Presidente da Fifa faz 27 voos em duas semanas de Copa e é criticado por impacto climático
Jato particular de Gianni Infantino percorreu pelo menos 50.122 km e passou mais de 66 horas no ar em 15 dias
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A ativista climática sueca Greta Thunberg deve estar muito tensa nesta Copa do Mundo. E não tem nada a ver com os jogos da Suécia na competição. Reportagem da BBC revela que presidente da Fifa, Gianni Infantino, fez 27 voos para assistir a 24 jogos.
Greta é conhecida pelos protestos que realiza contra as milhões de toneladas de dióxido de carbono emitidas anualmente na atmosfera como resultado das viagens aéreas.
Infantino tem sido criticado pelo grande impacto climático gerado em suas viagens. O italiano assistiu a 24 jogos em pouco mais de duas semanas em toda a América do Norte durante a Copa do Mundo. O torneio se estende por três países – Estados Unidos, Canadá e México –, com 16 cidades-sede, e conta com mais partidas do que nunca, já que a fase de grupos foi ampliada.
As viagens de avião geram uma pegada de carbono significativa, sendo responsáveis por aproximadamente 2,4% a 5% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂). Esse impacto varia conforme a distância, modelo da aeronave e classe do assento.
Na estratégia da Fifa para a Copa do Mundo de 2026 sobre sustentabilidade e direitos humanos, o presidente afirmou: “Quer estejamos falando sobre clima, direitos humanos, doenças ou deficiências, estamos comprometidos em fazer a nossa parte.”

A BBC Verify e a BBC Sport têm monitorado o jato particular, ligado à Fifa e a Infantino, que realizou 27 voos durante o torneio para cidades onde o chefe da Fifa foi fotografado assistindo a partidas.
O impacto climático estimado deste jato ao longo de duas semanas é aproximadamente equivalente ao impacto climático de 78 pessoas, em média, ao longo de um ano inteiro.
Até onde viajou o presidente da Fifa?
Infantino assistiu a dois jogos por dia diversas vezes durante a fase de grupos do torneio, muitas vezes em cidades a centenas de quilômetros de distância. Em alguns dias, ele chegou a fazer três voos diferentes.
O presidente da Fifa foi fotografado utilizando outro jato executivo da Qatar Airways antes deste torneio, e foi noticiado que ele está voando em um Gulfstream G650ER nesta Copa do Mundo.
A BBC pediu à Fifa que confirmasse isso. Não houve resposta, mas foram mapeados os voos da aeronave usando dados de rastreamento de aviões, e o destino de cada viagem coincide com fotografias publicadas de Infantino em estádios nas mesmas cidades e nas mesmas datas.
O voo mais longo que Infantino fez nas duas primeiras semanas foi de 4.507 km (2.800 milhas), de Vancouver para Miami, em 13 de junho, depois de assistir ao jogo entre Austrália e Turquia.
Ele também fez algumas viagens mais curtas — em 22 de junho, o jato voou 148 km (92 milhas) da Filadélfia até o Aeroporto de Teterboro, em Nova Jersey.
Infantino não compareceu a nenhum jogo lá, mas foi entrevistado na manhã seguinte no estúdio da Fox News na vizinha Nova York, antes de viajar para Boston e Toronto para assistir a partidas ainda naquele dia.
Sua viagem mais longa em um único dia, sem incluir voos noturnos, foi em 15 de junho, quando voou mais de 4.000 km (2.700 milhas) através dos EUA, de Miami a Seattle, para assistir ao jogo entre Bélgica e Egito. Em seguida, viajou cerca de 1.545 km (960 milhas) ao sul, até Los Angeles, onde assistiu ao jogo entre Irã e Nova Zelândia à noite.
Outro grande dia de viagem foi 26 de junho, quando o jato decolou de Miami, fez uma breve parada em Dallas e depois seguiu para Seattle, onde Infantino foi fotografado na partida entre Egito e Irã.
O avião partiu de Seattle cerca de cinco horas após a chegada, voando outros 4.345 km (2.700 milhas) de volta para Miami, onde pousou na manhã seguinte.
Infantino assistiu à sua 24ª e última partida da fase de grupos no dia seguinte em Miami, onde Portugal enfrentou a Colômbia.
A análise da BBC mostra que, no total, o jato particular percorreu pelo menos 50.122 km (31.144 milhas) e passou mais de 66 horas no ar entre o início do torneio e 27 de junho.
Qual é o valor disso em emissões?
Viajar em jato particular é normalmente a forma mais intensiva em carbono de se locomover, produzindo gases de efeito estufa que aquecem a atmosfera, impulsionando o aquecimento global e as mudanças climáticas.
O Gulfstream G650ER, avião que se acredita estar sendo usado por Infantino, tem um consumo médio de combustível de aproximadamente 1.817 litros por hora, o que significa que sua viagem durante a fase de grupos produziu cerca de 516 toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e), com base nas conversões de gases de efeito estufa do governo do Reino Unido., externo
O valor final equivalente em CO2 inclui estimativas para o CO2 e outros gases liberados diretamente, e é ajustado para incluir os efeitos climáticos indiretos da aviação.
Esses valores são estimados. E as taxas de consumo de combustível são normalmente maiores durante a decolagem e o pouso. De acordo com dados da UE, a média global anual de emissões de gases de efeito estufa por indivíduo é de 6,56 toneladas de CO2e.
Portanto, acredita-se que a viagem de Infantino tenha produzido aproximadamente a mesma quantidade de CO2e que cerca de 78 pessoas produziriam em um ano inteiro, em pouco mais de duas semanas.
O avião tem capacidade para até 19 pessoas e não se sabe quantas estavam a bordo em cada voo, o que impede um cálculo preciso sobre as emissões exatas por passageiro.
Um representante da Fifa disse à BBC Sport: “O presidente da Fifa viaja rotineiramente, juntamente com os funcionários relevantes, em assuntos comerciais e relacionados a torneios, e procura visitar as associações-membro da Fifa sempre que possível.”
“Às vezes, as viagens são organizadas em companhias aéreas comerciais [incluindo as de baixo custo] e, outras vezes, em voos fretados privados, dependendo do que for mais eficiente e econômico nas circunstâncias.”
A BBC perguntou à Fifa se algum dos voos para os jogos da Copa do Mundo foi realizado em companhias aéreas comerciais, quantas pessoas viajam no jato executivo da Qatar Airways e se a Fifa compensa essas emissões, mas não houve resposta.
Freddie Daley, que trabalha para a rede de ação climática no esporte Cool Down, classificou o aparente uso de um jato particular por Infantino na Copa do Mundo como “sintomático das falhas da Fifa em relação ao meio ambiente e à sustentabilidade”.
“O fato de Infantino ter optado por usar um jato particular está completamente em desacordo com o nível de liderança que precisamos ver no topo da Fifa em questões ambientais”, diz Daley, pesquisador da Universidade de Sussex.
Os jatos particulares têm um “impacto completamente desproporcional”, afirma Denise Auclair, especialista em viagens sustentáveis da Federação Europeia para os Transportes e o Meio Ambiente. “Eles são de cinco a 14 vezes mais poluentes do que os aviões comerciais e 50 vezes mais do que os trens.”
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