A ficha ainda não caiu para Rafaela Silva, a primeira atleta feminina a conquistar uma medalha de ouro num Mundial de Judô para o Brasil, o que aconteceu logo no Rio de Janeiro, sua cidade natal.
"A ficha ainda não caiu. Eu saí tarde daqui e fui comer uma pizza com o pessoal do meu clube, acordei cedo e estou desde então dando entrevistas. Ainda não tive tempo de parar e pensar no que eu fiz", admitiu nesta sexta-feira Rafaela, que na véspera levou o ouro na categoria até 57 kg do Mundial disputado no Maracanãzinho após a desilusão dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.
Na capital britânica, a atleta foi desclassificada na sua segunda luta em função de um golpe nas pernas considerado ilegal pela arbitragem. Após se derramar em lágrimas por causa da eliminação, ela se abateu ainda mais quando recebeu críticas e até ofensas racistas na internet.
"Hoje sei que você não pode se importar com as críticas porque elas te colocam para baixo. É preciso levantar a cabeça e correr atrás do seu sonho", explicou Rafaela.
A judoca parece ter descoberto o segredo para não deixar as críticas chegaram até ela.
"A primeira coisa que eu fiz quando cheguei aqui na competição foi colocar logo meu celular no modo avião, assim não tenho mais esse tipo de problema", brincou a atleta.
Nascida e criada na Cidade de Deus, uma das comunidades mais carentes do Rio de Janeiro, a agora campeã do mundo sabe da importância e do exemplo que é para as crianças do Instituto Reação, programa social do judoca Flávio Canto que dá aos jovens uma oportunidade de vida melhor através do esporte.
"É muito importante. As crianças que estão começando agora podem ver uma pessoa que saiu do mesmo lugar que elas sendo campeã mundial. Se eu saí de lá tendo o mesmo treino e mesma estrutura que elas, por que outras pessoas não poderiam sair?", disse Rafaela, que sabe que terá uma recepção calorosa quando voltar ao Instituto.
"Geralmente, quando chego de uma competição importante com um grande resultado, eles estão me esperando em festa. Nem imagino como vai ser quando eu voltar desta vez", explicou.
No fim, Rafaela surpreendeu ao criticar as pessoas que, como ela, tem origem humilde, mas se utilizam disso para justificar as escolhas errôneas que fazem em suas trajetórias.
"As pessoas que vêm de comunidade carente falam que não têm oportunidade na vida, mas as oportunidades sempre aparecem, só basta elas aproveitarem. Eu, por exemplo, estou aproveitando até hoje", lembrou a medalhista de ouro.
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