‘Memphis está se sentindo a pior pessoa do mundo’, revela Diniz. Holandês foi vaiado, xingado pela torcida corintiana. Saiu escondido do estádio
Parecia roteiro de filme. O Corinthians jogava mal, perdia para o Estudiantes diante de sua torcida, em Itaquera, por 1 a 0. Aos 52 minutos, González Pírez, desengonçado, toca o braço na bola. Pênalti que Memphis vai cobrar. É o último lance do jogo. Ele dá três passos até a bola e dá um chute inexplicável. Fortíssimo, como se fosse tiro de meta, e a bola encobre as traves de Muslera. Corinthians eliminado da Libertadores em 2026. Queda justa, já que o time foi muito mal e os argentinos foram superiores ontem
Cosme Rímoli|Do R7

São Paulo, Brasil
“Eu abracei o Memphis.
“O cara está se sentindo a pior pessoa do mundo neste momento, porque recai tudo sobre ele. E não é assim.
“No fundo, para bater pênalti, o cara tem que ter muita coragem.
“Ele tem coragem para bater e errou.
“E erra-se pênalti.
“Quantos jogadores estrelados na história do futebol mundial erraram pênaltis importantes?
“Hoje foi o dia de ele errar.”
Fernando Diniz se esforçou para defender Memphis Depay. Afinal, foi o treinador quem mais insistiu pela caríssima renovação de contrato do holandês.
Mas o que aconteceu com o camisa 10 e principal ídolo atual do Corinthians foi pesado demais.
Se estivesse em um roteiro de filme, seria difícil de acreditar.
Diniz abriu mão de lutar pelo Brasileiro e concentrou todas as forças na Libertadores. E o Corinthians avançava. Havia chegado às quartas. O adversário era o competitivo, mas sem grandes talentos, o Estudiantes.
O Corinthians havia empatado na Argentina por 1 a 1. A expectativa era grande de que, em Itaquera, o time conseguiria garantir a vaga à semifinal.
Mas o time jogou muito mal ontem. Sem criatividade. Garro e Memphis foram bem marcados. E, quando tinham a chance de dar um passe inusitado, um lançamento milimétrico, faltava o homem-gol chamado Yuri Alberto. Sua lesão é terrível para os dois meias que o usam como referência.
Depois de um monótono, amarrado 0 a 0, o Estudiantes marca 1 a 0, aos 42 minutos do segundo tempo. Palácios escapa pela esquerda, Garro, que o marcava, desistiu de acompanhá-lo por pensar que a bola sairia pela linha de fundo.
Não saiu. Palácios cruza e Alexis Castro pega de primeira, de sem pulo, um gol lindíssimo.

O Corinthians e a torcida se desesperam.
A derrota representava a eliminação.
Fernando Diniz manda o time de forma aleatória para a frente.
Sem coordenação, a saída está nos cruzamentos.
A defesa do Estudiantes estava muito bem armada, calma, controlava as ações.
Até que, aos 50 minutos, em um cruzamento, Gustavo Henrique faz o surpreendente corta-luz e desestabiliza psicologicamente Gonzalo Pírez, que toca o braço na bola.
Pênalti para o Corinthians.
Memphis Depay não teve dúvidas.
Estufou o peito, pegou a bola.
Ele iria cobrar.
Afinal, é o líder do time, ídolo internacional.
Jogador com melhor desempenho na carreira, no Parque São Jorge.
Ele fez questão de entrar com uma faixa na cabeça com a palavra em inglês. Nela, a palavra ‘Chosen’, ou seja, o Escolhido.
Aos 53 minutos, ele foi para a bola.
Deu três passos e deu um chute fortíssimo.
Só que foi muito acima da trave de Muslera.
Inacreditável!
O árbitro Jesús Valenzuela encerra a partida em seguida.
O Corinthians estava eliminado da Libertadores.
Memphis ajoelhou-se, ficou abatido demais.
Ele sabia bem da responsabilidade daquela cobrança.
E ainda tentou se aproximar da torcida, depois do desastre de ontem, bater palmas, como o Corinthians sempre faz.
Mas a mágoa da torcida impediu que houvesse a sinergia.
Pelo contrário.
Os torcedores passaram a xingá-lo, vaiá-lo.
Memphis ficou arrasado com o tratamento que recebeu.
Foi a primeira vez no Corinthians.
Ele, sempre tão corajoso, fugiu por uma porta lateral da Neo Química. Porque não queria encontrar os jornalistas, passando pela zona mista, espaço onde os atletas dão suas entrevistas após o jogo.
A Conmebol obriga que todos os envolvidos na partida de Libertadores passem pela zona mista, se quiserem falar, sem problemas. Podem também se calar. Mas precisam passar pelo espaço delimitado, perto da imprensa.
E Memphis não quis nem tentar se explicar pela cobrança bizarra.
Diniz não aceitou o óbvio. Memphis está muito mal fisicamente. E não joga bem. Lógico que sua problemática e longa renovação de contrato o têm atrapalhado na volta. Ficou muito tempo sem treinar com o time.
“Mediante as coisas fossem resolvidas mais rapidamente, o Memphis teria voltado antes, estaria em forma mais rápido. Mas ele perdeu o pênalti. Ele não perdeu o pênalti por conta de tudo isso, ele perdeu porque perdeu.
“Não há garantias de que, se os problemas fossem resolvidos antes, o pênalti ia entrar. Contra o Rosario, ele foi determinante para passarmos de fase. Quando eu o chamei, corremos o risco e o estádio veio abaixo. Não dá para condicionar a perda do pênalti a isso.”
A verdade é que a eliminação só deixa o Corinthians focado no Brasileiro, em que está em 14º, a quatro pontos da zona do rebaixamento.
O clube vai passar este final de ano sem título.
Mas é um grande reflexo da dívida que o time tem: R$ 2,8 bilhões.
Que faz o clube seguir com o transfer ban. Há três meses não pode contratar.
O elenco é limitado.
E se ressente muito quando um jogador importante não pode jogar, como é o caso de Yuri Alberto, contundido.
Mas a tentação de achar um ‘culpado’ é algo tradicional no futebol.
E o peso da eliminação da Libertadores já cai sobre Memphis.
A expectativa agora é ver como o holandês se comportará.
Porque não há explicação racional para a sua cobrança de pênalti.
Foi vergonhosa...
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