogava de zagueira e, quando fui para o gol, foi uma decisão do treinador. Não tinha goleira, na época eu era a mais forte, tinha coragem, não tinha medo de ir na bola e ele pediu para eu ir no gol. Foi um dos dias mais tristes da minha vida, e eu lembro que tomei gol e aí eu chorava, chorava, chorava... Coisa de criança, né?", conta Bruna, 30 anos, atual goleira do Ceará, com um currículo recheado de títulos.

A essa altura da carreira, após ter superado vários obstáculos, ela passou por um baque, ao perder a irmã, Thalita Almeida, 35 anos, que morreu recentemente em decorrência da covid-19. A experiência dolorosa tem sido mais uma mostra de como o ambiente futebolístico pode  ser acolhedor. É nele que Bruna também está encontrando forças para prosseguir.

"Minha irmã era uma mulher maravilhosa, sensacional, deixou para a gente dois presentes, uma menina de dois anos, a Lorena, e o Lucas de 9 anos. É bem complicado passar por isso, nunca imaginei perder uma pessoa tão próxima, tão importante, têm sido dias bem difíceis, muito. Mas acredito que, a cada dia, ela esta me ajudando de certa forma. Toda vez que eu penso nela, me motiva mais para lutar, para continuar vivendo e me motivando. Ela era é sempre vai ser a nossa menina, deixou muitas saudades, mas é uma inspiração", ressaltou.

O começo de tudo

Nascida em Campinas, em 1990, Bruna foi percebendo o futebol como um campo de jogo cheio de alternativas para a sua vida. Assim como a música, a bola se tornou uma paixão, justamente por ela ter entendido que, no jogo, sempre há uma segunda chance.

Entre os 15 e 16 anos, ela foi fazer teste no Rio Branco de Americana. Passou como zagueira, mas, na época, a equipe só tinha uma goleira. Por já ter atuado na função, ainda mais nova, ela nunca deixou de admirar o tipo de treinamento.

"Pensei que, como só tinha uma goleira e várias na linha, teria mais oportunidade como goleira. Meu treinador me indicou para a escola de goleiros do Vânder Batistella, a primeira do Brasil. Comecei a treinar. Só que eu era tão ruim, tão ruim que até a escolinha de goleiros quase não me quis. Com o decorrer do tempo, eles viram que eu tinha muita vontade de treinar, de jogar e aí eu fui melhorando a cada dia, até que a própria escolinha me indicou para a Ferroviária", lembra.

Bruna transportou a descoberta, de que sempre há uma segunda chance, para a sua vida, fazendo dela um antídoto contra a perversidade.

"Sofri na época por causa de depressão, tive depressão infantil e, por conta disso, me escondi atrás de muitas coisas, que me quase me levaram à obesidade. Fiquei muito pesada para a minha idade, tive de passar por uma clínica, sofri muito, é complicado falar dessa parte da minha vida porque as pessoas zombavam de mim na escola, falavam muitas coisas que machucavam muito. Mas hoje eu consegui vencer e sou a atleta que sou. Graças ao futebol, consegui perder peso e ficar bem fisicamente para me tornar uma atleta", disse.

Carreira vitoriosa

A Ferroviária realmente se tornou a estação inicial. Um ponto de partida. A partir dela, Bruna iniciou uma grande viagem, cuja última parada só será daqui a alguns anos, na aposentadoria.

"Por conicidência, meu primeiro jogo como atleta foi contra a Ferroviária. Então a Ferroviária, no final de 2008, começou a me analisar e, no ano seguinte, fui para Araraquara. Fiquei oito anos no clube. Hoje o futebol é minha vida, na época eu não sabia que eu queria ser goleira. Foi uma coisa que aconteceu com o tempo. Na verdade, a minha vontade era de cantar, de compor, o futebol era um escape, um hobby, e hoje se tornou meu trabalho, aquilo que eu amo fazer", revelou.

Desde então, o envolvimento só cresceu. Foram títulos e uma série de equipes. Da Ferroviária, ela passou por Osasco Audax (duas vezes), São José, Tiradentes (PI), Portuguesa, Vitória das Tabocas e Real Ariquemes (RO), antes de chegar ao Ceará. Bruna conquistou vários títulos: Campeonato Paulista (2013); Copa do Brasil (2014); Campeonato Brasileiro (2014); Libertadores da América (2015) e Campeonato Rondoniense (2020).

As mudanças de cidade incomodaram a família, mas, mesmo assim, Bruna resistiu em busca de sua realização.

Convicta do que queria, ela teve forças para lidar com as resistências da sociedade, por ser uma mulher que joga futebol. Ainda mais na posição de goleira, a mais vulnerável, a mais suscetível a críticas.

"Só pelo fato de ser mulher e querer jogar futebol, as coisas se tornam mais difíceis. Mas nos últimos doze anos vejo que o futebol feminino tem crescido, tido uma visibilidade maior. Mesmo assim, ainda muitas coisas precisam melhorar, pela igualdade da mulher com o homem, porque é muito distante mesmo. Falo mais na questão da valorização, porque na questão de treinamentos fazemos a mesma coisa, a gente treina da mesma forma, joga da mesma forma, é mais a questão da igualdade social", acrescentou.

Mesmo profissionalizada, Bruna ainda continuava a superar resistências.

"Como goleira, a maior dificuldade que tive de enfrentar na verdade foi por conta da minha altura. Quando eu entrava nos estádios, as pessoas não me conheciam e me chamavam de pequena, diziam que podiam jogar a bola que eu aceitava. Mas isso se tornou motivação. Claro que machucava, mas fui me calejando. Quem me conduziu para ser goleira foi Deus, então o que as pessoas falavam passou a não me importar", conta.

Novas gerações

Com o tempo, a experiência foi lhe mostrando que, além de suas próprias conquistas, sua realização era ver o surgimento de novas gerações de meninas.

"Penso que podemos fazer nossa profissão crescer cada vez mais, que essa posição seja valorizada a cada dia, porque é uma das posições mais gostosas que existem no futebol. Mas é uma das mais difíceis. Tenho visto meninas tão pequenas, tão novas e já sendo craques e dando um show de futebol, com oportunidades que eu nunca tive e fico feliz, porque é um crescimento generalizado", comenta.

No rosto e no salto de cada uma dessas meninas, Bruna vê a continuidade de um caminho que ela abriu com todas as dificuldades.

"Vejo elas disputando jogos incríveis, de Mundial, e penso que eu tive a oportunidade de ajudar, incentivar. Espero que elas cresçam cada vez mais e que se pare com essa bobagem de que mulher não joga futebol. Cada mulher nasce para ser o que ela quer ser, não para ser o que querem que ela seja. Espero que as goleiras de todo o mundo sejam valorizadas a cada dia e que possamos mostrar que aquilo que amamos fazer é a nossa essência, aquilo que somos".

Em seus anos de Ferroviária, em 2014, Bruna certa vez enviou uma mensagem humilde para Tiago Volpi, então goleiro do Figueirense, após um jogo em Araraquara.

"Olá, sou goleira da Ferroviaria, no jogo contra o Palmeiras você me deu sua luva e eu queria te agradecer, porque eu estava sem luva para treinar e fiquei muito feliz por Deus ter me dado a honra de te conhecer e na hora certa tem me presenteado com sua luva, que veio na hora certa e ela tem me ajudado muito nos treinos, mesmo ela sendo maior que minha mão, obrigado", escreveu Bruna, no post.

Tiago respondeu em seguida.

"Oi Bruna. Fico feliz em ter te ajudado de alguma forma, sucesso pra vc! abs".

Essa história mostra que o Dia do Goleiro é também o Dia da Goleira. E vice-versa. Homens e mulheres, revelações e consagrados, caminham juntos na sociedade. As luvas, afinal, são as mesmas.

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