Derrota corintiana criou tensão no modesto estádio em Diadema

Gigante do ABC, conhecido pelo recente sucesso no futebol de várzea, fez história neste sábado (22) ao bater atual tricampeão paulista Corinthians

Torcedores fizeram a festa no estádio sem placar eletrônico ou arquibancada coberta

Torcedores fizeram a festa no estádio sem placar eletrônico ou arquibancada coberta

André Anselmo/Estadão Conteúdo - 22.2.2020

A vitória do pequeno abalou o gigante. O lado azul e branco do Água Santa ainda comemorava a proeza quando o lado alvi-negro do Corinthians, enfurecido, começou a protestar neste sábado (22), em Diadema.

“Ei, Andrés, vai tomar no c*”, gritavam os corintianos assim que viram o presidente do clube, Andrés Sanches, atravessar o campo a caminho dos vestiários.

Eles estavam inconformados. Alguns, pendurados no muro acrílico que separa torcedores e jogadores, ameaçaram entrar em campo. A polícia precisou conter os mais exaltados. Faltou pouco para o pior acontecer.

A terceira derrota do time neste Paulistão foi chocante demais para o atual tricampeão da competição e maior vencedor na história do campeonato — o Corinthians acumula 30 conquistas em 118 anos de campeonatos paulistas. Foi uma tarde marcante para ambos os lados. Afinal, quem poderia imaginar?

“Inacreditável esse futebolzinho aí. Já caiu na Libertadores jogando assim. Vai cair no paulistinha também?”, indagou um torcedor que viu tudo do ponto mais alto da arquibancada, ao lado da imprensa.

Estádio recebeu  3.558 espectadores nesta tarde

Estádio recebeu 3.558 espectadores nesta tarde

Alê Vianna/Estadão Conteúdo - 22.2.2020

Água Santa e Corinthians era um encontro improvável até anos atrás. O Água Santa, conhecido pelo apelido Gigante do ABC, em razão do sucesso no futebol amador, começou a sentir o sabor dos torneios profissionais em 2013, assim que saiu do futebol amador, em que ficou por 32 anos, e ingressou na série de acesso do Paulistão. Em 2016, já estava na primeira divisão.

Naquele ano, Água Santa já mostrou que é um forte candidato a se tornar um adversário desagradável para os grandes. Inesperadamente, goleou o Palmeiras por 4 a 1 em Presidente Prudente e deixou muita gente chocada com tamanha ousadia. Foi a vitória mais marcante até hoje do ''Gigante de Diadema'', apelido escolhido pelos aguasantenses.

O jogo foi na Arena Inamar, em Diadema, a casa do Netuno — outro apelido dados pelos torcedores locais —, na região metropolitana de São Paulo. Ela foi inaugurada em 2009 e reformulada em 2016. Com capacidade para 10 mil pessoas bem juntinhas, hoje, recebeu apenas 3.558 espectadores.

A casa do Água Santa não tem placar eletrônico, arquibancada coberta, nem mesmo iluminação adequada. Por isso, o jogo começou às 15 horas deste sábado, para não entrar pela noite. Cabines de TV também não existem. Só há espaço coberto para os radialistas. Cinegrafistas e repórteres precisam ficar no meio da arquibancada se virando como podem para gravar o jogo. Quando chove, como aconteceu neste sábado, o jeito é torcer pra que todos caibam debaixo dos guarda-chuvas - que estão ali para proteger as câmeras e não as pessoas. No fim, foi inevitável não se molhar.

A Arena Inamar foi levantada no alto da cidade, entre três bairros, e não é totalmente fechada pela arquibancada. Com isso, alguns vizinhos nem precisam de ingressos para assistir aos jogos. Basta, apenas, subir nos telhados.

A visão não é das melhores. Mas, em comparação ao lado de lá da torcida, onde ficam os repórteres, os moradores não têm do que reclamar. Para quem está na torcida do lado improvisado da imprensa, é impossível ver as cobranças de escanteios, os arremessos laterais e qualquer outra jogada próxima à linha. Como o pessoal fica de pé, a visão também fica limitada. Os cinegrafistas sofrem, coitados.

Mas não dá pra dizer que isso tudo causou alguma interferência no jogo e no placar. Pelo menos, as duas torcidas do Água Santa, a Aquáticos e a Tubarão Azul, contam com boa visão do campo.

De cara, elas organizaram uma barulhenta e demorada queima de fogos na entrada das equipes. Um show pirotécnico que estremeceu o estádio inteiro. Parecia dia de final. Em seguida, um torcedor saiu carregando, de um lado pro outro, um sinalizador que soltava uma intensa fumaça azul, cobrindo toda a arquibancada atrás do goleiro Cássio.

O Corinthians parecia ter o controle do jogo assim que começou a tocar a bola de um lado pro outro no início do jogo. Bastaram oito minutos pra bola chegar até o artilheiro Vagner Love, que recebeu o passe do lateral Fagner, depois de uma jogada muito bem trabalhada de pé em pé pelo time todo.

O Água Santa, apostando nos contra-ataques, conseguiu surpreender o adversário com um cruzamento que saiu da esquerda, atravessou a área do Corinthians, e chegou aos pés de Luan Dias, sozinho, na marca do pênalti. O camisa 10 dominou, ajeitou e mandou um chutaço de canhota, à queima-roupa no ângulo, indefensável pro goleiro Cássio. Foi quando veio a explosão:

“Gooooollll! Vamos, vamos Águaaaa! Vamos, vamos Águaaaaaa!”

Veio o segundo tempo. O Corinthians ficou sem Camacho, expulso depois de levar o segundo cartão amarelo, o que fez o time diminuir o ritmo. Só chegou mais perto do gol adversário em duas jogadas de bola parada — uma falta e um escanteio. O Água Santa, com um jogador a mais em campo, pouco se arriscou também no ataque.

O jogo se encaminhava para o empate, o que já seria um grande feito pro time de casa. Mas o árbitro deu três minutos de acréscimo, tempo suficiente para acontecer de tudo.

Quando o relógio chegava aos 46 minutos, a bola caiu nos pés de um moço chamado Robinho. Por coincidência, é o mesmo nome de um jovem santista que, em 2002, afundou o Corinthians com sete pedaladas desconcertantes na final do Brasileirão.

E não é que o Robinho do Água Santa também era um predestinado? Ele partiu pra cima da defesa do Corinthians, passou aos trancos e barrancos, ficou na cara do Cássio e enfiou a pancada de esquerda. Cássio questionou uma mão na bola e só conseguiu o cartão amarelo.

“Gooooollllll! Golaaaaçooooooo!!! Uh, é Água Santa! Uh, é Água Santa!” foi a comemoração dos aguasantenses, que devem estar festejando até agora em Diadema.

“Meu, é inacreditável perder pro Água Santa!”, saiu reclamando um corintiano.

O time da fumaça azul está com a mesma pontuação do Corinthians no Paulistão. E tem a mesma chance de classificação do adversário vencido.
Mas, caso não avance, vai ter a honra de dizer que, pelo menos, venceu um dos maiores clubes do mundo.

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