'Macaco.' Ameaças de morte. A dor de Luiz Adriano com o racismo

A revolta do atacante palmeirense, por ser chamado de 'negrão' por Matheus Jussa, do Inter, se justifica. Ele sempre honrou ser negro.

Luiz Adriano já sofreu demais para ser chamado de 'negrão' por Jussa

Luiz Adriano já sofreu demais para ser chamado de 'negrão' por Jussa

Reprodução/Sportv

São Paulo, Brasil

"Estou batalhando há anos para mostrar o meu trabalho e jamais entraria em um conflito para me promover!

"No empate contra o Palmeiras essa noite (quarta-feira), houve uma tensão no jogo e no meio desse desentendimento comum, eu me referi a ele dizendo: “O que foi, negrão?".

"Onde para mim é natural, e ele questionou como se tivesse o ofendido. Então, pedi a ele que honrasse a nossa cor conforme foi aberto no áudio em que estou dizendo “honre sua cor rapaz".

"Com pesar afirmo que ser negro não é uma ofensa, é orgulho! Ser chamado negrão por um companheiro em campo nunca foi uma ofensa e nunca será!

"Deixo claro que, em nenhum momento toda a situação ocorreu por conta do gol sofrido. Obrigado a todos os torcedores do Internacional pelo apoio."

Esse foi o desabafo de Matheus Jussa, ao se ver envolvido em uma grave polêmica, com Luiz Adriano. Na partida de ontem, entre Palmeiras e Internacional, o volante se desentendeu com o atacante.

Irritado, ele confessa ter encarado o palmeirense e perguntado.

"O que foi negrão?"

Apesar de ser tão negro quanto Luiz Adriano, o atacante ficou revoltado. E, se não fosse contido, partiria para a agressão física, ao final do confronto.

Luiz Adriano foi comparado a um chocolate derretendo. Preconceito puro

Luiz Adriano foi comparado a um chocolate derretendo. Preconceito puro

Reprodução

Enquanto se afastava, o jogador do Palmeiras ouviu o do Internacional gritar.

"Honre a sua cor. Honre a sua cor. Honre a sua cor, rapaz."

Embora negro, Jussa usou termo que remete ao racismo. 

'Negrão' não é algo digno para ser dito a ninguém.

Luiz Adriano jogou dez anos na Rússia.

E dois na Itália.

Foi alvo de vários atos racistas.

Nas redes sociais, enquanto defendia o Spartak Moscou, foi chamado de 'macaco', em 2019. Por um jornalista aposentado, Andrei Malosolov. A sua punição foi nunca mais ter sua entrada permitida no estádio do Spartak.

Em 2014, quando defendia o Shakhtar Donetsk, marcou cinco gols, na goleada por 7 a 0, diante do Bate Borisov. A torcida adversário, irritada, passou a imitar macacos quando o brasileiro pegava na bola.

Em 2018, o próprio Shakhtar o comparou a um chocolate derretendo, quando o atacante estava treinando suado, sob o sol.

Na Rússia, infelizmente, é normal negros serem ofendidos na rua por racistas.

Luiz Adriano sempre ficou revoltado com essa situação.

E quando aceitou voltar ao Brasil, para jogar no Palmeiras, acreditou que essas situações não se repetiriam.

Puro engano.

Sua ex-mulher, a russa Ekaterina Dorozhko Souza, revelou receber ofensas e até ameaças de morte, nas suas redes sociais.

No Brasil.

O motivo: ser loira e ter se casado com um negro.

"Todos os dias, durante muito tempo, recebo mensagens onde me desejam morte, doença para meus pais, prometem me encontrar, me bater e muitas outras coisas terríveis, porque sou casada com um homem negro. Tenho sorte pois tenho nervos de aço e parei de prestar atenção.

"Uma pergunta: por que tanta crueldade nas pessoas? Afinal, amor, amizade, não conhece cor.

"Se o inferno e o paraíso existem, então o inferno está aqui na Terra."

As ameaças foram há dois meses.

O atacante desabafou.

"É difícil falar, porque, para nós, eu e minha família, é inadmissível passar por qualquer tipo de preconceito e é inadmissível qualquer ser humano sofrer isso na pele.

"O mundo ainda precisa mudar muito e as pessoas precisam aprender que não existem diferenças, sejam elas raciais, de gênero ou classe social. Nada justifica."

Ou seja, Luiz Adriano já sofreu muito com racismo.

Torcida do Bate Borisov imitou macaco. Vingança por ter marcado cinco gols

Torcida do Bate Borisov imitou macaco. Vingança por ter marcado cinco gols

Reprodução/Twitter

Matheus Jussa errou feio ao chamá-lo de negrão.

Negrão, como o volante usou, se encaixa no preconceito estrutural.

O mesmo que repele expressões como mulato, denegrir, trabalho de preto, ter um pé na cozinha.

Passou da hora de banir o preconceito racial.

Mesmo quando for um negro falando para outro negro.

A revolta de Luiz Adriano se justifica.

A justificativa de Mussa não se sustenta.

Não com Luiz Adriano.

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