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A Copa do Mundo deveria celebrar a América de Bad Bunny

Como os Estados Unidos querem convidar o mundo para a sua casa enquanto gritam para que todos saiam de lá?

Desimpedidos|Lucas Faraldo

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Às vésperas da Copa do Mundo da Fifa, uma outra modalidade de futebol direcionou os holofotes mundiais para os Estados Unidos. Durante o intervalo do Super Bowl desse último domingo (8), o cantor porto-riquenho Bad Bunny chocou quase 200 milhões de telespectadores ao ressignificar a América, ferindo o ego nacionalista do presidente Donald Trump. Esse choque cultural, ironicamente proporcionado pelo esporte mais estadunidense de todos, é um prenúncio sobre a tensão para os próximos meses de junho e julho.

Junto de México e Canadá, os Estados Unidos sediarão um dos maiores eventos do planeta. Uma Copa do Mundo – a exemplo dos próximos Jogos Olímpicos, que também acontecerão no quintal de Trump – pressupõe portas abertas e união dos povos. É o oposto do que prega a política excludente de Trump e as cenas de selvageria protagonizadas pelas forças do ICE (polícia anti-imigração estadunidense). Como os EUA querem convidar o mundo para a sua casa enquanto gritam para que todos saiam de lá?


Agentes federais do ICE, órgão da política de imigração dos EUA, confrontam manifestantes. Octavio JONES / AFP via Getty Images

E a Fifa que não venha pregar neutralidade política - como fez nos últimos Mundiais do Catar e da Rússia. Gianni Infantino perdeu o argumento de “futebol e política não se misturam” quando, no último mês de dezembro, deu um prêmio de paz a Donald Trump. Ao premiar uma figura polarizadora, a Fifa fez uma clara escolha política. Ficou explícito ao mundo não se tratar mais apenas sobre futebol, mas sim sobre alinhamento de poder.

Essa tensão já respinga na Copa do Mundo. Na esteira da aproximação da Fifa com Trump, dos recentes assassinatos da polícia anti-imigratória estadunidense e da ameaça de invasão dos Estados Unidos à Groenlândia, autoridades alemãs cogitaram publicamente um inédito boicote da seleção da Alemanha à Copa. A medida drástica não deverá ocorrer na prática, mas sinaliza para um ambiente de protestos e resistência - e não de festa, como tradicionalmente se projeta quando o assunto é o maior evento de futebol do mundo.

Voltemos ao show de Bad Bunny. Enquanto Infantino entregou a Trump um pedaço de metal dourado, o cantor mais ouvido da América deu uma aula de geografia e humanidade ao mundo revelando o que é a verdadeira união dos povos. A Copa do Mundo deveria celebrar a América de Bad Bunny, mas parece estar sendo preparada para servir apenas à América de Trump. Pois façamos como diz o porto-riquenho: vamos dançar, cantar e não nos calar.

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