Opinião: Luciano do Valle não gostava de usar chavões
Troca afetiva com o esporte e com a profissão sempre foi a marca do narrador
Futebol|Eugenio Goussinsky, do R7

Mais do que narrador, Luciano do Valle era um contador de histórias, daqueles que se envolvem na medida certa, atuando junto com o enredo, como se dele participasse.
Nas derrotas, como do Brasil na Copa de 1982, enquanto ele narrava, não deixava de lamentar. De maneira objetiva, sem vergonha nenhuma de ser fúnebre, decretou. “Gol de Paolo Rossi”. E teria algo a ver se ele gritasse “Goooooooooool de Paolo Rossi”?
No fim do jogo, mostrou que o segredo de um grande comunicador é revelar para o público um pouco de suas conversas interiores. Ele mesmo buscava explicações para o revés, tentando encontrar novas perspectivas humanas. Parecia querer consolar-se e consolar em relação aos dilemas da vida. Essa troca afetiva com o esporte e com sua profissão sempre foi sua marca.
Disse então algo semelhante ao do discurso do lendário Pedro Luiz após o drama do Maracanã em 1950. "Perdemos hoje para podermos ganhar amanhã".
Nas vitórias, ele demonstrava uma vibração única. Quem assistia se sentia junto na quadra, na pista ou no campo, comemorando o triunfo com os vencedores.
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Luciano do Valle não gostava de chavões. Transmitia o que via, da maneira que sentia no momento. Na sua visão, cada jogo tinha mesmo sua história. Ele, porém, como marca de suas reflexões, gostava muito de repetir uma frase, para elucidar um fato. "Essa que é a verdade".
Fora das cabines, todos sabem que Luciano era um desbravador. Abriu, como empreendedor, novos caminhos para esportes como vôlei, automobilismo, boxe e basquete, em muitos casos, revolucionando o segmento e o tornando uma referência.
No enterro do jornalista, o olhar enternecido de um Maguila já enfraquecido, mas que não perdera a força da gratidão, foi mais uma demonstração de que tais iniciativas não visavam primordialmente a fama ou o lucro. Luciano era um idealista. E para aproximar a sociedade brasileira do esporte, precisava de amigos.
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Talvez no decorrer dos anos tenha engordado para, intuitivamente, digerir as adversidades que a vida lhe impôs. Contentava-se, porém, quando tinha um mínimo de liberdade para ser do jeito que era. No fim, conformou-se que, mais do que tentar mudar o mundo e as suas mazelas, residia ali a sua principal riqueza.
Soava de maneira reconfortante ouvi-lo falar nomes como David Luiz, Fred e Neymar com a mesma naturalidade que, nos anos 80, ele falava de Zico, Edinho e Rodrigues Neto.
Saber da existência de Luciano, mesmo não o ouvindo narrar, dava uma sensação de alívio. De que aquela voz vibrante e serena, de uma técnica inigualável, estaria sempre lá, de alguma maneira, para transformar a saudade de outros tempos em algo palpável, que teria continuidade sempre. Bastaria mudar de canal.
Será um exercício novo assistir a Copa de 2014 sem que esta seja contada por ele. Sem o timbre cuja amplitude unia o passado ao presente e que dava a impressão de ser eterno. Não é somente Luciano do Valle que está perdendo a Copa no Brasil, in loco. É a Copa no Brasil, os torcedores e telespectadores, que o estão perdendo. No fim das contas, isso é o que mais conta quando alguém se vai: quanta saudade vai deixar. Essa que é a verdade.














