Ewerthon: do terrão de Itaquera até o futebol da Tchetchênia
Prestes a completar 35 anos, o ex-atacante de Corinthians e Borussia visitou a redação do R7
Futebol|Eduardo Abreu, do R7

No Brasil, a torcida do Corinthians se gaba e se autointitula como a mais fanática do País. Tem até nome próprio: Fiel. Na Europa, o posto cabe aos torcedores do Borussia Dortmund, da Alemanha, que pelo terceiro ano consecutivo alcançou a melhor média de público do planeta com 100% de ocupação do seu estádio.
Alvinegros e aurinegros têm ainda mais em comum. A idolatria por um ex-atacante formado no terrão de Itaquera que cansou de balançar as redes no Signal Iduna Park: Ewerthon Henrique de Souza, ou somente Ewerthon.
"Esses dois clubes têm um peso muito importante na minha vida. Devo tudo a eles", contou o ex-jogador em entrevista ao R7. "Obviamente que pelo meu lado torcedor o Corinthians é especial. Eu me tornei jogador profissional, conquistei títulos e cheguei à seleção defendendo o time pelo qual eu torço, o time da minha família. E isso é muito gratificante, é o sonho de todo garoto".
Ewerthon deixou o Corinthians, contrariado, em 2001, quando despontava no Brasil e era constantemente convocado para a seleção. Como ele mesmo diz, foi "às cegas para a Alemanha" após um período afastado no Parque São Jorge por não ter aceitado uma transferência para o Real Bétis.
Já na sua primeira temporada em Dortmund, saiu do banco de reservas para marcar o gol do título alemão que livraria o Borussia de um jejum de sete anos. Foram 154 jogos, 54 gols e quatro temporadas com a camisa aurinegra.
"Em 2015 eu estive em Dortmund a para a despedida do Dedê [lateral brasileiro que defendeu o Borussia por 13 anos] e pude sentir mais de perto o carinho da torcida. Eu vi torcedor com o meu rosto tatuado. É uma coisa de louco! Quando a gente está jogando não consegue perceber essas coisas, vive concentrado", contou. Desde então o ex-atacante colocou a meta de passar uma vez por ano na cidade que o melhor acolheu na Europa.
Zaragoza e o sol da Espanha
"O Borussia Dortmund passava por problemas financeiros e não tinha mais como me manter. Fui negociado com o Zaragoza em 2010 e, pela gratidão ao Borussia, aceitei. E foi bom para todos, para mim, para o clube... Morar na Espanha foi muito legal, uma diferença da água para o vinho. Na Alemanha eu tinha uma vida mais pacata. Já na Espanha o clima é maravilhoso, as pessoas são mais abertas, alegres. Foi muito fácil se adaptar. O difícil foi entender a maneira com que os times espanhóis jogavam, acabei tendo problemas com o treinador que queria que eu jogasse mais aberto, numa posição que eu não rendia o meu melhor".
Guerra civil na Tchetchênia
"Eu estava com 31 anos e pintou a oportunidade de ir para o futebol russo. Financeiramente era muito bom. Chegando lá eu vi um país totalmente destruído. Grozny, a capital da Tchetchênia, estava acabada. A população, principalmente os homens, andava armada porque a qualquer momento podia estourar a guerra civil... O time concentrava em um hotel que ficava cercado por barreiras de homens com fuzis. Em volta do estádio tanques de guerra faziam a segurança. Era bem difícil. Eu saia muito pouco de casa, morava na parte russa e só ia para Tchetchênia jogar. Tinha dois anos de contrato com o Terek Grozny, mas acabei ficando um só".

Desafio: Palmeiras
"Sempre fui muito profissional. Fiquei doze anos fora e em 2010 tive uma oportunidade de voltar para o Brasil. As opções eram Flamengo, Internacional, Fluminense e Palmeiras. E como sou de São Paulo, optei em voltar para a casa. Fiquei só um ano, mas os meus números foram bons. O problema é que eu cheguei no clube numa fase complicada, muitos jogadores acabaram saindo, Diego Souza, Cleiton Xavier, Robert... e o torcedor não entende muito bem isso. São apaixonados. Mas fui feliz, bem recebido. Parte da torcida não gostava de mim, mas outra parte sim".
Seleção Brasileira de Craques
"Não vou dizer que não tive oportunidade na seleção, mas depois que eu fui para a Alemanha perdi um pouco espaço. E naquela época era diferente. Hoje o Hulk joga na Rússia e a internet permite que você assista a todos os jogos dele. O técnico tem informação sobre os jogadores. No meu tempo não era assim. Outra diferença era com relação à qualidade. Naquela época eu disputava posição com Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Edílson... Vou te falar uma coisa: se fosse hoje estaria no grupo do Dunga com o pé nas costas. E com o pé ruim! (Risos)".
Amigos
"Fiz muitos colegas na minha carreira. Amigos são poucos, o Amaral é um deles. O futebol é uma profissão difícil, tem muita concorrência, muita falsidade. Isso sem falar que de tempos em tempos você pode mudar de país, de time e acaba sendo natural perder o contato. É complicado. Cresci na base com o Gil, tivemos uma história bonita, subimos juntos para o profissional, mas hoje, por exemplo, não temos mais contato. Cada um seguiu a sua vida. Amigo no futebol é complicado".
Aposentadoria da bola
"Parei em 2014, no Atlético Sorocaba. Hoje tenho uma rotina tranquila. Eu levanto cedo, vou para a academia, jogo meu futebol durante a semana. Só não tem a rotina do quê? Do futebol profissional, que é treinar, viajar, concentrar. Mas, fora isso, eu sigo uma vida bastante sossegada. Toco meus negócios, sou dono de uma construtora em Goiânia, estou bem resolvido. Tenho minhas coisas aqui no Brasil e lá fora também".
* Ewerthon é o convidado especial do R7 para comentar os jogos da seleção brasileira na Copa América Centenário













