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Convidado em show sertanejo, Pelé, há 12 anos, fez última tentativa de emplacar na música

Maior jogador de futebol de todos os tempos aceitou ser coadjuvante na apresentação do cantor Edson (na ocasião, separado de Hudson) em uma casa noturna de São Paulo

Futebol|Marcos Rogério Lopes, do R7

Sertanejo Edson e Pelé cantaram juntos na última tentativa do Rei de fazer sucesso na música
Sertanejo Edson e Pelé cantaram juntos na última tentativa do Rei de fazer sucesso na música Sertanejo Edson e Pelé cantaram juntos na última tentativa do Rei de fazer sucesso na música

Há 12 anos, em 5 de março de 2010, Pelé aceitou ser coadjuvante em um show sertanejo na zona oeste de São Paulo. Naquele dia, o Edson idolatrado pelos fãs era o cantor que havia se afastado do parceiro Hudson. O Arantes do Nascimento, perto de completar 70 anos, tentava pela última vez emplacar sua carreira na música, na qual, ao contrário de futebol, jamais teve nenhum destaque.

O aviso de que a tradicional casa Villa Country receberia o show Edson & Edson chegou em um email à redação do R7 no início daquela semana. A participação de Pelé, que por razões óbvias era o destaque da mensagem da assessoria de imprensa do artista que iniciava carreira solo, não estava confirmada. Para dificultar a cobertura, foi vetado o credenciamento para acompanhar aquela curiosa apresentação.

Poderia ter sido apenas uma estratégia de marketing para bombar a carreira do sertanejo, sem dúvida, mas não dava para ignorar um show como esse, ainda que as chances de o gênio do esporte entrar em campo fossem pequenas. Depois de muita insistência, saiu o credenciamento. Dias antes do show, o então assessor e amigo do ex-atleta, Pepito Fornos, garantiu que Pelé estaria lá e iria se apresentar. E lá foi o incrédulo repórter ao Villa Country.

"Precisamente à 1h50, Pelé, o Rei do Futebol, apareceu ao lado do cantor Edson (ex-parceiro de Hudson) para acompanhá-lo, entre desafinos e playback, na música Sou Brasileiro, composta pelos dois", publicou o portal na madrugada de sábado, 7 de março de 2010.

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Antes de cantar, o maior atleta do século 20 viveu raros momentos de sossego. Ninguém ali parecia se importar muito com sua presença.

"E olha que ele tinha tudo para ser percebido", contou o repórter, que acrescentou em seguida. "Para começar, não trajava um único item que o aproximasse daquelas pessoas. Não usava chapéu, bota ou calça jeans apertada. E a camisa, com uma bandeira do Brasil estampada, estava para fora da calça, um sacrilégio na moda sertaneja."

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"À 0h25, um tumulto vindo do lado oposto ao palco chamou atenção. Quatro seguranças atentos, assustados, afastavam fãs que tentavam se aproximar do astro: o cantor Latino. Pelé chegou meia hora depois, sem causar agitação alguma na plateia que lotava a casa noturna."

Naquela noite, Pelé parecia frágil, meio curvado, cansado. Dias antes, havia tido uma gripe forte, justificou o assessor do evento. A intenção da reportagem era acompanhá-lo nos bastidores, do camarim ao palco, antes e depois da apresentação, mas o acesso foi negado.

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Nas poucas palavras que trocou com o único jornalista que o procurou, disse que sempre amou a música e que ela o acompanhou por toda a vida. "Eu toco, mal, e componho, cantar não é muito meu forte, mas também me arrisco", brincou, simpático como sempre foi com a imprensa, o mito que morreu na quinta-feira (29), aos 82 anos.

O texto de 2010 mostrava ainda a obstinação do craque do futebol em fazer sucesso na música. 

"O mesmo sujeito que encarou a plateia da casa noturna country na sexta, quatro anos antes, em 2006, durante a Copa do Mundo na Alemanha, deu carteirada parecida e incluiu suas canções entre um e outro comentário para a TV estatal de Berlim."

"Os narradores ouviam-no sem entender nada. Ele cantava em português, tocava violão e fazia observações do tipo: 'Agora vou tocar uma que fiz para uma grande cantora do Brasil?'... tudo sem tradução em alemão."

O ídolo da seleção brasileira, do Santos, Cosmos e de todos os apaixonados por esporte cultivava a paixão pela música desde a época de jogador. Em 1969, um ano antes do tricampeonato na Copa do México, Elis Regina lançou no Brasil o compacto Tabelinha, com duas composições do aspirante a artista.

Na segunda canção do disco, que tinha Perdão Não Tem e Vexamão, ele brinca na letra com o fato de não saber cantar: "Eu, todo desajeitado, cantando tudo errado, sem saber como parar/ Foi um tremendo de um vexame, mas o engraçado é que eu cantava errado e os 'puxa' achavam bom".

Nove anos depois, ele lançou seu LP (long play, uma coisa bem antiga, avô dos cds e bisavô dos álbuns digitais), com seis músicas próprias e produção do consagrado Sérgio Mendes, ícone da bossa nova que o conheceu durante sua passagem pelo Cosmos, nos Estados Unidos. Nesse disco, a faixa Cidade Grande era cantada ao lado de Jair Rodrigues.

Não só Elis Regina e Jair Rodrigues, mas também Wilson Simonal, Gilberto Gil e outros artistas cantaram composições suas. Afinal, não devia ser fácil negar um pedido de Rei.

Pelé escreveu em seu livro Pelé, a Autobiografia, de 2006, que seu sonho era gravar um CD com todas as músicas que compôs.

Cansado e meio sem jeito, Pelé se esforçou para animar a plateia sertaneja
Cansado e meio sem jeito, Pelé se esforçou para animar a plateia sertaneja Cansado e meio sem jeito, Pelé se esforçou para animar a plateia sertaneja

Entre elas, o hit ABC, que estrelou uma campanha do Ministério da Educação em 1998 e, 12 anos depois, foi relembrado no show da casa sertaneja, na zona oeste paulista, no dia em que aceitou ser apenas um reserva de luxo para o Edson cantor, que também parecia não acreditar na presença ilustre.

"Ave Maria, esse [convidado] eu não vou nem falar nada, vocês vão ver só", disse o dono da noite ao abrir a apresentação.

Após a oitava música, Edson disse à plateia que ele e Pelé fizeram uma composição "muito bonita", que ele tinha certeza que "iria pegar".

"No meio da canção Sou Brasileiro, de versos e rimas simples como '1, 2, 3 já/ Vamos juntos pular/ Pode ser de qualquer jeito/ Vamos comemorar/ Brasileiro é alegria/ É festa todo dia/ Tá no DNA', o Rei do Futebol entrou na arena que não é a sua."

"Pelé estava rouco. Talvez gripado. Na segunda parte da música, subiu o som da gravação em estúdio ao fundo para ajudá-lo, e mesmo com o playback não pareceu fácil a missão do ex-atleta. Em cinco minutos, ele cantou ABC, o verso "Abre a porteira, que eu quero entrar", de Cidade Grande e, puxado por Edson, dançou abraçado com o cantor."

Após a cantoria desgastante, agradeceu ao público de uma forma que soou exagerada para quem não conhecia sua intenção de ser reconhecido nessa área. "Essa é uma das maiores emoções de toda minha vida. Muito, muito obrigado a todos", afirmou o brasileiro mais famoso de todos os tempos.

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