Vadão revelou dois brasileiros melhores jogadores do mundo

Treinador trabalhava com simplicidade e, com muito senso de observação, soube detectar o talento de Rivaldo e Kaká no início da carreira deles

Vadão teve longa carreira como treinador

Vadão teve longa carreira como treinador

Agência Estado

A simplicidade interiorana. O riso dócil, a fala mansa. Era calmo até para fazer brincadeiras. Com esse estilo, Oswaldo Alvarez, o Vadão, que morreu nesta segunda-feira, (25) aos 63 anos, conseguia unir elencos e, mais do que isso, ter tranquilidade para observá-los.

Passava horas à beira do campo, em silêncio, só contemplando a movimentação e buscando a prudência na tomada de decisões. Foi assim, com esse caminhar cuidadoso mas determinado, que Vadão conseguia detectar talentos.

Ele entrou, em sua longa carreira, na rara lista de treinadores que conseguiram descobrir dois craques que seriam os melhores jogadores do mundo, pela Fifa: Rivaldo e Kaká.

Nascido em 21 de agosto de 1956 na cidade de Monte Azul Paulista (SP), Vadão viveu a infância ligado no futebol. E começou como jogador, tendo sido revelado no Guarani, onde atuou desde as categorias de base.

Canhoto, tinha o estilo de um jogador inteligente taticamente e logo percebeu que seu maior talento mesmo era relacionado à estratégia.

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Na ocasião, o ex-técnico Candinho, também iniciava a carreira como treinador e se lembra de ter enfrentado o Guarani com Vadão atuando na meia.

"Lembro de tê-lo enfrentado, eu estava iniciando como técnico. Depois, ele despontou também como treinador, com um futebol moderno, fazendo do Mogi Mirim um time difícil de enfrentar. Era uma novidade na época, mais ou menos como o Fernando Diniz é visto agora", lembra o ex-treinador.

Vadão abandonou cedo a carreira de jogador para ser auxiliar técnico da Portuguesa. Em 1992 se tornou treinador do Mogi Mirim e revolucionou com um ousado esquema 3-5-2, formado pelo trio ofensivo Leto, Válber e Rivaldo. Inovou justamente a tática tão criticada naquela época, já que Sebastião Lazaroni a tinha utilizado, de outra maneira, na Copa do Mundo de 1990, sem sucesso. A seleção brasileira ficou muito defensiva.

Vadão, no entanto, mostrou que, mais do que os números, é a postura da equipe que conta. E, mesmo diante de adversários mais tradicionais, o Mogi Mirim se impunha. De tão entrosado, o esquema passou a ser chamado de "Carrossel Caipira".

Nele, floresceu o talento de Rivaldo, um pernambucano recém-chegado ao futebol paulista, que despontou graças à visão que Vadão teve em colocá-lo próximo da meia-esquerda, bem posicionado para criar e ao mesmo tempo finalizar.

Rivaldo, no Twitter, reconheceu a importância do técnico em sua carreira.

"O futebol brasileiro perde um grande profissional e grande homem que me ajudou muito no início da minha carreira. Eu aprendi bastante com ele. Que Deus conforte os familiares neste momento tão difícil", declarou.

A passagem pelo Mogi Mirim deu um impulso à sua carreira, fazendo com que ele construísse uma trajetória vitoriosa, passando por equipes como Athletico Paranaense, Guarani, Ponte Preta, Corinthians, São Paulo, Portuguesa, São Caetano, Criciúma, Bahia, Goiás, Sport e Verdy Tóquio. Nos últimos anos, ele comandou a seleção brasileira feminina, em duas Copas do Mundo.

Ele se identificava muito com os clubes de Campinas, tendo quatro passagens pela Ponte Preta e cinco pelo Guarani. Nunca perdeu um clássico para um rival campineiro e passou a ser por isso conhecido como Sr. Dérbi.

Mas foi no São Paulo, em 2000, que ele revelou outro craque do futebol brasileiro. Lançou, em um São Paulo e Santos, o jovem Kaká, que marcou um gol naquela vitória por 3 a 1 no Morumbi e, mesmo reserva nas categorias de base, subiu para o profissional e logo se tornou a estrela do time.

Kaká, no Instagram, também mostrou emoção ao descrever o técnico que o lançou.

"Minha eterna gratidão por você ter aberto as portas pra um garoto que ninguém conhecia e poucos acreditavam. Mas você acreditou, me ensinou, me deu oportunidades pra que eu pudesse voar. Hoje o dia é de muita tristeza, mas as lembranças que guardo no meu coração são de muitas alegrias!!! Descanse em paz meu amigo", declarou.

E nesta trajetória, homem e treinador acabam se misturando. Vadão partiu com seus conceitos e sua intuição. Com generosidade, soube plantar talentos. E colher, mais do que as conquistas deles, a eterna gratidão. De quem foi reconhecido. E soube reconhecer.

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