Com discrepâncias na preparação dos times, rodada do Brasileirão testará fôlego

O Campeonato Brasileiro terá a partir desta quarta-feira a primeira rodada com os 20 times presentes em campo e será a oportunidade para observar e comparar o quanto a paralisação pela pandemia do novo coronavírus afetou o rendimento dos times. Ao longo dos últimos meses, os clubes e elencos tiveram rotinas muito variadas e recomeçaram a treinar em datas bem diferentes, situações que podem se refletir em campo na parte física e técnica.

Após no último fim de semana quatro jogos terem sido adiados por causa das finais dos Estaduais ou até por surtos do novo coronavírus, a rodada cheia do Brasileirão vai apresentar contradições interessantes. Amanhã, por exemplo, o Internacional jogará no Beira-Rio após 99 dias de treinos desde a retomada e terá como adversário o Santos, que realizou 50 dias de trabalhos. Na rodada de hoje, o Atlético-MG entra em campo após 78 dias de trabalho diante do Corinthians, outro a ter 50 dias de atividades.

"Quem começou antes poderá levar vantagem na parte física por causa período maior de treinamentos. No ritmo de jogo também, já que jogaram mais e, portanto, devem estar mais condicionados fisicamente", disse ao Estadão o preparador físico Moraci Sant'Anna, campeão mundial com a seleção brasileira em 1994.

As discrepâncias de datas se explicam pelas diferentes situações vividas em cada uma das regiões do Brasil até pelas próprias decisões das equipes em antecipar o retorno, caso do Flamengo. Em São Paulo, os quatro principais clubes esperaram o aval do governo estadual para voltar a treinar, o que só ocorreu em 1.º de julho, enquanto a liberação já havia sido oficializada em outras localidades.

Essa diferença causou até cronogramas diferentes mesmo entre clubes quase vizinhos. O Athletico-PR foi vetado pela Prefeitura de Curitiba de treinar, porém o rival, Coritiba, conseguiu voltar aos trabalhos antes porque utiliza um centro de treinamento localizado na região metropolitana da capital, em Colombo.

Meses atrás, enquanto equipes já treinavam diariamente, outras mantinham apenas uma rotina de trabalhos virtuais, com os jogadores dentro de casa. Os atletas cumpriam uma série de exercícios no jardim, quintal ou na varanda e filmavam os trabalhos para a apresentação aos preparadores físicos.

Para o treinador Alberto Valentim, atualmente sem clube, pode pesar a favor de quem voltou antes o benefício de estar com o grupo reunido por mais tempo. "É positivo você como técnico ter mais controle e ficar mais tempo perto dos jogadores. Uma coisa é treinar em casa, a outra é treinar em grupo. Quem conseguiu começar antes, vai levar vantagem tanto na parte física, como técnica e tática", afirmou.

Por outro lado, mesmo que o calendário dos times da Série A neste ano apresente tantas variações é possível que as últimas semanas tenham sido até mais decisivas na preparação do que o longo tempo de treinos. O ritmo de jogo pode pesar. "É preciso ver direito também que tipo de treino foi feito, qual foi a atividade, qual a intensidade", avaliou Valentim.

O técnico e preparador físico Fábio Lefundes, que atua no futebol há mais de 20 anos, defende que quem teve jogos oficiais nos últimos dias pode estar até mais preparado do que quem treina há mais tempo, porém só teve atividades mais leves recentemente. "Quem retornou e conseguiu se manter jogando deve continuar melhor. Se você não jogar, porque que faça treinos com alta exigência, não é a mesma demanda de uma partida", comparou.