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BRASILEIRO 2022
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Rafael Henzel: 'Troquei quatro vezes de lugar no avião da Chapecoense'

Sobrevivente do Voo 2933 da LaMia detalhou como é sua "nova vida"

Futebol|Dado Abreu, do R7

Henzel: "Cicatrizes são marcas do milagre"
Henzel: "Cicatrizes são marcas do milagre" Henzel: "Cicatrizes são marcas do milagre"

Pouco mais de quatro horas de voo separam Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, do aeroporto de Rionegro, localizado a quarenta minutos de Medellín, na Colômbia. Antes do embarque no Voo 2933 da LaMia, o jornalista Rafael Henzel e alguns outros passageiros aproveitaram a breve escala em solo boliviano para descer da aeronave e esticar as pernas por alguns instantes. A ansiedade tomava conta de todos e era natural. No dia seguinte, em 30 de novembro de 2016, a Chapecoense disputaria a sua Copa do Mundo na decisão da Sul-Americana contra o Atlético Nacional, no Estádio Atanásio Girardot.

"Fiz uma selfie com o jato ao fundo, personalizado com o emblema da Chapecoense, por achar interessante as plotagens que a empresa fazia com o símbolo das equipes que contratavam o seu serviço", conta Henzel no livro Viva Como se Estivesse de Partida (Ed. Principium), um relato otimista e emocionante do jornalista que sobreviveu à tragédia que tiraria a vida de 71 pessoas.

Durante o voo, Rafael Henzel tentou pegar no sono, mas a inquietude não lhe permitiu. Buscou então se distrair proseando com amigos e companheiros de trabalho. Trocou quatro vezes de assento. O seu destino o colocou ao lado do colega Renan Agnolin, repórter da Rádio Oeste Capital, que o "proibiu" de se sentar no canto, na última fileira, porque Lionel Messi tinha se acomodado ali em uma viagem que a seleção argentina fizera semanas antes no mesmo avião da LaMia. Henzel, então, escolheu o meio. Ou melhor, foi obrigado pelo destino a sentar-se naquela poltrona.

Algumas horas de voo depois as conversas entre os passageiros silenciaram, assim como os motores da aeronave. Luzes se apagaram e os sinais de emergência acenderam. Uma pane seca fez com que o avião da Chapecoense se chocasse com um morro próximo ao aeroporto de Medellín. Dos 77 tripulantes a bordo, seis sobreviveram. Entre eles o simpático jornalista, que desde então busca palavras e formas para expressar seu eterno agradecimento.

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"Eu quero espalhar gratidão, seja aqui, seja na Colômbia, seja em qualquer lugar. As pessoas precisam saber que eu sou muito grato a todos. A gratidão é um dos sentimentos mais bonitos. Eu quero agradecer muito. Não me importo com as cicatrizes no rosto. Para mim elas são a marca de um milagre", comemorou Rafael Henzel, que recebeu o R7 para uma entrevista exclusiva.

R7: Você usa a palavra "milagre" para explicar a existência de sobreviventes. Sente que tem uma missão depois de tudo?

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Henzel: Acho que a missão ainda não me apareceu. Mas, para muitos a minha história, e dos demais sobreviventes, faz com que as pessoas se inspirem. Sofremos um acidente aéreo, na maior tragédia do esporte mundial, mas estamos aqui. E não desistimos, continuamos tocando o barco. Vejo que as pessoas acreditam no que eu falo e também querem acreditar no que eu faço. Por isso querem tirar fotos, dar um abraço, trocar algumas palavras. Então essa gentileza me dá uma grande responsabilidade.

Imagino também uma força psicológica muito grande nesta sua retomada.

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Sim. Acredito nessa crença do poder, de conseguir voltar a ter uma vida normal depois de dois pulmões perfurados, sete costelas quebradas e uma grave pneumonia. Então, esse é o foco, essa é a missão: mostrar para as pessoas que nada é impossível. A morte não tem solução, mas para todo o resto tem. Você perdeu o emprego? Encara, logo você vai arrumar outro. Terminou sua relação amorosa? Calma, o mundo não acaba, não é o fim e nem nunca será. Nunca. O fim é somente a morte.

Durante a recuperação no hospital em Medellín você precisou demonstrar uma disposição de atleta para superar os desafios. Como foi isso?

Eu tive que decidir entre viver um luto eterno ou retomar a minha vida. E aí foi que eu tracei a meta de voltar ao trabalho 40 dias depois do acidente. Dia 9 de janeiro eu deveria estar na Rádio Oeste. Esta era aminha meta. Sabe, tem vida nessa tragédia. Dos 77 que embarcaram, seis sobreviveram. Portanto, é preciso comemorar. Claro, é necessário chorar pelos que se foram, mas também comemorar porque nem todos partiram. Logo que eu consegui pensar nisso eu virei a chave.

E o que você fez depois de "virar a chave"?

Passei a deixar o quarto do hospital mais iluminado, entrar mais luz, a ouvir músicas animadas. Comecei a me relacionar mais diretamente com as pessoas. E foi então que minha nova vida cresceu. Gradativamente, eu entendi que a minha recuperação exigia tempo e calma. Não tive mais nenhum revés a partir disso, me recuperei, não precisei fazer nenhuma cirurgia nas costelas, que se recuperaram sozinhas, a pneumonia foi embora. Tudo isso me motivou. Eu sabia que tinha que dar o primeiro passo.

Uma pessoa, em especial, foi muito importante para você neste momento: Dr. Juan. Pode nos falar um pouco sobre ele?

Não tenho palavras. Foi ele quem deu a primeira mão. Ele recebeu a minha esposa, Jussara, e meu primo, Roger, que me acompanharam durante o tratamento em Medellín, em sua casa. Cada um ficou em um dos quartos dos filhos do Dr. Juan, que foram dormir no sofá. São 7 mil quilômetros de distância entre as nossas histórias, não tínhamos nenhuma relação, não nos conhecíamos, nada, apenas um laço humanitário que foi espetacular. Entende o porquê de toda essa gratidão? Eu quero espalhar gratidão, seja aqui, seja na Colômbia, seja em qualquer lugar. As pessoas precisam saber que eu sou muito grato a todos.

No seu livro a questão do "tempo" é extremamente presente. O acidente mudou a sua relação com o instante das coisas?

Jamais havia tido noção do que é o tempo. O período em que eu passei internado no hospital me ensinou a ter tranquilidade e calma, saber que tudo se resolve com o tempo. Hoje eu uso meu tempo com as coisas que me dão prazer. Seja com a família, com os amigos, em um estádio de futebol. Mas o instante ainda é muito difícil. Por exemplo: tive momentos muito felizes naquele avião, e depois, ao contrário, extremamente tristes com a perda dos meus colegas.

Em Medellín, com a camisa do Atlético Nacional
Em Medellín, com a camisa do Atlético Nacional Em Medellín, com a camisa do Atlético Nacional

E como foi o seu tempo de recuperação?

Graças a Deus eu fiquei muito pouco tempo no hospital: foram 15 dias na Colômbia e mais 7 em Chapecó. No 22º dia eu estava na minha casa e no 40º no trabalho. O tempo foi muito importante para mim, mas principalmente porque eu não deixei a minha cabeça parar. Eu fiz planos na minha vida e felizmente eles aconteceram. Voltar a trabalhar, a fazer as coisas tão simples como eu fazia antes, como jogar futebol com os amigos. Hoje eu aproveito muito bem o tempo com as coisas que me dão prazer.

Você conta que aprendeu a força de um abraço após o acidente, que antes não tinha o costume de tocar as pessoas.

Eu devo um abraço para cada pessoa que orou pela gente. Essa vibração foi muito forte, tanto que seis vítimas sobreviveram. Milhões de pessoas dedicaram as suas orações e naquele momento era o que eu precisava para minha recuperação. Quanto tempo um sujeito precisa para aprender que é bom dar um abraço? Foi uma mudança na minha vida, eu nunca tive aquele abraço cotidiano, pois isso não era praxe na minha família, na infância. Mas hoje as pessoas me olham e querem se aproximar. Que bom. Pode chegar. O que importa é o carinho.

Henzel, como foi o seu contato com as famílias das vítimas?

Todos os familiares que eu encontrei eu tentei explicar o que vi. Por vezes andando de carro, nas ruas de Chapecó, minha esposa chamava a pessoa para conversar, já que eu não podia caminhar, e eu sempre dizia e ressalto: não teve desespero! Sou uma vítima que sobreviveu e sei o que aconteceu. Não tinha ninguém de pé, as pessoas, obviamente, perguntavam o que estava acontecendo, mas não teve ninguém desesperado. Não caíram máscaras de oxigênio, não teve turbulência, nada. Eu fiz questão de contar isso para os familiares, para evitar outras informações. Porque dói muito pensar que seus familiares sofreram antes da morte. Costumo dizer que a única diferença entre eu e as vítimas fatais é que eu acordei. Vivemos aquele momento do acidente da mesma maneira, todos dormimos, mas apenas eu e outros cinco acordamos.

O piloto Miguel Quiroga é uma das vítimas e apontado como um dos responsáveis pelo acidente. Como imaginar a dor desta família, que além de perder o ente querido tem que lidar com acusações?

Certa vez, em uma entrevista para uma televisão boliviana, eu pedi para que não transferissem o ódio para a família. Ele tinha dois filhos pequenos, enfim. Na nossa vida a gente toma muitas decisões equivocadas, só que ele tinha a vida de 76 pessoas, além da dele, nas mãos, e transformou a exceção numa regra. Este foi o problema. Ele viajou, uma, duas, três vezes no limite do combustível e viu que dava. Até que houve um problema. A exceção não pode virar regra nunca. Regra é regra.

Você guarda algum tipo de rancor por isso?

Eu não posso ter rancor, não fiquei vivo para ter raiva. Mas eu entendo qualquer sentimento diferente, porque as pessoas perderam aqueles que amavam por conta de uma irresponsabilidade e os familiares são tão vítimas quanto nós. Com o final da investigação nós saberemos se o piloto pediu prioridade para o pouso mais cedo do que deram. Também é preciso punir quem autorizou o voo, quem aprovou um plano de voo com o mesmo tempo de autonomia da aeronave. As pessoas vão pagar. Mas eu repito: não posso ter rancor.

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E sonho, você tem?

Não. Eu só quero viver minha vida tranquilamente e torcer para todas as famílias que sofreram tenham o seu apoio financeiro, jurídico e emocional. É a única coisa que eu peço. Meu único sonho é continuar fazendo o que eu gosto e o que sempre gostei de fazer.

Quando você fala da Chapecoense você usa a terceira pessoa do plural: nós. Por quê?

É na terceira pessoa porque eu também vivo na cidade, a Chapecoense é nosso único time. Nós iríamos para a decisão, estávamos extremamente felizes com a vaga na final da Copa Sul-Americana e nós jogaríamos a “nossa Copa do Mundo”.

Essa relação vem desde quando?

Sempre, desde molecote. Saía da escola e não tinha dinheiro para pagar o ingresso, então esperava no portão do estádio até os 15 minutos de jogo para poder entrar de graça. Assim eu fui criando minha paixão por time muito pobre, e que de repente foi crescendo até chegar onde chegou, na Série A do Campeonato Brasileiro e na final de um torneio internacional. Por isso que eu falo “nós”. Não estou, de forma alguma, tendo esse pertencimento da Chapecoense, mas ela faz parte da minha vida. Hoje ela está aqui bem pertinho do meu coração. Nós nascemos juntos em novembro de 2016. [Neste momento, Rafael Henzel tira do peito uma medalha com o escudo do clube e beija emocionado o amuleto].

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