Clubes brasileiros: cruzeirizem as dívidas ou caiam na falência de vez

Termo surge como sinônimo de arrumar casa. Dívida estimada em R$ 469 mi em 2019 está em R$ 800 mi. Quantos 'Cruzeiros' estão escondidos na Série A?  

Estragos no Mineirão no dia do rebaixamento:  o pior seria descoberto depois

Estragos no Mineirão no dia do rebaixamento: o pior seria descoberto depois

Reprodução Twitter

Cruzeirizar.

O termo começou a pipocar logo após vir à tona a implosão financeira, administrativa e de credibilidade que dilacerou o Cruzeiro em 2019, culminando com a queda inédita do clube mineiro para a Segundona.

Popularizar não como sinônimo de gestões que parecem fazer tudo milimetricamente pensado para tudo dar errado, impressão deixada pelos cartolas da Raposa.

E sim de humildade e coragem para assumir em seus clubes o estágio de forca apertada e água entre a boca e o nariz, fruto de anos de administração entre o incompetente, o irresponsável e o desonesto, e reduzir drasticamente os gastos, hibernando ousadias pelo tempo necessário à recuperação.

E assim negociar dívidas e passar a foice em gastos, altos salários, despesas com infraestrutura, equipes gigantescas e penduricalhos com organizadas, dirigentes antigos e pratas da casa.

É isso que o Cruzeiro faz nesse momento. Até mesmo para não se transformar numa caricatura dele próprio, porque não dá para dizer que a ordem de saneamento seria baixada nesta virada de ano se ainda houvesse tapete capaz de esconder o caos. Cartola de bola? Sabe como é, né?

O próprio Flamengo, hoje comprador agressivo e orgulhoso da bala que tem na agulha, inaugurou a cruzeirização, à sua maneira, ao passar os seis anos dos dois mandatos de Eduardo Bandeira de Mello em plena e assumida recuperação, pagando contas, fechando acordos, negociando dívidas e fugindo de loucuras em contratações mesmo nos momentos de aceno da mão forte da Segunda Divisão. Não é difícil provar que valeu a pena.

Protestos de cruzeirenses e clube na UTI

Como era de se esperar, a torcida do Cruzeiro passou este sábado (11) em feroz protesto nas ruas. O Núcleo Dirigente Transitório do clube é a UTI que herdou a bucha da cartolagem evacuada ao mar logo após o rebaixamento. Nos primeiros 19 dias de trabalho, os gestores descobriram coisas de arrepiar.

As principais:

*A dívida, estimada em julho de 2019 em R$ 469 milhões pelo Itaú BBA, e “entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões” em dezembro pelo ex-dirigente Zezé Perrella, chegou aos R$ 800 milhões. Muita coisa indica que o elevador ainda não chegou ao último andar: rola em Belo Horizonte a conversa o prego total poderá chegar a espantosos R$ 1,2 bilhão.

*O orçamento, de R$ 350 milhões em 2019, cairá para R$ 80 milhões em 2020.

*Praticamente todo o dinheiro de cotas de tevê para jogos futuros foi adiantado – e devidamente incinerado – pelos cartolas depostos. Isso impede o planejamento de pagamentos com ao menos parte dessa verba.

Na tentativa de recuperar o pulso do paciente, a contrapartida do Núcleo foi pesada: 

*Noventa e oito funcionários CLT e PJ demitidos, atitude que, segundo os gestores, poderá gerar economia anual de R$ 25 milhões. E as dispensas não acabaram.

*Mais da metade da frota de veículos do clube será colocada à venda. Restarão apenas os essenciais.

*Levantamento em todos os departamentos na busca de situações que possam gerar economia.

*Estudo de aproveitamento dos imóveis, com redução de custos, rentabilidade e venda dos não essenciais ao funcionamento do clube.

Perrella se perdeu na dívida e 'dirigiu o caos' na retal final do rebaixamento

Perrella se perdeu na dívida e 'dirigiu o caos' na retal final do rebaixamento

Reprodução/Twitter

Poucos notaram, mas o salto cego do Cruzeiro no abismo faz desconfiar da existência de verdadeiras bombas atômicas entocadas na maioria dos grandes clubes brasileiros.

'Cruzeiros' escondidos em outros clubes

Se a dívida da Raposa é quase duas vezes maior do que a revelada apenas cinco meses atrás, com boatos de que poderá caminhar para o triplo, certamente deverá ganhar quem apostar que o prego real de quase todos os clubes na praça é, na verdade, infinitamente maior do que o oficialmente assumido e badalado atualmente por empresas de auditoria e consultoria.

Sendo assim, o que esperar de Botafogo, Atlético-MG, Vasco, Corinthians, Fluminense e outros campeões atuais do papagaio, com suas assumidas dificuldades para cumprir os compromissos mais regulares nesse início de temporada? E, possivelmente, até dos poucos aparentemente saudáveis?

No cenário de exigências do atual futebol brasileiro, uma atividade cada vez mais cara e impiedosamente seletiva se comparada à realidade do País, será pouco provável que o Cruzeiro, ou qualquer outro grande clube em dificuldade, consiga novamente se viabilizar sem algum tipo de parceria de gestão, investimentos, marketing ou tudo isso junto.

Por um motivo elementar: a cartolagem amadora, preconceituosa e naftalinada que puxou a corda dessas instituições até então simplesmente não tem preparo suficiente para fazer um clube andar e evoluir na nova configuração econômica, social, profissional, tecnológica e de mercado que a modernidade e o futebol adotaram.

Parceiros para grandes e boatos de pedido de falência no Cruzeiro

Essa turma exercitou suas lógicas e códigos primários - alguns diriam primitivos - em um outro mundo, que não mais existe e tampouco voltará a existir.

Que cada clube encontre os parceiros ideais e parcerias à sua maneira, preservando os aspectos culturais, sociais e de comando adequados a cada situação.

Mas, com a quantidade de dívidas e obrigações, e diante da dificuldade cada vez maior de captação de recursos no Brasil, com o mercado cada vez mais exigente e disputado, sair sozinho do buraco será tarefa impossível para esses clubes.

O Cruzeiro está aí provando a tese. Quica também em Minas o boato de que, a persistir a rotina puxa-uma-pena-e-arranca-uma-galinha na escalada da dívida e pepinos, os gestores temporários poderiam solicitar brevemente a falência do clube. Empresários importantes e figurões estariam abandonando o Núcleo nos últimos dias exatamente para não terem seus nomes, imagens e trajetória de sucesso ligados e marcados a um pedido dessa natureza.

Há no ambiente o cheiro de cruzeiros escondidos em clubes brasileiros, prontos a dar o ar da graça nos próximos meses e semestres. Resta torcer para que não sejam muitos. E que as gestões atualmente com o cofre vazio e a faca no pescoço se cruzeirizem no melhor sentido, ou seja, o do próprio Cruzeiro pós-queda, o do saneamento atual.

Antes que as bombas atômicas entocadas comecem a explodir.