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Cabecear a bola pode afetar o cérebro antes mesmo de a cabeça se mexer, revela estudo

Pesquisa britânica identificou uma onda de pressão interna que atinge a região frontal em microssegundos

Futebol|Do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Estudo da Loughborough University revela que cabecear a bola causa uma onda de pressão no cérebro em microssegundos antes do movimento da cabeça.
  • A pesquisa introduz um modelo experimental que capta variações de pressão interna no cérebro, indicando que o impacto é mais complexo do que eventos físicos detectados anteriormente.
  • Testes com diferentes tipos de bolas mostraram que a intensidade da onda de pressão varia significativamente, podendo afetar a saúde cerebral dos jogadores.
  • Ainda não há comprovação de efeitos diretos sobre a saúde cognitiva dos atletas, mas evidências existentes apontam para um risco aumentado de doenças neurológicas entre ex-jogadores.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Cientistas estudam os efeitos do cabeceio na saúde dos atletas Gilvan de Souza/Flamengo

Durante décadas, os estudos sobre os efeitos do cabeceio no futebol se concentraram em dois fatores principais: a velocidade da bola e a força do impacto. A lógica é simples. Quanto mais rápido o chute, maior o tranco sofrido pela cabeça e pelo pescoço. Esses parâmetros têm orientado debates sobre segurança e ajudado a definir quais modelos de bola seriam potencialmente menos agressivos ao cérebro.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Loughborough University, no Reino Unido, sugere que esse processo é mais complexo do que se imaginava. Segundo a pesquisa, publicada no periódico Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers: Journal of Sports Engineering and Technology, uma intensa onda de pressão pode atingir o cérebro em frações de segundo antes mesmo de a cabeça começar a se mover.


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A descoberta acrescenta um novo elemento à discussão sobre os impactos do futebol na saúde cerebral de atletas profissionais e amadores. Até agora, a maior parte das medições era feita com sensores instalados no exterior do crânio ou em manequins de teste, capazes de registrar aceleração, rotação da cabeça e absorção do impacto pelo pescoço.

Esses instrumentos, no entanto, não conseguiam detectar o que acontecia no interior do cérebro no exato instante da colisão entre a bola e a testa do jogador.


Para investigar essa etapa invisível, os cientistas do Instituto de Tecnologia Esportiva da universidade desenvolveram um modelo experimental composto por uma estrutura semelhante a um crânio preenchida com um gel que reproduz as propriedades do tecido cerebral.

Dentro dessa cavidade, a equipe inseriu um hidrofone, sensor normalmente usado para captar ondas de pressão em líquidos. Em vez de medir movimento, o equipamento “escuta” variações internas de pressão com altíssima precisão.


O experimento registrou um pico agudo de pressão que se propagou em direção à parte frontal do cérebro logo após o contato com a bola. O sinal apareceu em questão de microssegundos e foi captado a uma taxa de 10 milhões de medições por segundo.

O resultado mais surpreendente foi que essa onda chegou ao interior do modelo cerebral antes de qualquer aceleração detectável da cabeça. Em outras palavras, o cérebro recebe um pulso de pressão quase instantâneo, antecedendo o movimento físico normalmente associado ao cabeceio.


Segundo o pesquisador Ieuan Phillips, autor principal do estudo, esse fenômeno não era detectado pelos sensores convencionais, projetados para medir apenas deslocamentos e rotações.

Pesquisas anteriores sobre lesões cerebrais já mostraram que picos rápidos de pressão dentro do crânio, semelhantes aos observados em explosões sofridas por militares, podem provocar alterações celulares e danos vasculares. Estudos com organoides cerebrais cultivados em laboratório também indicaram que ondas de pressão isoladas podem interferir na atividade dos neurônios.

O novo trabalho não comprova que o mesmo efeito ocorra em jogadores de futebol, mas demonstra que esse tipo de energia efetivamente alcança o cérebro durante um cabeceio.

Para avaliar a influência do material esportivo, os pesquisadores testaram 20 bolas representando diferentes tecnologias desenvolvidas ao longo do último século. O conjunto incluía modelos antigos de couro costurado com algodão, bolas sintéticas modernas e versões intermediárias.

Cada bola foi lançada contra o modelo de cabeça em velocidades compatíveis com partidas reais, em condições secas e molhadas e sob diferentes temperaturas, simulando as variações encontradas em jogos.

Os resultados mostraram diferenças expressivas. Entre os modelos analisados, a intensidade da onda de pressão variou até 55 vezes. Enquanto algumas bolas geraram pulsos relativamente pequenos, outras produziram sinais muito mais intensos, mesmo quando arremessadas à mesma velocidade.

Os pesquisadores ainda não conseguiram identificar exatamente qual característica é responsável por essa variação. Peso, rigidez da superfície e forma como a bola se deforma no impacto estão entre os fatores considerados.

A equipe ressalta que o estudo foi realizado exclusivamente em laboratório. Nenhum voluntário participou dos testes, e não foram avaliados efeitos sobre memória, humor ou desempenho cognitivo.

Por isso, ainda não é possível afirmar se a repetição desse pulso ao longo de milhares de cabeceios em uma carreira contribui diretamente para doenças neurológicas.

Apesar dessa limitação, a preocupação com os impactos do futebol sobre o cérebro já é respaldada por outras evidências. Um estudo conduzido em Glasgow com mais de 7.000 ex-jogadores escoceses mostrou que eles morreram por doenças neurodegenerativas em uma taxa cerca de três vezes e meia maior do que a observada em pessoas da população geral com características semelhantes.

Outra análise realizada na Suécia constatou maior incidência de demência entre jogadores de linha, que cabeceiam com frequência, enquanto goleiros, que raramente utilizam esse fundamento, não apresentaram aumento significativo do risco.

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