Na Argentina, medida radical só mudou a forma de violência entre torcedores
País adotou padrão em 2013, mas brigas continuam sendo problema nos estádios
Futebol|Do R7

A Argentina cedeu à pressão por torcida única na metade de 2013 e agora não consegue reverter uma medida que deveria ser emergencial e só mudou forma da violência no futebol. Sem um antagonista com a camiseta rival, o torcedor brigão adotou como inimigo principal alvos que eram eventuais: facções de seu próprio clube e a polícia nos arredores da partida.
Nestes três anos, dirigentes e estádios se moldaram ao fato de ter "um problema a menos". "Não reunimos especialistas em segurança, não fizemos campanhas de conscientização e o Estado assumiu o fracasso em garantir a convivência", constata Mariano Bergés, ex-juiz que preside a ONG Salvemos al Fútbol e que comandou de 1993 a 2004 investigações contra as barra bravas.
Com menos brigas no estádio, o desafio principal dos clubes passou a ser lidar com suas "barras", como são conhecidas as torcidas organizadas. Elas decidem quem pode revender entradas, camisetas falsas e explorar o estacionamento no entorno do estádio. Controlam até mesmo o comércio de choripán - um lanche de pão com linguiça.
Torcida única em clássicos divide opinião de times paulistas, mas gera mais renda
A polícia, que antes escoltava os visitantes, agora monitora líderes de facções.
Um dos pontos que poderiam ter sido aprimorados, segundo Bergés, é a preparação da tropa. São frequentes os confrontos fora do estádio. Da torcida partem pedras e garrafas. Da polícia, bombas de gás e balas de borracha.
Uma dessas brigas ocorreu no "superclássico" das oitavas de final da Libertadores do ano passado. Boca e River se enfrentaram com torcida única. O jogo de volta, na Bombonera, ficou marcado pelo spray de pimenta usado por torcedores contra os atletas do River, que conseguiu a classificação sem que a partida acabasse.
A proibição de visitantes na Argentina veio após três mortes em dois jogos na metade de 2013. Segundo dados da Salvemos al Fútbol, aquele ano terminou com 16 mortes. Em 2014, quando nenhuma das partidas teve visitantes, o número manteve-se em 16. Em 2015, as mortes caíram pra 5. Como em 2014 o número foi igual ao de 2013, não há como associar essa redução do ano passado ao sistema de torcida única.
"Prova de que uma só torcida não é uma solução em si é que nenhuma equipe passou a pedir menos policiais para um jogo", pondera Alejandro Casar, autor de Pasó de Todo, livro que descreve a influência dos cartolas nos vícios do futebol. Ele diz que jogar as brigas para fora dos estádios deu aos dirigentes o argumento de que elas não são responsabilidade do clube.
O Boca Juniors foi dirigido entre 1995 e 2007 por Mauricio Macri, que desde dezembro preside o país. Na campanha, ele disse ser contra a reversão da medida enquanto não mudar a segurança. Na campanha para presidir a Associação de Futebol Argentino, que tem eleição em 30 maio, o tema é central, mas não há autonomia para mudar. A decisão veio do Executivo e teria de partir dele a mudança.
Assista aos programas da Record com o R7 Play















