Neymar é poupado justamente quando precisava jogar — e a seleção continua esperando
Convocado para provar que ainda pode ser decisivo, o camisa 10 do Santos não estará em campo no jogo em que o técnico da seleção pretendia observá-lo
Zé da Zaga|Do R7

Existe um detalhe incômodo — quase simbólico — na história recente de Neymar com a seleção brasileira. Quando chega a hora de provar que ainda merece o posto de protagonista, algo acontece. Uma lesão, um desconforto, um “poupado”. Desta vez, o roteiro parece se repetir.
O técnico Carlo Ancelotti tinha um plano simples: observar Neymar em campo antes de definir a convocação da seleção para os amistosos contra França e Croácia. O camisa 10 do Santos está na pré-lista e precisa mostrar intensidade e condição física para voltar à equipe nacional. A comissão técnica quer vê-lo competir em alto nível. Nada além do mínimo exigido de qualquer jogador que sonha vestir a camisa da seleção.
Só que Neymar não estará em campo.
O Santos decidiu poupá-lo da partida desta terça-feira (10) — justamente o jogo em que a comissão técnica da seleção pretendia avaliá-lo mais de perto. E aí surge a pergunta inevitável: se esse não é o momento para mostrar que está pronto, qual seria?
Porque, convenhamos, Neymar não vive exatamente um momento de abundância esportiva. Nos últimos anos, sua carreira tem sido marcada por interrupções físicas e longos períodos de recuperação. Tanto que o retorno à seleção depende, mais do que nunca, da comprovação de que ele consegue sustentar ritmo competitivo.
E isso só se prova de uma forma: jogando.
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O problema é que o episódio reforça um padrão que acompanha Neymar há tempo demais. Em momentos decisivos — seja no clube ou na seleção — a expectativa quase sempre vem acompanhada de algum tipo de ausência. Não necessariamente por culpa exclusiva do jogador, é verdade. O futebol moderno virou uma ciência de gestão física, prevenção de lesões e cálculo de minutos. Mas também existe algo chamado prioridade.
E, neste momento, Neymar deveria ter apenas uma.
A seleção brasileira atravessa um processo de reconstrução, ainda tentando reencontrar identidade e protagonismo no cenário mundial. Ancelotti tenta montar um time competitivo mirando o ciclo da Copa de 2026. Nesse contexto, Neymar aparece como um dilema: tecnicamente incontestável, fisicamente incerto.
Por isso, cada jogo deveria ser uma espécie de audição pública.
Mas quando a oportunidade aparece e o protagonista não sobe ao palco, a mensagem que fica é outra: a de que o futebol brasileiro ainda espera por um Neymar que talvez já não exista com a mesma regularidade.
Talvez ele ainda tenha talento suficiente para decidir jogos. Isso ninguém discute.
O que começa a ficar cada vez mais difícil de defender é a expectativa de que isso aconteça com frequência.
E, para um país que ainda insiste em tratá-lo como indispensável, essa é uma discussão que já deveria ter começado faz tempo.
