Falta de treinos intensos trará prejuízos aos atletas, diz preparador da seleção

A falta de treinos de alta intensidade é o que vai trazer maiores prejuízos aos jogadores de futebol e, consequentemente, aos seus times. Essa é a opinião de Fábio Mahseredjian, preparador físico da seleção brasileira que vem acompanhando a situação dos clubes e conversando com atletas que ainda passam por período de adaptação e também aqueles que se recuperam de lesões durante a quarentena causada pelo novo coronavírus.

Em entrevista ao Estado, o integrante da comissão técnica de Tite afirma que a rotina dos jogadores depende das orientações dos clubes. Alguns times da Europa estão se adaptando com treinos por videoconferência. A maior dificuldade dos preparadores físicos tem sido acompanhar os trabalhos à distância, mas todos estão "se adaptando a nova rotina o mais rápido possível".

Mahseredjian também ressalta que não existem maiores preocupações com as atividades de Neymar, que está sendo acompanhando pelo seu preparador físico pessoal, Ricardo Rosa.

O próximo compromisso da seleção deve será em setembro, data que a Confederação Sul-Americana de Futebol anunciou para o começo da disputa das Eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar, em 2022. Para o preparador físico, ainda não é possível saber se a situação vai estar favorável para o retorno do futebol. "Mas esperamos que sim", afirma. Os jogos iniciais serão disputados entre os dias 4 e 8 - eles estavam previstos parta o fim de março, mas foram adiados por causa da pandemia do coronavírus.

Durante o período de quarentena os atletas costumam comentar sobre a rotina de treinos em casa. Como preparador físico, como está sendo o trabalho de vocês para adaptar os treinos?

Depende muito. Eu tenho conversado com alguns atletas que treinam na Europa e tem sido muito diferente a atuação dos clubes. Alguns estão fazendo até treinamento online, reunindo entre oito e dez atletas para o preparador físico passar o treino por videoconferência. Outros clubes, alguns da Itália, forneceram aos seus jogadores aparelhos como bicicletas ergométricas e esteiras para usarem em casa. Então depende muito de país para país e de clube para clube. As situações são bem diferentes. Alguns times também liberaram seus atletas para voltarem aos seus países de origem e outros não. Nós aqui da seleção não temos acesso a esses atletas, porque eles são do clube, mas nos colocamos à disposição para qualquer dúvida que eles tenham.

Qual a maior dificuldade que vocês veem como profissional para passar esses treinos em período de isolamento?

É uma situação totalmente inusitada. Ninguém no mundo passou um problema assim. Então nós temos de criar situações e nos adaptarmos o mais rápido possível. E as dificuldades é o que vocês estão acompanhando, de ficar próximo ao seu atleta para que possamos dar os exercícios que ele necessite.

Você está acostumado a conversar com outros preparadores físicos para saber como estão os atletas da seleção brasileira. Como andam as conversas entre vocês agora?

Infelizmente eu não estou conversando com nenhum clube da Europa, porque normalmente eu conversava com esses clubes quando os atletas estavam atuando ou tinham algum problema clínico que impedisse esse atleta de jogar. Também falava com os jogadores que estavam em fase de recuperação para voltar aos gramados. Nesse momento, até para respeitar a situação que esses preparadores físicos tem vivido com seus atletas, eu preferi não entrar em contato com eles. Falo diretamente ainda com alguns atletas, principalmente aqueles que estavam voltando de lesão, para saber como eles estão. Mas não tenho conversado com os times.

Vocês sentem uma preocupação maior pelos atletas estarem acostumados com treinos de alta intensidade?

Sem dúvida. Eles sempre estão acostumados a treinar no campo e é isso que faz a maior diferença. Como eles não vem treinando em campo e praticando ações específicas do futebol, isso é o que vai trazer o maior prejuízo a esses atletas e, consequentemente, suas equipes.

Existe também uma preocupação com lesões, já que vocês não podem acompanhar esses treinos de perto?

Até essas preocupações com lesões diminuíram, porque eles não jogam. Se eles não jogam e não treinam com bola, as lesões praticamente deixam de existir, já que elas são proporcionais ao tempo jogado. Quando mais eles jogam, mais expostos a lesões ele estão, não só de jogo, mas até de treino. Então no que diz respeito às lesões, as preocupações praticamente acabaram. Existem preocupações com aqueles atletas que já estavam lesionados antes do período de quarentena. E como eu disse anteriormente, esses atletas eu venho conversado quando necessário. Um exemplo é o caso do Alisson, que teve uma lesão do reto femoral, um músculo da coxa, e ainda não tinha voltado quando a sua equipe entrou em quarentena. Com ele tenho conversado semanalmente.

Atletas mais badalados, como Neymar, chegaram a ser alvos da mídia internacional sobre como estão fazendo os seus treinos em casa. Como estão as conversas sobre as atividades físicas do craque?

Não tenho preocupação nenhuma com o Neymar pelo seguinte motivo: ele está sendo acompanhado diretamente pelo professor Ricardo Rosa, seu treinador individualizado, e o Ricardo trabalha conosco na seleção. Ele também é meu amigo, trabalhei com ele por mais de 20 anos. Trabalhamos juntos no Corinthians por duas vezes. Ele tem vasta experiência no futebol, começou no Corinthians, passando por todas as categorias de base, e trabalhou em muitos clubes.

Assim como as outras entidades, a CBF também precisou se adaptar ao período de isolamento e tem feito reuniões por videoconferência. Como está sendo esse trabalho de tomar decisões a distância?

Sim, nós temos feito reuniões semanais. Uma reunião com todos os integrantes do departamento de seleções que atuam diretamente com a seleção brasileira. A equipe é composta pelos auxiliares técnicos, analista de desempenho, preparador físico, fisiologista, e o Juninho, nosso diretor, que comanda as reuniões juntamente com o Tite. Temos discutido várias assuntos. Normalmente essas reuniões duram por volta de três horas e as decisões que nos temos tomado não são de grande responsabilidade devido às competições estarem paradas, mas nós estamos conversamos sobre diversos temas e vamos continuar fazendo essas reuniões.