Deram Fla, Vasco e futebol do Rio como mortos. E agora, São Paulo?

Condenar à morte clubes centenários, vencedores e mobilizadores da paixão de tantos, diante de crises cíclicas, é no mínimo apressado e pouco inteligente

Vasco de Guarín (foto) chega a 126 mil sócios e se garante na Sul-Americana

Vasco de Guarín (foto) chega a 126 mil sócios e se garante na Sul-Americana

Alexandre Durao/Estadão Conteúdo - 2.12.2019

Na última década, sobretudo até 2017, era muito comum ler ou ouvir de parte importante da imprensa esportiva nacional, especialmente em São Paulo, declarações e decretos de morte do futebol do Estado do Rio de Janeiro.

E eis que agora, ao final de 2019, o todo poderoso dos campos do País é o carioquíssimo Flamengo, campeão brasileiro com extrema folga nos profissionais, campeão sul-americano e vencedor de praticamente tudo o que disputou no futebol em todas as categorias estaduais e nacionais.

Outra potência do estado, o Vasco da Gama, que praticamente se garantiu na Sul-Americana ao vencer o Cruzeiro por 1 a 0 na noite de segunda (2), em São Januário, assumindo o 12º lugar do Brasileirão com 47 pontos, sacudiu o ambiente esportivo do País com uma campanha espetacular de mobilização de seus torcedores.

A iniciativa, inspirada em parte na semana da Black Friday, elevou a base de sócios-torcedores de seu programa Gigante 32 mil para 126 mil em apenas oito dias, entre as segundas-feiras (25) e (3). E, na manhã de terça-feira (3), assumiu a liderança do ranking de sócios-torcedores do País, tomando a posição do Flamengo.

É verdade que o Vasco deu 50% de desconto nas seis primeiras mensalidades para esquentar a promoção. E também que o preço do plano mais barato, com o abatimento, ficou em apenas R$ 4 nos seis primeiros meses, o que gerou críticas e ironias de torcedores rivais. Mesmo assim, o feito é admirável.

De acordo com o diretor do Gigante, Eduardo Sá, o maior número de novos adeptos não optou pela categoria mais barata, e sim pela Caldeirão, que tem preço cheio de R$ 24,98 e sairá por R$ 12,49 nos seis primeiros meses. Os outros preços com desconto são: R$ 19,99 (Colina), R$ 34,99 (Caldeirão Mais) e R$ 54,99 (Colina Mais)

Fla de Gabigol se organizou. Palmeiras e outros rivais preferiam versão bagunçada

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LUIS MOURA/WPP/ESTADÃO CONTEÚDO

Condenar à morte clubes tradicionais, centenários, vencedores e motivadores da paixão de milhões de torcedores, como os do Rio de Janeiro, diante de uma crise, é, no mínimo, algo apressado e, na quase totalidade dos casos, pouco inteligente.

Pelo fato mero de que crises, para essas organizações que atravessam séculos, são quase sempre cíclicas, ou seja, períodos naturais de dificuldade presentes na história de qualquer instituição tão duradoura. São, antes de tudo, coisas que dão e passam.

Veja o caso do Flamengo. Por que tantos palmeirenses e torcedores de times paulistas, gaúchos e mineiros se surpreendem com tanto sucesso do rubro-negro em um único ano?

Porque se acostumaram, por miopia ou conveniência, a enxergar o clube com os olhos da exceção e não os da regra. Achavam que o Flamengo seria a vida inteira o clube falido, mal administrado e assaltado por todos os lados. O dos devastadores Kleber Leite e Edmundo Santos Silva. O da falta de dinheiro para pagar conta de luz e comprar cloro e azulejo de piscina.

Só que o Flamengo é, majoritariamente, o da regra. Um clube com 124 anos de existência e no mínimo 46 milhões de seguidores apaixonados em todos os cantos, de longe a maior, mais poderosa e diversificada plataforma de consumidores ligados a uma marca no Brasil.

Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, sabe disso e jamais cairia na inocência de subestimar a capacidade de recuperação de instituições como Vasco, Fluminense, Botafogo e Flamengo. “Com aquele poderio, no dia em que o Flamengo se arrumar minimamente acabará com a paz dos outros”, vaticinou Kalil em 2013. Rubro-negros pedem aos céus para que 2019 marque o início da profecia.

Botafogo e Fluminense também terão potencial para reconstruir caminhos e recuperar o melhor da capacidade competitiva, ao lado de seus torcedores, se escolherem corretamente seus cartolas e parceiros.

Botafogo de Diego Souza está prestes a aprovar parceria com os Moreira Salles

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Vitor Silva/Botafogo de Futebol e Regatas

O Alvinegro, por exemplo, aceitou, em julho de 2019, a proposta de recuperação financeira liderada pelos irmãos João e Walter Moreira Salles, torcedores fanáticos do clube, cineastas, jornalistas e herdeiros do Unibanco, hoje incorporado ao Itaú.

O projeto, estruturado e apresentado pela Ernest & Young e a Trengrouse Advogados, será discutido e votado pelo Conselho Deliberativo no próximo dia 12 de dezembro, às 19h, na bela e histórica sede do clube em General Severiano, no bairro de Botafogo, na zona sul do Rio.

A previsão de aportes é de R$ 350 milhões de investidores para pagamento de parte da dívida e R$30 milhões iniciais para contratações. Poderá ser a salvação do Fogão.

O Santos sofreu muito e parecia em agonia para muitos em períodos das décadas de 1980 e 1990. Depois disso ganhou dois Brasileirões, uma Copa do Brasil e sete Paulistas. Em 2019, foi o time de São Paulo com melhor desempenho.

O hoje Palmeiras estava rebaixado e falido em 2012. Recebeu quase R$ 200 milhões emprestado do ex-presidente Paulo Nobre, escapou da Segundona na última rodada em 2014. Mas, logo depois disso, recuperou-se, ganhou dos Brasileiros e uma Copa do Brasil, e hoje, endinheirado, pode programar suas temporadas com tranquilidade.

No Corinthians, muitos defendem que o rebaixamento de 2007 serviu para recolocar o clube nos eixos.

Por essas e todas outras, é preciso pensar bem antes de decretar a morte de um clube poderoso muito antes de seu suspiro derradeiro.

O futebol do Estado do Rio, com sua bela e rica tradição, agradece.