Futebol Saiba por que a Europa perdeu o medo do futebol brasileiro

Saiba por que a Europa perdeu o medo do futebol brasileiro

Há alguns anos, clubes brasileiros jogavam e venciam os grandes europeus; hoje a situação é outra, entenda o que houve

  • Futebol | Eugenio Goussinsky, do R7

Futebol europeu surpreende com belas jogadas

Futebol europeu surpreende com belas jogadas

Peter Powell/EFE/03-06-17

Desde que o Santos perdeu a final do Mundial Interclubes para o Barcelona, por 4 a 0, em 2011, uma nova realidade se fez presente no futebol brasileiro. Nos tempos em que não havia tanto intercâmbio, qualquer torcedor de clube brasileiro sonhava em enfrentar algum europeu, com a certeza e a ansiedade, de mostrar que, na prática, iria ver seu clube superar o adversário, desfazendo em campo qualquer imagem de superioridade europeia.

Foi assim, por exemplo, quando o Santos superou os temidos Benfica e Milan, no anos 60. E quando, nos anos 80, o Flamengo nem tomou conhecimento do Liverpool, que antes do jogo achou que iria ganhar fácil. Ou quando o São Paulo bateu o Barcelona e o Milan, que também entraram cheios de si. O futebol, neste sentido, se tornou uma fonte de orgulho nacional. Mesmo quando um aguerrido Corinthians bateu o Chelsea, em 2012, os papéis de favorito e azarão estavam bem definidos.

Então vieram os tempos de globalização, os altos investimentos de fundos nos clubes, o crescimento vertiginoso dos patrocínios, das cifras e dos salários, que fizeram o futebol europeu dar um salto de qualidade em relação ao futebol brasileiro. Também a Lei Bosman, que acabou com o passe na Europa, e a União Europeia, que tirou o limite de estrangeiros europeus, ajudaram a transformar os clubes europeus em verdadeiras seleções mundiais.

Atualmente, as melhores equipes brasileiras têm uma dificuldade imensa de jogar contra um grande europeu, dando, em certos momentos, a mesma impressão que passa uma equipe brasileira de basquete diante dos profissionais da NBA. Tal situação se tornou uma ferida no orgulho nacional. A Europa já não se surpreende. Ela, à sua maneira, agora é quem surpreende.

Veja alguns dos motivos que levaram a este novo contexto. E como os europeus veem o atual futebol brasileiro, antes o mais respeitado do mundo.

A Europa ainda teme o Brasil?

O primeiro reflexo desta situação é que o interesse dos europeus pelo futebol do único país pentacampeão mundial já não é o mesmo, conforme afirma Joshua Law, jornalista inglês que escreve para revistas como a Forbes e a Planet Football.

"O melhor exemplo que posso pensar para demonstrar a percepção do futebol brasileiro é o tipo de notícias e vídeos do Brasil que interessam ao público europeu, que são episódios de violência ou alguma ocorrência bizarra. Há pouco interesse no futebol em si, a menos que haja um jovem jogador promissor vinculado a um grande clube europeu envolvido", constata.

Até mesmo o Campeonato Brasileiro, que teoricamente é disputado por pelo menos 10 clubes considerados grandes, desperta pouca atenção na Europa.

"No que diz respeito ao futebol de clubes nacionais, os europeus geralmente não veem o Brasileirão como uma liga forte, se é que sabem alguma coisa sobre ele. Se é forte ou não é outra questão, mas isso, eu diria, é a percepção geral. Quanto à seleção, não acho que seja tão temida como antes, mas as pessoas ainda têm respeito pela equipe; nenhum gestor nacional europeu os consideraria levianamente", observa.

Santos x Barcelona, no Mundial 2011, marcou nova realidade do futebol brasileiro

Santos x Barcelona, no Mundial 2011, marcou nova realidade do futebol brasileiro

Kimimasa Mayama/EFE - 18/12/2011

Andrew Downie, jornalista escocês que atua há 19 anos como correspondente de várias publicações no Brasil, também considera que os clubes europeus já não têm medo dos brasileiros como em outras épocas.

"O futebol brasileiro sempre será respeitado porque o Brasil ainda produz muitos jogadores de primeira classe. Todas as principais seleções da Europa têm brasileiros em suas fileiras. Além disso, o Brasil ainda é o único país a vencer cinco Copas do Mundo. No entanto, a lacuna entre a seleção e as melhores equipes de outros lugares diminuiu. Não acho que os times temem o Brasil como antes. Houve um tempo em que a Bélgica teria temido o Brasil, mas como vimos na Rússia em 2018, esse não era mais o caso", afirma.

O suíço Marc Kowalsky, sub-editor da revista Bilanz, da Suíça, especializada em negócios, considera que a história do futebol brasileiro ainda é respeitada.

"Ainda há respeito pelas conquistas históricas do futebol brasileiro e pela habilidade técnica de muitos jogadores brasileiros. Nunca houve medo", diz.

Causas da disparidade

Law enumera uma série de causas para essa grande diferença no estágio de do futebol brasileiro, em relação ao europeu.

"Há uma enorme confluência de fatores. As ligas europeias capitalizaram muito mais rapidamente as receitas que podem ser geradas pelos mercados televisivos nacionais e internacionais, o que lhes conferiu uma vantagem financeira considerável, permitindo-lhes contratar os melhores jogadores, melhorar a qualidade do futebol e gerar mais interesse, maiores audiências e mais dinheiro como resultado", afirma.

E completa.

"Existem também as questões organizacionais com o futebol brasileiro: clubes que estão atolados em dívidas; um corpo governante que teve uma série de líderes corruptos; o poder que permanece nas mãos das federações estaduais de futebol; a mansidão dos diretores de clube em desafiar o status quo. Eu não acho que você pode resumir isso a uma coisa. As questões em campo - como a falta de inovação tática, por exemplo - acho que são mais sintomas de problemas estruturais mais profundos do que causas em si mesmas."

Na visão de Downie, autor do livro "Doctor Sócrates - Footballer, Philosopher, Legend", sobre um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, a Europa neste momento tem uma abertura maior e se tornou uma espécie de antena de todo o futebol no mundo.

"A grande diferença é que a Europa está muito mais aberta a influências externas do que o Brasil. As equipes europeias têm jogadores e treinadores de todo o mundo. O Brasil não. Isso significa que a Europa aprende muito com a América do Sul, Ásia, África, etc., mas a América do Sul não aprende muito com a Europa", diz.

Já Kowalsky vê no poderio financeiro um aspecto fundamental para o fortalecimento do futebol europeu.

"Os melhores clubes do mundo (e também os mais ricos) estão na Europa, os melhores jogadores do mundo (também do Brasil - ver Neymar) jogam na Europa, a última vez que uma seleção não europeia venceu a Copa do Mundo foi há quase 20 anos. Isso responde sua pergunta?"

O futebol brasileiro poderá retomar seu poderio?

Tal possibilidade é remota, segundo Law.

"É possível, mas não tenho certeza se é provável. E, honestamente, não posso afirmar ter todas as soluções para os problemas do futebol brasileiro. Reduzir o número de jogos pode ser um bom ponto de partida, como talvez fosse uma revisão da CBF e uma reestruturação dos poderes de voto dentro dela. Pessoalmente, gostaria também de ver o direito de voto nas eleições presidenciais de clubes em todos os clubes estendido a todos os 'sócio torcedores' ou membros de torcedores, como é o caso do EC Bahia, ao invés de ser restrito aos membros do 'clube social'. Se alguma dessas mudanças seria uma bala de prata, eu duvido. Existem pessoas mais qualificadas do que eu para sugerir mudanças positivas e impactantes."

Downie vê na questão orçamentária e na organização alguns empecilhos.

"O Brasil continuará a produzir grandes jogadores, com as mesmas habilidades incríveis pelas quais os brasileiros são famosos. O Brasil é um país grande, então ainda produz bons jogadores em grande número, talvez mais do que qualquer outra nação. O problema é que a) outros países também podem produzir jogadores bons e habilidosos, taticamente mais astutos, e b) que os clubes e seleções europeus são mais organizados do que o Brasil, em todos os sentidos. Internamente, é quase impossível para a Série A ser tão boa quanto a Premier League, La Liga ou Bundesliga. O abismo de riqueza agora é enorme." ressalta.

Conforme diz Downie, os jogadores brasileiros ainda são os mais procurados no mundo. Um relatório do CIES (Centro Internacional de Estudos Esportivos) apontou que, em 2019, em 137 ligas de 93 associações nacionais pelo mundo, de um total de 12.051 jogadores estrangeiros oriundos de 174 associações nacionais, em 2.120 clubes, os brasileiros são os mais numerosos no exterior (1.202 jogadores), à frente dos franceses (781) e dos argentinos (753).

Mas a formação de craques não tem fortalecido o esporte no país. A grande maioria quase não atua pelos clubes que os revelaram e logo se transfere, por cifras milionárias, para clubes europeus.

Kowalsky, por sua vez, cita o 7 a 1 contra a Alemanha, na derrota nas semifinais da Copa do Mundo de 2014, como uma espécie de divisor de águas. Que ao mesmo tempo retratava uma nova realidade.

"O futebol brasileiro perdeu muito de sua reputação de marca registrada desde o 7 a 1 devastador contra a Alemanha em seu próprio solo em 2014 e nunca se recuperou disso."

A Europa se satisfaz com a superioridade sobre o Brasil?

Há uma tese de que tal situação sempre foi objetivo do futebol europeu, que, segundo tal visão, nunca aceitou ver um país sul-americano manter a soberania no mais popular esporte do planeta.

Law, porém, é um representante de outra ala: a dos admiradores do futebol brasileiro, assim como o próprio treinador Josep Guardiola, que nunca escondeu ter como referência a seleção brasileira de 1982.

"Falando por mim, gostaria muito de ver o futebol nacional brasileiro atingir todo o seu potencial. O Brasileirão pode e deve ser uma liga fantástica e emocionante, cheia de grandes clubes e jogadores excepcionais. Quanto aos torcedores europeus em geral, não tenho certeza se eles se importam muito com o futebol doméstico brasileiro, para ser franco. Acho que as pessoas ficariam felizes em ver uma seleção que jogou um futebol hipnotizante novamente, pela nostalgia e romance que está associado à seleção nacional."

A pergunta que fica é "quem sabe?" Mas a única certeza é que, para que isso um dia se concretize, muita coisa, mas muita coisa, precisa ser feita.

Gênios! Confira melhores camisas 10 do futebol brasileiro no século 21

Últimas