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BRASILEIRO 2022
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Minha Bola e Meu Rei

O menino e a bola de couro jamais se separavam. Somente naquele dia, o menino deixou sua bola cair. E o Rei Pelé, com um sorriso e descalço, sem kichute nem chuteira, deu seu chute mais perfeito e reuniu menino e bola novamente

Futebol|Antonio Guerreiro, do R7 e Antonio Guerreiro

Pelé comemora a sua convocação para a copa de 1958 ao lado da companheira bola de couro
Pelé comemora a sua convocação para a copa de 1958 ao lado da companheira bola de couro Pelé comemora a sua convocação para a copa de 1958 ao lado da companheira bola de couro

Foram aproximadamente três meses de sacrifício. Nada de cinema, bala ou brinquedo novo. Cada moeda ganha como mesada ou mesmo a troco de nada – como era comum naquela época em visitas de tios ou avós – ia direto ao porquinho. Porquinho de porcelana, com fenda nas costas e tudo o mais de direito. Ao término dos sofridos e disciplinadores noventa dias, morre o porco, nasce o sorriso. E lá se foi o garoto maroto pelos jardins das praias de Santos em busca de seu sonho maior.

Ao chegar ao bairro do Gonzaga, a respiração confirmava seu estado de espírito. Da avenida da praia à vitrine da loja foi menos que um pulo. E lá estava ela, muito mais linda que no dia anterior, muito menos bela do que estaria amanhã, após os primeiros toques de seu novo dono. Que não soe como presunção, mas tenho fé que a moça da loja até hoje guarda na lembrança o sorriso do menino ao segurar em suas mãos aquele primeiro troféu, aquele objeto de desejo tão amadurecido naquele coração com menos de uma década de vida. Papel de embrulho? Mas nem! Queria ir sentindo o couro, esfregando em suas mãos, deslizando pelo corpo até que pudesse finalmente encaixá-la em seu devido lugar: sobre os tênis kichute, frutos da economia no trimestre anterior.

O caminho de volta até a praia nem foi sentido. Estavam – sim, o plural é adequado, pois quem não acredita serem as bolas dotadas de sentimento? – entregues um ao outro, vivendo cada segundo de maneira única, fundindo pele e couro como jamais havia sido visto ou sentido em toda a existência.

E assim foram-se dias, semanas, meses e, se bem me lembro, até anos. O garoto e sua bola. Garoto este que não cansava nunca, apesar dos apelos da mãe. Até na escola a bola marcava presença. Bola letrada esta, em escola particular, pagando mensalidade e tudo o mais, afinal a caixinha mensal que o inspetor recebia para fingir que nada via só poderia ser chamada de quê?

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Mas um caso em particular marcou a vida do garoto e da bola. Foi no ano seguinte ao encontro dos dois. O cenário: uma esquina da avenida dos clubes, na Ponta da Praia, naquela mesma Santos. Iam o menino, a bola, o kichute e o sorriso no melhor conjunto quando um semáforo os fez parar. E naquele dia, somente naquele dia, o menino deixou sua bola cair. A bola e a boca. Todo o amor e cada minuto de interação pareceram perder importância para o mais desatento dos pedestres ao lado, mas para este menino, não. Havia um motivo maior, uma razão que justificava todo o seu desapego inesperado, todo o espanto e seu comportamento pasmo. Ali, bem à sua frente, ao volante do Opala, estava o rei.

Se houvesse uma câmera ligada, diria que houve um slow motion. A bola quicava no chão na mesma cadência que os olhos do garoto piscavam tentando acreditar no que via. Mas não foi o bastante. Como que reconhecendo a derrota, ou mesmo admitindo sua condição de cúmplice e fã idem, nossa amiga de couro, a cada toque no chão ia quase que magneticamente parar na porta do carro, aos pés de sua majestade.

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Como a história nos mostra, o rei é o rei. E tem comportamento real. Seu Edson, rei Pelé, abre a porta, um sorriso e descalço, sem kichute nem chuteira, deu aquele que, para este menino que agora aqui escreve – o mesmo de nossa história – foi seu chute mais perfeito, pois veio em minha direção, estacionando milimetricamente nestas mãos. O semáforo fez-se verde e o carro partiu, deixando naquela pequena calçada um menino, sua bola, o kichute e um sorriso que já dura, pelo menos, quarenta anos.

Há tempos que não vejo mais minha amiga de couro. Perdeu-se em meio a tantas mudanças. Mas, assim como o sorriso, guardo uma certeza dentro de mim: a de que ela, minha primeira bola oficial de couro, onde quer que esteja, reciclada ou não, guarda com carinho o pedaço de pele que foi tocado pelo rei.

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