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Copa 2018

Estouro de moto e cabeleireiro bom de palpite: a Copa em Paraisópolis 

Moradores de Paraisópolis, região do Morumbi (zona oeste de SP), estão em festa no bairro desde a classificação do Brasil na primeira fase, na quarta (27)

Copa 2018|Kaique Dalapola, do R7

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Ruas de Paraisópolis estão tomadas pela cor da bandeira do Brasil
Ruas de Paraisópolis estão tomadas pela cor da bandeira do Brasil

Copa nos Extremos: o R7 vai acompanhar todos os jogos do Brasil em extremos de São Paulo e trazer as histórias das festas preparadas pelos moradores da periferia.

Durante a partida desta segunda-feira (2), que o Brasil ganhou do México por 2 a 0 e se classificou para as quartas de finais da Copa do Mundo, a reportagem foi na rua dos famosos bailes funk de Paraisópolis, região do Morumbi (zona oeste de São Paulo), onde a PM diz que toma cuidado para entrar.


Menina Valentina no meio da sala durante o jogo
Menina Valentina no meio da sala durante o jogo

Ocupando as vias, os bares e as casas, vários perfis de torcedores: alguns metidos a treinadores, apontando possíveis jogadas para o Brasil ganhar o jogo; outros, principalmente os mais jovens, eram os baladeiros, e estavam praticamente sem dormir desde a vitória da seleção contra a Sérvia, na quarta-feira (27).

“O outro jogo foi a tarde, então a rua encheu e já emendou com o baile e não parou mais, até hoje, e eu estou todo dia. Dá nem tempo de ter ressaca, porque não paro de beber”, fala entre risos e sono Márcio Almeida, 24 anos, que trabalha no almoxarifado de uma empresa.


No entanto, entre todos os torcedores, o palpite do cabeleireiro Humberto de Lima Serafim, 47 anos, ganhou destaque pela insistência. Faltando cinco minutos para começar o jogo, ele ainda mexia no cabelo da recepcionista Aline Souza, 24 anos, que iria iniciar o expediente na mesma hora do começo do jogo. O combinado era ela assistir à partida no salão de beleza onde trabalha — no mesmo bairro.

Última cliente de Humberto antes de ir assistir o jogo
Última cliente de Humberto antes de ir assistir o jogo

“Só vou terminar aqui e me concentrar no jogo. Estou sem dormir direito desde ontem, sonhando que o Brasil vai ganhar de 2 a 0”, disse Humberto, antes mesmo do jogo começar.


Enquanto a partida rolava, o cabeleireiro estava inquieto, andando de um lado para o outro da rua. De um lado, um bar e do outro um restaurante, ambos ligados na seleção. Cadeiras no meio da rua, motos e carros subindo e descendo e as vuvuzelas e cornetas não paravam.

Lindemberg Ferreira, a corneta e a filha
Lindemberg Ferreira, a corneta e a filha

A tensão na rua ia aumentando conforme o jogo passava e o Brasil não abria o placar. Em umas das chegadas do México, a expressão do auxiliar de enfermagem Lindemberg Mendes Ferreira, 49 anos, indicava o clima.


Enquanto a bola foi cruzada na área, Ferreira insistia em dizer "vamos secar, vamos secar!", seguido por sopros à corneta. Quando a bola saiu pela linha de fundo, o auxiliar de enfermagem virou de costas para televisão, se abanou com uma das mãos e, aliviado, gritou: "você é doido, que perigo".

Os gols não saiam, e os torcedores ficavam cada vez mais nervosos. "Brasil já foi alguma coisa no futebol, porque no país mesmo não é nada. Hoje nem no futebol é alguma coisa", disse Cleiton, que prefere ser chamado de Cidão, 22 anos.

Fumaça e família comemorando gol da seleção, no começo do 2º tempo
Fumaça e família comemorando gol da seleção, no começo do 2º tempo

Na sala da casa do professor de escolinha de futebol Cristiano dos Santos Oliveira, o Fumaça, 32 anos, cerca de dez pessoas, entre as que chegavam e saiam, assistiam e queriam ter pelo menos um minuto no lugar do Tite.

A grande família, como definem por terem sido criados juntos e morarem até hoje no mesmo quintal, queria o time mais para cima do México, ofensivo. Agora, como fazer isso que era o problema. "O jogo tem que ser pela direita, Paulinho e Willian têm que participar mais", sugeriu Fumaça.

"Gabriel Jesus tem que deixar o Jardim Peri e ir para Copa, jogou nada ainda", reclamou o manobrista Joel dos Santos, 36 anos.

Seguindo a mesma linha que ele, logo depois de um chute do camisa nove da seleção defendido pelo goleiro mexicano, o professor de futebol Bruno Melo da Silva, 31 anos, camparou: "Tá igual o Juninho [jogador da várzea], quando é para chutar, não chuta, e quando está travado chuta".

A opinião tava longe de ser unânime entre a família. Assim que saía um comentário contra Gabriel Jesus, as vozes já se misturavam em defesa do garoto. A funcionária pública Mônica Melo da Silva, 36 anos, uma das mais nervosas da sala e que não dava muitas opiniões táticas, era uma das que discordava das críticas ao atacante.

Torcedores em momentos tensos do jogo
Torcedores em momentos tensos do jogo

Fim de primeiro tempo. O nervosismo que predominava nos torcedores enquanto a bola rolava parece que foi para o vestiário com os jogadores, e as crianças tomavam a rua fazendo barulho. Mais motos e carros passavam, e as pessoas que assistiam em suas casas também ocupavam as ruas.

Com quase todos ainda na rua, brincando e comemorando (ainda sem motivo), o jogo recomeça para os 45 minutos decisivos. E logo no começo, aos seis minutos, gol do Brasil. Crianças voltavam para rua, as motos estouravam os escapamentos, as pessoas pulavam e gritavam, alguns balançando cadeiras no ar. A festa na favela estava oficialmente retomada.

Um pouco mais aliviado, mas ainda nervoso e inquieto, o cabeleirero Humberto seguia falando que o jogo seria 2 a 0. “Agora aliviou, né, mulher? Quase não dormi a noite, sonhando que o Brasil ia ganhar de 2 a 0”, dizia para quem passava na rua.

Com fim do jogo, moradores foram para ruas comemorar
Com fim do jogo, moradores foram para ruas comemorar

Quando o jogo novamente ganhava tons drámaticos, com a seleção precisando segurar o 1 a 0 nos momentos finais, Firmino entrou e ampliou o placar. "Falei, falei! Eu sonhei que ia ser isso", gritava Humberto na comemoração. Mais oito minutos de jogo e o apito final: classificação garantida.

Mais cadeiras para o ar, crianças e mulheres voltaram às ruas, e as motos novamente subiam uma das principais via do bairro, saindo de todos os cantos e vielas. "Hoje eu preciso dormir para trabalhar amanhã, mas desse jeito a festa vai continuar", disse Márcio.

Cristiano e Djailton antes da partida entre Brasil x México, nesta segunda (2)
Cristiano e Djailton antes da partida entre Brasil x México, nesta segunda (2)

Somente uma pessoa ficou triste com a classificação brasileira: o porteiro alagoano Djailton da Silva, 38 anos. Vestido com uma camiseta do México e balançando a bandeira do país norte-americano, não sabe explicar muito bem a torcida: "porque sim". Ele disse que gosta da seleção mexicana, do Chicharito Hernández, e também curte torcer contra o Brasil. Lamentou no final.

O próximo jogo do Brasil é às 15h de sexta-feira (6), contra o vencedor de Bélgica e Japão. Segundo os moradores do bairro, o dia e horário do próximo jogo são muito propícios para mais uma enorme festa no bairro.

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