Pacaembu será entregue à empresa, mas eleição repõe Santos na disputa

Concessão do estádio interessa aos candidatos à presidência do clube

Pacaembu e gastos do estádio serão repassados à iniciativa privada
Pacaembu e gastos do estádio serão repassados à iniciativa privada Wikimedia Commons

Da praça Charles Miller, já dá para sentir o cheiro de história do estádio. Autêntico patrimônio da cidade e do futebol, o Paulo Machado de Carvalho está prestes a receber um escudo e um dono, sendo repassado à iniciativa privada.

Incluído no plano de privatizações do prefeito João Doria, "o meu, o seu, o nosso Pacaembu", como sempre faz questão de lembrar o carismático locutor Edson Sorriso, não rende propriamente lucro à cidade: o investimento para mantê-lo vivo beira os R$ 9 milhões mensais.

Segundo dados enviados ao R7 pela Prefeitura de São Paulo, esse custo engloba os equipamentos disponíveis, como: campo de futebol, piscina olímpica, ginásio poliesportivo, ginásio de saibro coberto para tênis, quadra externa de tênis, quadra externa para futsal e vôlei, três pistas de Cooper e duas salas de ginástica e atividade física em geral.

Na tentativa de compensação, a receita por ano não passa dos R$ 2 milhões.

Preço do patrimônio histórico

De acordo com a Viva Pacaembu, associação de moradores do bairro, o estádio recebeu, em 2017, 38 jogos, divididos entre campeonatos como Copa São Paulo, Paulista, Brasileiro, Taça Cidade de São Paulo e partidas de rúgbi. O maior público do local foi em 28 de outubro, quando o São Paulo venceu o Santos pelo Brasileirão.

Na ocasião, 40.004 pessoas foram ao estádio — 34.461 destas pagaram ingresso. Com entradas a preços promocionais, a renda bruta foi de R$ 954.807,00 — 12% do valor é repassado à Prefeitura, além de R$ 71,9 mil, por ser um jogo realizado à tarde (no período da noite, o repasse é de 15%, segundo publicado em Diário Oficial, mais R$ 89,9 mil). 

Santos e Ponte fizeram jogo mais lucrativo do Paca
Santos e Ponte fizeram jogo mais lucrativo do Paca Flávio Florido/Estadão Conteúdo - 17.6.2017

Ainda nas quartas de final do Paulistão, Santos e Ponte Preta duelaram por uma vaga à próxima fase diante de 37.145 pessoas, das quais 33.236 compraram seus ingressos. Neste jogo, recebeu-se a maior quantidade de dinheiro em um evento no estádio neste ano: R$ 1.515.650,00. A Prefeitura arrecadou R$ 317.247,50 com a partida noturna.

A gestão Doria iniciou o primeiro ano de mandato com a missão de abrir uma concessão para que o monumento da década de 1940 continuasse sob domínio da Prefeitura, mas com todas as despesas e manutenções assumidas pela iniciativa privada.

“O Pacaembu vai ter uma concessão que vai variar de 10 a 15 anos, dependendo da modelagem. O museu continua ali, o estádio vai ser utilizado apenas para futebol e outras práticas esportivas, não teremos concessões para outras manifestações que não sejam do esporte. Ele será melhorado com investimento privado em suas condições de segurança, acessibilidade, conforto", explicou o prefeito ao R7

Além do 'estádio setentão' propriamente dito, com todos os atrasos de infraestrutura, o parque e a área poliesportiva, que ficam atrás do campo, também serão concessionadas. Segundo o próprio prefeito, apenas aulas à parte serão cobradas no espaço. A praça Charles Miller e o Museu do Futebol, que já é de domínio privado, não estão incluídos.

Para fazer a concessão, foi necessária a aprovação do Legislativo. O projeto já foi sancionado pela Câmara de Vereadores em agosto e, agora, a Prefeitura recebe as propostas de estudo das empresas interessadas no projeto.

No meio deste ano, foi lançado um PMI (Procedimento de Manifestação de Interesses) — as empresas puderam apresentar propostas e estudos preliminares de arquitetura, do que pretendem fazer no Pacamebu. Esse estudo foi submetido ao Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico), uma vez que trata-se de um local tombado, para que o conselho pudesse averiguar se as mudanças sugeridas podem ser executadas com base nas regras de tombamento.

“Recebemos estudos de cinco empresas interessadas, quatro foram aprovados. Com a análise dos documentos, habilitamos as empresas para que pudessem fazer estudos completos para a modelagem de concessão do estádio. Os quatro grupos têm 60 dias para entregar estudos de modelagem econômica, financeira, jurídica e de arquitetura”, explicou a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo.

Casa nova

Não foram apenas empresas privadas que manifestaram o interesse no Pacaembu. Os candidatos à presidência do Santos conversaram com o R7 e expuseram suas propostas, caso sejam eleitos na disputa que vai acontecer no sábado (9). Exceto o atual presidente, Modesto Roma Júnior, todos os outros candidatos incluíram o estádio Paulo Machado de Carvalho em suas propostas.

Nabil quer 100% dos jogos do Santos no Pacaembu
Nabil quer 100% dos jogos do Santos no Pacaembu Renato Atalaia/Divulgação/O Santos Que Queremos

Para Andrés Rueda Garcia, o Pacaembu precisa do Santos. A ideia do candidato é dividir os jogos do clube entre Vila Belmiro e Pacaembu. Já José Carlos Peres afirmou que pretende ficar em contato com todas as empresas do edital, uma vez que o lado esportivo da concessão é o Santos quem vai ceder. O último candidato antes do atual presidente, Nabil Khaznadar, apresentou uma proposta mais radical: 100% dos jogos do Santos no Pacaembu. Procurado pelo R7, Modesto Roma Júnior se recusou a falar.

Veja abaixo as propostas completas dos candidatos:

Casa nova

Não foi o Santos o único time a demonstrar interesse pelo Pacaembu. Antes da construção do Itaquerão, em 2011, o Corinthians sonhava com a 'casa própria'. A torcida, mais ainda.

“Eu conheci o Pacaembu em 2006, com oito anos de idade. O jogo era Corinthians e Marilia, pelo Campeonato Paulista. A partir daquele dia, minha vida mudou”, contou Gabriele Martinez, de 19 anos. A estudante, corintiana das mais fiéis, relatou sua chateação ao descobrir que o estádio não seria casa do Timão: “Tenho um carinho muito especial pelo Pacaembu, queria muito que ele se o tornasse estádio do Corinthians. Quando era mais nova, matava aula na escola para passear por lá, ficar sentindo o cheiro do Pacaembu.”

Para a estudante, nem o moderno Itaquerão, estádio de seis jogos da Copa do Mundo de 2014, não preencheu o vazio de não ter o Paulo Machado de Carvalho:

“Não é a mesma coisa. Eu tinha uma relação alheia ao Itaquerão, demorei para decidir conhecê-lo. Mas, agora é a casa do Corinthians. Eu até frequento, mas nem se compara à quantidade de vezes que eu ia ao Pacaembu”, disse Gabriele.

Antes de a Odebrecht começar as obras de construção do Itaquerão, em 2011, o clube tinha interesse em arrendar o estádio para torná-lo casa do Timão. Mas, segundo o então presidente do clube, Andrés Sanchez, a associação de moradores do bairro do Pacaembu pressionou a Prefeitura, que cedeu.

“A Prefeitura de São Paulo deveria dar o estádio para a Associação Viva Pacaembu, dos moradores do bairro. Foram eles quem barraram o Corinthians quando fizemos a proposta à Prefeitura. Não deixam fazer nada no estádio, não devem ter área de lazer em seus prédios, por isso precisam do Pacaembu. Eles, inclusive, pagariam todas as manutenções”, disse o ex-presidente do Corinthians, que voltará às disputas eleitorais em 2018.

“Eu tenho certeza de que a associação vai barrar novamente qualquer tentativa de arrendar o estádio. Para eles, o Pacaembu é intocável. Eles precisam de áreas de lazer, já que os condomínios 'simples' de Higienópolis não dão conta da estrutura (risos)”, concluiu.

Em entrevista ao R7, o presidente da Associação Viva Pacaembu, Rodrigo Mauro, tentou contemporizar, mas entregou a preocupação da entidade. 

“A gente vê essa concessão com bastante receio. Não somos contrários, nem favoráveis. O prefeito fala que é um gestor, mas não conseguiu gerir nem mesmo seu próprio bem público. Acreditamos que a concessão não deveria ter ocorrido. No entanto, já que ocorreu, que tenha um caráter desportivo e um cunho social, que possa atender à população da cidade de São Paulo, carente ou não”, disse.

Segundo Mauro, assim como no Allianz Parque, a concessão será um equívoco: “Uma das nossas preocupações é o local onde o complexo está inserido. É um bairro estritamente residencial, com ruas estreitas, sinuosas. Pode prejudicar a lei do silêncio urbano, que permite um som máximo de 50 decibéis durante o dia e 45 decibéis durante a noite. É claro que isso não será cumprido. Em um raio de 2 km já há algo que foi malsucedido, como o Allianz Parque. Ele degradou a região, a tornou de difícil acesso. Para quê deixar que o Pacaembu chegue nesse nível? ”, questionou o presidente.

Por outro lado, Mauro afirmou que a Associação não barrou a tentativa do Corinthians de assumir o estádio: “O Corinthians não queria uma concessão, queria levar o estádio, que a Prefeitura vendesse o Pacaembu para o clube. Mas é um patrimônio tombado, e não pode ser vendido. Nós fomos contra a compra apenas por irmos de acordo com a lei. Eles podiam ter negociado uma concessão, como aconteceu com o Santos. Mas não era isso que o Andrés queria à época”, garantiu o presidente. “A Viva Pacaembu não tem poder legislativo, nem executivo ou policial. Existe a lei de silêncio urbano e a gente apenas garantiu que ela fosse respeitada”, concluiu.

Sobre a possibilidade de o Santos tomar as rédeas do estádio, o presidente foi contundente: “Mesmo sendo um jogo por semana, o problema não é a partida em si, mas o que acontece ao redor. Churrasquinho de filet mignon, filet miau (sic), não sei. As pessoas estacionam os carros nas portas das casas com a permissão dos flanelinhas, que acreditam que, por exemplo, se é a casa de uma senhora de idade, há poucas chances de ela sair de casa durante o período do jogo”, disse. “Isso é extremamente irritante. O que precisa ser feito? Regras rígidas. Vamos fazer a concessão, mas vamos respeitar o tombamento, o zoneamento, o loteamento e a lei do silêncio urbano. Temos que fazer eventos esportivos como num pais de 1º mundo”.

*Sob supervisão de André Avelar

EsportesR7 no YouTube. Inscreva-se

.