Fla deverá ser o time a ser batido na 'espanholização' do futebol do País

Com dinheiro, ousadia e acerto nas contratações, clube mostra o quanto pode voar acima dos rivais quando faz chegar a campo o sucesso obtido fora dele    

Gabigol e B. Henrique: destaques de um Fla que acerta dentro e fora de campo

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Alexandre Vidal/Flamengo

Alexandre Kalil, o maior vencedor como presidente da história do Atlético-MG, atual prefeito de Belo Horizonte, soltou em 2014 uma frase com ares proféticos para muitos: “Se arrumarem o Flamengo, acabou o futebol brasileiro”.

Descontado o exagero de intensidade, a frase do cartola e político mineiro leva a reflexões pertinentes. A rigor, um Flamengo “arrumado” não chegará a “acabar” com o futebol nativo, como alertou Kalil, mas sim com a moleza e boa vida dada pelo próprio clube aos principais rivais pelo caos produzido por uma série de administrações catastróficas nas últimas três décadas, com destaques para os mandatos impagáveis (em todos os aspectos) de Kleber Leite, Edmundo Santos Silva e Patrícia Amorim.

Por pouco o clube mais querido do Brasil, e um dos mais amados do mundo, não sobreviveu a essa gente. Perdia para ele mesmo – ou melhor, para o fogo enganosamente amigo da incompetência de parte considerável dos comandantes e seus grupos, quase sempre associada a atitudes suspeitas e denúncias de corrupção grotesca. Só não tombou de vez porque é realmente um gigante de impressionar e um fenômeno de mobilização de massas e atração de corações e mentes.

Kalil quis dizer o seguinte: no dia em que o Flamengo começar a explorar, com boa gestão e profissionalismo, sua impressionante ‘nação’ de mais de 40 milhões de torcedores, espalhados de norte a sul do Brasil, uma plataforma com ‘população’ semelhante à de toda a Argentina, homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e idosos apaixonados de todas as faixas de renda e cultura e consumo, será muito difícil combater seu poder de arrecadação, montagem de grandes elencos e conquista dos campeonatos mais importantes do País.

Em resumo: acabará a moleza que o próprio clube entregava de bandeja por causa do festival de incompetência na gestão. E, ao contrário, os outros passarão a correr atrás do rubro-negro com frequência.

Ao menos em 2019 o desempenho do Flamengo confirmou a profecia de Kalil em todas as suas letras. Após seis anos de excelente trabalho de saneamento das finanças, liderado pelo ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello entre 2013 e 2018, o rubro negro voou nos campos e fora deles.

Dentro dos gramados, conquistou o estadual profissional, o bi Carioca Sub-20, a Flórida Cup, o Carioca Feminino, o Brasileiro Sub-17, vai disputar a final do Brasileiro Sub-20 e está a um ponto de vencer a Série A, faltando quatro rodadas do fim. Poderá ser campeão brasileiro em três categorias no mesmo ano.

E disputará a final da Libertadores contra o River às 17h do sábado (23), ao final de uma trajetória que, entre outras coisas, fez o poderoso Grêmio perder o rumo de casa com uma impiedosa goleada de 5 a 0.

Fora deles, com a dívida equacionada e os refinanciamentos em dia, o Flamengo gastou R$ 234 milhões em contratações, encaixou R$ 652 milhões nos nove primeiros meses do ano (R$ 295 em venda de jogadores) e anuncia a possibilidade concreta de fechar em 31 de dezembro com arrecadação bruta entre impressionantes R$ 850 milhões e R$ 900 milhões. Nessa toada, caminha a passos firmes para se tornar o primeiro clube bilionário do País em arrecadação bruta anual.

Presidente Landim investiu R$ 234 milhões em contratações e foi recompensado

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Lance

O sucesso de um time não é composto apenas por boa gestão e dinheiro no bolso. É preciso que sucesso obtido nos escritórios do clube se materialize em campo num time forte, coeso e bem dirigido.

No já endinheirado Flamengo de Bandeira de Mello isso não aconteceu. Veio a ocorrer agora, sob o comando do arrojado e sortudo Rodolfo Landim, que não teve medo de gastar muito e viu a ousadia e a coragem recompensadas pelo desempenho de rigorosamente todos os contratados em 2019. Algo bem distante, por exemplo, do também abonado Palmeiras, que colocou muito dinheiro na parada, não deverá ganhar nada na temporada e atualmente sustenta a peso de ouro um grupo de futebol opaco.

Dinheiro, boa gestão, ousadia, comprometimento de atletas e comissão técnica. A Lei de Murphy é um adágio da cultura ocidental que diz o seguinte: "Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível". Ou seja: se algo pode dar errado, dará errado. Ao fazer quase tudo certo fora de campo, os gestores do Flamengo não garantem a excelência dentro dele a todo momento, mas reduzem drasticamente as chances de a Lei de Murphy funcionar nas disputas e do time amargar insucessos. Eis a chave.

Kalil e todos os rivais temiam que o Flamengo reunisse tudo isso. Em 2019 o rubro negro reuniu – e deu no que deu.

Muito se fala na espanholização do futebol brasileiro, com três times em um primeiro momento e cinco a seis depois, compondo uma elite dentro da elite dos grandes clubes.

Não dá para prever por quanto tempo e em quais períodos o rubro negro conseguirá transformar boa performance de gestão em grandes times – e isso vale para qualquer clube. Mas o Brasil e o mundo perceberam muito bem, neste 2019, o quanto o time mais popular do País pode voar acima dos outros quando consegue montar a equação grana-comando-profissionalismo-talento.  

A espanholização começou a se configurar no Brasil, está claro, e o Flamengo dá todos os indícios de que, ao menos no início dela, poderá brilhar com maior intensidade do que seus concorrentes diretos.